INCÊNDIOS E MIGRANTES, O ESPECTÁCULO DO FOGO QUE NUNCA SE APAGA

O grande negócio da tragédia

Por um observador que já não sabe se chora ou se ri…

I. O ensaio geral

Há dois espectáculos que se repetem todos os anos, com a pontualidade dos relógios suíços e a teatralidade de uma telenovela mexicana: os incêndios florestais e a chegada de barcos com migrantes às costas europeias.

Em ambos, há fogo: num caso literal, no outro metafórico. Em ambos, há heróis (bombeiros e salvadores marítimos), vilões (pirómanos e traficantes) e vítimas (árvores e pessoas). E em ambos, há um negócio fabuloso que ninguém quer discutir abertamente, porque isso estragaria o espectáculo.

II. O parque de material de combate

Os barcos vs. os aviões

Vamos a factos concretos, que é para não parecer que andamos a inventar teorias da conspiração.

A semelhança é gritante: o material de combate ao problema é também uma fonte de lucro para quem o fornece. Tal como os aviões que apagam fogos são alugados por empresas que lucram com a existência dos fogos, os barcos que transportam migrantes são fornecidos por uma cadeia logística que lucra com a existência da migração irregular.

A diferença, claro, é que os aviões são legais e os barcos são ilegais. Mas a lógica económica é a mesma: quanto maior a tragédia, maior a facturação.

III. Os heróis e os vilões: o teatro da culpa

As polícias e os poderes

A actuação das forças de segurança em ambos os casos segue um guião rigoroso:

  • Nos incêndios: prende-se o pirómano. É fácil, é visível, dá boas fotografias para os telejornais. O problema é que o pirómano é apenas o elo mais frágil da corrente. A verdadeira causa dos incêndios, a monocultura de eucalipto, a falta de gestão florestal, os interesses da indústria do papel, nunca é discutida nas conferências de imprensa.
  • No tráfico de migrantes: prende-se o barqueiro. É fácil, é visível, dá boas fotografias para os telejornais. O problema é que o barqueiro é apenas o elo mais frágil da corrente. A verdadeira causa do tráfico: a corrupção sistémica, a utilização política da migração, os interesses económicos que dependem de mão de obra precária, nunca é discutida nas conferências de imprensa.

Em ambos os casos, o discurso oficial é o mesmo: “Estamos a combater o mal com toda a nossa força”.E de facto, combatem-se os sintomas com a eficiência de quem não quer combater a doença.

A Europol e a sua dança das cadeiras

A Europol, “coitada”, é frequentemente confundida com uma força policial europeia. Não é. É uma agência de coordenação que partilha informações e apoia as polícias nacionais. Não prende ninguém. Não penaliza ninguém. É como um maestro que dá a batuta, mas são os músicos que tocam.

O que a Europol faz, de forma meritória(???), é tentar desmantelar as redes. Em 2026, lançou o Centro Europeu contra o Tráfico de Migrantes (ECAMS), focado em investigações financeiras e digitais. Resultados? Apenas 2% a 5% das operações resultam na prisão dos verdadeiros líderes. Os cabeças das máfias continuam impunes, protegidos por camadas e camadas de intermediários, enquanto os barqueiros, os “executores”, vão para a cadeia.

É como prender o homem que acendeu o fósforo e deixar livre o dono da empresa que vende o combustível para o efeito.

IV. Os intermediários e a corrupção

Onde o dinheiro e o poder se encontram

No tráfico de migrantes:

  • Os intermediários operam em países com pouca ou nenhuma cooperação judicial com a Europa (deixem-me tossir para o lado…). Mali, Níger, Líbia, supostos paraísos fiscais da impunidade.
  • Há funcionários corruptos em todos os níveis: polícias, agentes de migração, ministérios inteiros. Na Tunísia, as autoridades são acusadas de vender migrantes subsarianos a grupos armados por 12 a 90 euros por pessoa. E esta é uma das acusações mais documentadas.
  • Os financiadores e os investidores imobiliários que lucram com mão de obra barata, esses nunca são mencionados. Dá jeito que o problema seja sempre “os traficantes maus” e nunca “o sistema económico que precisa de mão de obra precária”.

Nos incêndios:

  • Os donos das empresas de meios aéreos têm lugar em conselhos florestais e lobbies que bloqueiam políticas de diversificação.
  • As seguradoras disputam os prémios, enquanto as construtoras lucram com a reconstrução em áreas ardidas.
  • Os fundos de investimento compram terrenos desvalorizados pelo fogo, sabendo que a reflorestação com espécies de crescimento rápido vai gerar subsídios públicos.

Em ambos os casos, o custo do problema é socializado (todos pagamos aos bombeiros, os aviões, a vigilância de fronteiras), mas o lucro é privatizado por um pequeno grupo de actores que se alimentam da tragédia.

V. A patetice dos porta-vozes

O discurso oficial em acção

Porta-voz do Governo (incêndios):

“Estamos a mobilizar todos os meios disponíveis para combater as chamas. É uma prioridade absoluta do Governo. Apelamos à responsabilidade de todos.”

(Tradução: “Os aviões estão a arder dinheiro público, mas isso não se diz. Vamos continuar a cortar árvores em vez de fazer prevenção, porque a indústria do papel tem muito lobby.”)

Porta-voz do Governo (migração):

“Estamos a trabalhar com a Europol e com os países de origem para desmantelar as redes de tráfico. A nossa prioridade é salvar vidas.”

(Tradução: “Vamos continuar a prender barqueiros e a fazer discursos emocionantes, porque os verdadeiros cabeças das máfias operam em países onde não podemos tocar e quando podemos, não tocamos. E vamos continuar a financiar centros de acolhimento que são geridos por ONGs que lucram com a permanência dos migrantes em situação precária.”)

O “discurso da boa vontade” e a sua perecibilidade

A imprensa, essa fiável transmissora da verdade (risos…), repete o discurso oficial com a devoção de um velhote catequizado. Raramente se pergunta:

– Quem são os donos das empresas de aviões?

– Quem são os fornecedores dos barcos que as máfias compram na Ásia?

– Quem são os compradores dos barcos?

– Porque é que os líderes das redes nunca são presos?

– Que interesses económicos beneficiam com a existência de migrantes sem documentos?

Essas perguntas são inconvenientemente próximas da realidade. Prefere-se o drama humano, a imagem do barco a chegar, a entrevista com o sobrevivente emocionado. O resto é silêncio.

VI. As diferenças que não são assim tão diferentes

Afinal, há diferenças?

QUADRO

Mas a lógica é a mesma:

  • Cria-se a condição para a tragédia (monocultura inflamável / fronteiras fechadas e falta de vias legais).
  • Explora-se a tragédia (venda de aviões / venda de barcos).
  • Socializa-se o custo (bombeiros / resgate no mar).
  • Privatiza-se o lucro (empresas de meios aéreos / máfias e sectores económicos).
  • Prende-se o elo mais fraco (pirómano / barqueiro).
  • Protege-se o sistema (lobbies da celulose / lobbies da mão de obra precária).

VII. O humor como exorcismo

A certa altura, a única resposta possível ao espectáculo é rir. Rir para não chorar. Rir para não desistir.

O porta-voz do Governo, em directo, com a seriedade de um juiz:

“Estamos a fazer tudo o que está ao nosso alcance”.

(O que está ao alcance: prender barqueiros, apreender barcos, comprar aviões, financiar centros de acolhimento, fechar fronteiras, abrir fronteiras, fazer discursos, fazer fotos, fazer tweets).

(O que não está ao alcance: mexer nos interesses económicos que alimentam a tragédia).

E o cidadão comum, a ver as notícias, com uma batata na mão:

“Mas então os aviões são alugados a empresas privadas? Os barcos são comprados no AliExpress? As máfias têm polícias corruptos? Os Estados usam a migração como arma política?”

(Resposta do ecrã: silêncio.)

VIII. O fogo que nunca se apaga

Talvez a maior semelhança entre incêndios e migração seja esta: o sistema está desenhado para não se resolver.

Se se acabassem os incêndios, acabava o negócio dos aviões, das reconstruções, das seguradoras, dos fundos de investimento.

Se se acabasse o tráfico de migrantes, acabava o negócio dos barcos, dos centros de acolhimento, da vigilância de fronteiras, da mão de obra precária.

O que parece “permissividade” ou “incompetência” é, na verdade, a protecção de interesses enraizados. A tragédia não é um acidente; é um negócio.

E enquanto os porta-vozes continuarem a repetir o mesmo discurso, os aviões continuarão a voar, os barcos continuarão a navegar, e as vítimas continuarão a arder: umas no fogo literal, outras no fogo metafórico da desesperança.

O espectáculo continua. E nós, na plateia, continuamos a pagar o bilhete.

P.S. — Se este artigo pareceu demasiado cínico, peço desculpa. Talvez seja apenas o cansaço de ver o mesmo filme todos os anos, com actores diferentes, mas com o mesmo argumento. E talvez, no fundo, o que nos une a todos: incêndios, migrantes, porta-vozes e espectadores, seja exactamente a incapacidade de mudar o guião.

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