MUSEU DA MEMÓRIA DO 27 DE MAIO

(Espaço de Homenagem às Vítimas e de Preservação da Verdade)

CARLOS RIBEIRO

1. Identificação do Projecto

Designação: Museu da Memória do 27 de Maio

Localização proposta: Cemitério do 14, Luanda (junto à vala comum) ou em local a designar

Tutela: Conselho de Curadoria com participação paritária do Estado angolano e das associações de vítimas de 27 de Maio.

Arquitectura: Projecto de arquitetura memorial, a definir por concurso internacional

2. Conceito Central do Museu

O museu é concebido como um lugar de memória, dor e reconciliação – inspirado em instituições como o Museu do Holocausto em Washington, e no Museu da Memória e dos Direitos Humanos no Chile.

Três eixos programáticos:

3. Espaços e Percurso Museográfico

O edifício desenvolve-se num percurso cronológico-espiral que desce simbolicamente para as profundezas do sofrimento e depois ascende à esperança.

3.1. Hall de Entrada – “Porta da Memória”

  • Grande painel em aço corten com a frase: “O 27 de Maio não é uma coisa que foi escrita a lápis” ou (frase a designar)
  • Mapa tátil do país, com os locais de detenção e execução assinalados
  • Balcão de acolhimento e loja do museu

3.2. Galeria dos Nomes (Memorial Central)

  • Parede côncava de betão aparente com os nomes das vítimas identificadas (em constante actualização)
  • À entrada, um livro electrónico onde os familiares podem inscrever novos nomes
  • Espaço para velas e pequenas oferendas (flores, cartas)

3.3. Sala do Contexto Mínimo (apenas para situar o visitante)

Não se aprofunda a história. Apenas uma linha do tempo visual de 3 minutos.

  • Cronologia de 1975-1979 em grandes ecrãs
  • Reprodução de documentos históricos relacionados com o 27 de Maio.

3.4. Sala do Dia – “27 de Maio de 1977” (Imersão)

  • Reconstituição sonora ambiente: vozes de manifestantes, tiros, rádio a ser tomada
  • Projectões em paredes de tecido com fotografias de arquivo (manifestações, prisões)
  • Instalação interactiva: o visitante pode ouvir trechos da rádio nacional na manhã de 27 de Maio

3.5. O Corredor da Tortura (experiência sensorial)

  • Corredor estreito, mal iluminado, com paredes de betão áspero
  • Em cada nicho: um testemunho de sobrevivente (áudio com auscultadores)
  • Reconstituição de uma cela da DISA (cadeira de tortura, algemas, muros com inscrições originais)

3.6. Sala das Execuções – “Onde Caíram”

  • Projecção em chão de vidro sobre maquete topográfica das valas identificadas
  • Documentos originais: listas de execução, ordens de transferência
  • Instalação de luz e sombra: a cada minuto, um nome de vítima morta é iluminado e lido em voz baixa

3.7. O Memorial da Vala Comum

  • Poder-se-a ver os restos mortais através de uma passadeira elevada
  • Ecrãs com resultados de ADN (quando disponíveis) e identificação de vítimas

3.8. Galeria dos Sobreviventes e dos Órfãos

  • Retratos a preto e branco
  • Frases manuscritas em grandes letras nas paredes ou depoimentos em vídeo

3.9. Sala da Justiça e da Verdade Incompleta

  • Exposição crítica da CIVICOP (o que fez, o que não fez)
  • Documento do pedido de perdão do Presidente João Lourenço (2021) – projectado numa parede rasurada a tinta vermelha
  • Instalação interactiva onde o visitante é “inundado” por imagens e sons dos acontecimentos de maio de 1977

3.10. Sala da Reconciliação – “Nunca Mais”

  • Espaço circular com bancos de pedra
  • Citações de outros países (vitímas e sobreviventes)
  • Parede final: “Este museu não é um ponto final. É um ponto de partida.”

3.11. Centro de Documentação e Investigação (acesso restrito)

  • Arquivo digital de todos os testemunhos recolhidos
  • Sala de leitura para historiadores e jornalistas
  • Parceria com universidades para investigação sobre o 27 de Maio

3.12. Espaço Educativo e Mediação

  • Ateliers para escolas secundárias
  • Guiões adaptados para diferentes níveis etários
  • Formação de mediadores (privilegiando filhos e netos de vítimas)

4. Arquitectura e Simbologia

5. Programação e Actividades Permanentes

  • Visitas guiadas por sobreviventes ou seus familiares (mediante formação)
  • Ciclo de cinema documental (todas as últimas sextas-feiras)
  • Noite da Memória (27 de Maio de cada ano) – vigília com leitura de nomes
  • Exposições temporárias (ex: “Mulheres do 27 de Maio”, “O exílio dos órfãos”)
  • Protocolo com escolas – todas as turmas do 12º ano visitam o museu

6. Governança e Participação das Associações de Vítimas

O museu será gerido por um Conselho de Administração composto por:

  • 3 representantes das associações de vítimas de 27 de Maio.
  • 2 representantes do Estado (Ministério da Cultura, Ministério da Justiça)
  • 1 representante da CIVICOP
  • 1 historiador independente (eleito pela comunidade académica)
  • 1 representante da sociedade civil (designado pela Provedoria de Justiça)

Garantias:

  • Nenhuma alteração à exposição permanente pode ser feita sem acordo de 2/3 do Conselho.
  • As associações de vítimas têm direito de veto sobre qualquer conteúdo que minimize ou falseie o sofrimento das vítimas.

7. Financiamento e Sustentabilidade

Orçamento total (construção + instalação + 2 anos de operação): 6,5 milhões USD

8. Cronograma (30 meses)

9. Conclusão (museológica)

Museu da Memória do 27 de Maio não é um museu histórico convencional. É um dispositivo ético: um espaço onde a dor das vítimas se torna pedagogia e onde o silêncio imposto pelo Estado durante décadas é finalmente quebrado pela palavra dos sobreviventes.

Inspirado nos museus do Holocausto e das ditaduras sul-americanas, este museu propõe uma experiência visceral, documental e reflexiva – que nenhum visitante sairá indiferente.

COMO IMPLEMENTAR

Plano de Implementação do Museu da Memória do 27 de Maio, está estruturado em fases, com responsabilidades, prazos, recursos e indicadores de sucesso.

Parte-se da perspectiva das vítimas assumindo, que o Estado poderá participar formalmente, mas na prática, presume-se, que deverá colocar obstáculos burocráticos, atrasos ou tentará “engavetar” o projecto. 

Portanto, o plano é autónomo, resiliente e construído de baixo para cima, com estratégias de pressão, visibilidade internacional e financiamento paralelo.

1. Premissas Fundamentais

2. Estrutura de Governança (Liderança Vítima)

O Estado pode ser convidado a integrar uma “Comissão de Acompanhamento” – mas o CCV mantém poder de veto sobre qualquer decisão. Se o Estado boicotar, o projecto avança sem ele.

3. Estratégia Anti‑Obstrução

4. Fases de Implementação (com contingências)

FASE 0 – Mobilização e Fundação (Meses 1–6)

Sem dependência do Estado

FASE 1 – Aquisição e Preparação do Espaço (Meses 6–12)

Actividades comuns a ambos os cenários:

  • Levantamento topográfico do terreno (por empresa privada)
  • Projecto arquitectónico minimalista e de baixo custo (contentores adaptados, betão aparente) – reduz dependência de grandes empreiteiros
  • Contratação directa de pequenos empreiteiros (evitar concursos públicos que o Estado pode travar)

FASE 2 – Recolha de Acervo e Testemunhos (Meses 1–18) – inicia imediatamente

Actividade mais segura porque não depende do Estado

FASE 3 – Construção ou Requalificação (Meses 12–24)

Execução por fases, para minimizar impacto de uma eventual interdição

O museu não precisa de ser um palácio. Uma nave industrial, uma antiga fábrica, ou até contentores marítimos podem albergar a exposição. O importante é o conteúdo e a mensagem.

FASE 4 – Abertura ao Público e Sustentabilidade (Mês 24 em diante)

Com ou sem reconhecimento estatal

5. Plano de Contingência para “Engavetamento” Total

Se o Estado bloquear fisicamente o acesso ao terreno, prender dirigentes ou confiscar o acervo:

6. Orçamento (Perspectiva Vítima – Mínimo Viável)

Comparar com os 6,5 milhões da versão estatal – este orçamento é realista para uma implementação autónoma e resistente.

7. Indicadores de Sucesso (Perspectiva Vítima)

8. Conclusão (do Plano)

Este plano parte da desconfiança activa em relação ao Estado angolano. As vítimas do 27 de Maio esperam há 49 anos por justiça. Não podem esperar mais 49 anos por um museu.

  • Se o Estado colaborar, melhor – o museu será mais rico do ponto de vista de acervo e da sua importância, em termos de reconciliação e perdão.
  • Se o Estado atrasar, o museu abre numa antiga fábrica com contentores.
  • Se o Estado reprimir, o museu torna-se virtual e internacional, e a denúncia sobe para Haia.

O museu, se pode! Com ou sem a participação do Estado.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

PROCURAR