POR QUE CHORAS, BENGUELA?

ZOOM DA TUNDAVALA

POR AIRES ALMEIDA

Porque foste terra prometida que a catástrofe enterrou. E depositou junto ao mar, na foz do rio que levou a enxurrada, uma lápide onde se pode ler: AQUI JAZ CALIFÓRNIA! Ali estão também depositados os teus sonhos, as tuas esperanças. Também eles, destroços, que a enxurrada levou…

E foi assim… muito rápida. Destruidora. Como são todas as catástrofes.

Houve avisos. Que vinham lá de trás. Há relatos. Há provas disso. Foram apontadas as falhas. Indicados os riscos. Foi dito o que se devia fazer. Para prevenir. Houve alertas. Que foram ignorados nas calmas. E vai-se especulando. Por quê? Talvez porque não chegaram onde ou a quem deviam. Ficaram engavetados algures, nalgum gabinete engravatado. Talvez porque os alertas soaram a falso. Não foram devidamente avaliados.  Por não terem sido emitidos por gente à qual, os destinatários dos alertas, acharam que não deviam reconhecer capacidade para… Talvez. Ou simplesmente porque vieram de fora. E o que não vem de dentro não é para levar a sério, apenas mancha. É assim. Nós é que sabemos…

E agora? Por que choras, Benguela?

Choras pelos teus filhos vitimados pela catástrofe. Pelos que morreram e já não choram. Pelos que ainda devem estar desaparecidos. Pelos que ainda choram.  Choras pelos milhares de desabrigados que, de um momento para o outro, viram os seus bens, casas ou simplesmente os seus abrigos, serem levados pela força das águas. Águas furiosas que tudo levaram à sua frente. Impetuosas. Brutais. Imparáveis. Destruidoras. Vidas destroçadas. Negócios arruinados. Por isso choras…

Choras, Benguela, porque de um momento para o outro os teus filhos se tornaram “zombies”, calcorreando atónitos por entre água, lama e destroços, em busca de respostas aos tantos porquês que aquilo aconteceu. Por que não foi evitado? O que falhou? Não falhou a chuva que choveu quando e como devia. Falharam os homens! Falharam muitos dos teus filhos que hoje sequer admitem isso. E culpam a chuva. E o dique. E a enxurrada. Há certamente outros culpados. Como há os burladores, os vigaristas e trapaceiros, os aproveitadores. Que se serviram ou se servem da tua desgraça, da tua catástrofe, para colher frutos. Indevidos. Falhou a previsão. Ou a previsão mal feita. Como falhou a organização. E a enxurrada não perdoou!

Choras, Benguela, porque a catástrofe podia ter sido evitada. É o que se sabe.  Qual? A chuva que caiu intensa e encheu o rio? Não! A do dique de rebentou e trouxe à tona outras catástrofes. Choras, Benguela, porque enquanto milhares dos teus filhos permanecem ao relento, alguns desfilam para fotografias e vídeos, exibindo sacos e latas de solidariedade. E lágrimas. Que não chegam para tanta desgraça. 

Tu choras, Benguela, porque foste terra prometida que a catástrofe enterrou. E depositou junto ao mar, na foz do rio que levou a enxurrada, uma lápide onde se pode ler: AQUI JAZ CALIFÓRNIA! Ali estão também depositados os teus sonhos, as tuas esperanças. Também eles, destroços, que a enxurrada levou.

Tu choras, Benguela, porque não vai ser fácil recuperar de tanto estrago humano e material.

Choras por uma calamidade não decretada!

Choras por disputas de solidariedade. É ver quem dá mais. Ou faz melhor.  Agora! É o que importa. Não importa como essa solidarieade chega aos teus filhos. Importa é mostrar. E amanhã, como será?

Choras, porque será certo que daqui a algum tempo já ninguém vai falar de ti. Da catástrofe sofrida. Das promessas prometidas. Ou das lágrimas vertidas. Dos dinheiros que não vão chegar a todos. Quando as feridas ainda estão abertas. Depois, a água do rio deixará de correr. As lamas espalhadas pelos teus bairros vão secar. A poeira vai encher o teu ar. Sofrerás de mais doenças. A cólera também mata. E as feridas da catástrofe não vão sarar tão cedo. E tu sabes disso. Por isso choras, Benguela.

Choras, porque não foi só a catástrofe que deixou marcas. Choras porque nem sequer sabes onde e como vais ter os teus filhos a dormir, se as casas prometidas ainda vão ser construídas. Quando? Como é que as suas vidas vão ser reconstruídas? Choras porque tens muitas perguntas sem resposta. Sentes a dor de mãe. 

Choras porque, lá mais para a frente, farás contas ao que foi feito das promessas e garantias que hoje te estão a ser dadas. E, se calhar, te vais dar conta que as tuas dúvidas tinham razão de ser. Choras porque a incerteza tomou conta de ti. 

Por que choras, Benguela?

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