O TEMPO E O BOM SENSO (3)

INSISTINDO – 3

JACQUES ARLINDO DOS SANTOS                                              

Cumprindo o prometido, ofereço aos meus leitores o número 3 dos textos assinados em Outubro de 2020, nesta coluna e sob a epígrafe “O tempo e o bom senso”, este a 17 desse mês, sempre em obediência ao mesmo propósito. O de ajudar a analisar e compreender o caminho que, enquanto cidadãos, trilhamos na nossa difícil rota rumo à felicidade. Entender o rumo da Nação Angolana. Ipsis verbis, sem qualquer emenda ao texto original.

Com votos de boa leitura, prometo novo encontro no domingo próximo, à hora do matabicho, como habitualmente.

Lisboa, 13 de Agosto de 2023

O TEMPO E O BOM SENSO (3)

1 – Se estivermos atentos à linguagem embaraçada e mentirosa a que nos habituaram certos autores de repetitiva escrita oferecida ao público pelos mais diversos meios de comunicação angolanos, verificaremos que estamos em tempo de seriedade duvidosa e de vigarice livremente exibida. Esse palavreado frouxo em voga neste tempo a que chamamos de moderno mas que tem tanto de novo como quanto são velhas as trapaças onde se refugiam muitos dos subscritores de tais textos e relatos –alguns deles no formato de comentário insultuoso –, mostram-nos como são vulgares, chegando mesmo a ser asquerosos nos modos que empregam nessa forma de comunicar. 

Vamos tendo o privilégio de vida de observar como a sua prosa é simultaneamente preocupante, bizarra e confusa, muitas vezes próxima do crime, tamanha é a raiva e o ódio que a envolve e cobarde o anonimato utilizado. Na verdade, e na maior parte delas não há mais do que um certa imbecilidade, coisa própria de quem nada tem para discutir ou argumentar. Falam para amansar frustrações, para boi dormir, voltam-se para temas dignos das tristes cenas que fizeram desses dias que vivemos, uns momentos excepcionais de indignidade como nenhuns outros conhecidos. 

Mas quando observamos melhor ainda, com olhos de ver, com outra profundidade para estes tais tempos intrigantes que vivemos hoje, o que é mais comum retirarmos deles, para lá mesmo da frente deles, são apenas imagens rocambolescas, vergonhosas, cenários inacreditáveis que chegam a amedrontar, prenúncios de dias inseguros e tenebrosos, totalmente diferentes daqueles que deveríamos chamar calma e orgulhosamente de dias do bom porvir, daquele tempo que deveria chegar mais para diante ou, utilizando fala que todos dominamos, o tal tempo do ansiado futuro que tanto custa a chegar. 

Mas, qualquer que seja a forma da sua apresentação, esse tempo não é hoje mais do que é verdadeiramente, ou seja, nada mais que um cenário de muitas sombras, de descriminação encapotada, de nenhuma solidariedade, de mentiras descaradas, de exclusão implícita, de embustes, esquemas, intrigas, desemprego, miséria, fome, de mortes, infelizmente. Esse tempo que é quanto a mim e sem qualquer dúvida, o tempo que surgiu da falta de bom senso acumulado às carradas por muita gente designada pelos tempos fora que correram, como gente a quem o epíteto de “quem de direito” sempre lhes ficou bem, na passagem desastrada dos anos atrás dos anos de nenhuma lisura e de muita pouca vergonha que fomos vivendo desde que alcançamos a liberdade. 

Teríamos evitado o desastre a que assistimos impotentes se fôssemos educados de uma outra forma? Acredito que sim, que talvez fosse possível. Até porque há quem afirme, mesmo perante o descalabro do país, que não há desastre nenhum, e como vamos é que está bem e por isso temos que ir assim mesmo. Se acaso, quem nos antecedeu se tivesse dado ao cuidado de lançar um outro olhar, mas dessa vez mais para trás, mesmo que não fosse tão profundo, mas que alcançasse o tempo em que fundar um país era compromisso sério, principalmente porque nunca se imaginava o mundo afectado por uma pandemia tão arrasadora como a que enfrentamos hoje, talvez não fôssemos surpreendidos. Mas mesmo naquele período em que há cem anos, mais mês, menos mês, quando o tempo ainda não nos responsabilizava tão fortemente, foram-se vendo coisas que passamos a ver desenhados nas nossas memórias, uns cenários semelhantes àqueles que vimos estampados e fotografados e que caracterizaram os dias da Grande Depressão, um evento que teve início em Outubro de 1929 nos Estados Unidos da América, afectou praticamente todo o mundo e só terminou com a Segunda Guerra Mundial. 

2 – Bandido, segundo o que nos dizem os grandes dicionários, é pessoa que vive de roubos ou outras actividades ilícitas, é igual a bandoleiro, assaltante e salteador. Bandido é pessoa pouco honesta, um incivil, termo utilizado recentemente pelo jornalista João Melo que me encheu as medidas, bandido é homem ou mulher de carácter, é patife, é gangster. Precisava mesmo de mais uns quantos nomes feios qualificativos para dizer o quanto desprezo bandidos. Mas, portanto e resumindo, bandido é pessoa sem classificação, sem bom senso. Ora, se percorrermos os caminhos da lógica que calcorreamos na nossa Angola e se ao longo de uma série de anos, concluímos ter visto o nosso martirizado país a ter sido e a ser vítima de enormes roubos, das mais aberrantes ilicitudes, foi e é submetida a autênticos assaltos; se chegados aos dias de hoje na sua história mais recente estão devidamente identificados os ditos cujos gangsters, os patifes, os desonestos e outros tipos da mesma igualha, não podemos ter qualquer receio em chamar de bandido, qualquer desses canalhas causadores da nossa desgraça. Por muito que isto custe a ser admitido por quem apoia e faça preces a favor dessa clique de gente desclassificada, por seus familiares e amigos, por motivos fáceis de adivinhar, pelos seus juristas e advogados, pelos seus defensores oficiais e oficiosos, todos eles filhos de seus pais, pertencentes a uma classe que, sendo importante e respeitada, não deixa de ser das mais responsáveis pela queda da nossa dignidade e pelo roubo a que fomos submetidos, enquanto país. Por isso apoio o movimento que começa a ganhar forma no pensamento de muitos angolanos cujo lema é “mais economistas, mais médicos e engenheiros, mais arquitectos, enfermeiros, parteiras, bons gestores, mais artífices, carpinteiros e pedreiros, mas advogados, juízes e juristas, só os de qualidade, só os de muitos valores no currículo, indispensavelmente HONESTOS, para que se veja, finalmente, justiça verdadeira na nossa sociedade”. 

Lisboa,17 de Outubro de 2020 

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