A ÁFRICA NÃO CRESCEU: O MAPA É QUE ESTAVA A MENTIR!

CARLOS GOMES NGONDI SUCAMI*

África já recuperou o seu tamanho no mapa. Agora falta-lhe recuperar, definitivamente, o tamanho da sua ambição. E uma palavra especial para a memória de Sindika Dokolo, que, com todas as controvérsias que marcaram a sua trajectória, deixou também uma intervenção importante no debate sobre a dignidade, a cultura e a afirmação africanas.

Finalmente, a ONU começou a corrigir uma velha maka cartográfica: a projecção de Mercator pode fazer a Groenlândia parecer quase do tamanho da África, embora a África seja cerca de 14 vezes maior. A nova proposta, Equal Earth, procura representar melhor as áreas reais. 

Mérito ao Togo, que teve a coragem diplomática de pegar na maka, levá-la à ONU e dizer: “Meus senhores, vamos corrigir este mapa!”. O resultado? A ONU aprovou em 4 de Setembro a resolução “Correct the Map”, por 164 votos a favor, 1 contra e 6 abstenções. O único voto contrário foi o dos Estados Unidos. 

Mas esta vitória não deve ser atribuída apenas ao Togo. 

Devemos também fazer justiça à memória daqueles africanos que, antes desta batalha chegar às Nações Unidas, já questionavam as narrativas que diminuíam África. É aqui que entra o Sindika Dokolo.

O falecido empresário e activista panafricanista, que teve em Angola uma importante base da sua vida e actividade, levantou em diferentes momentos questões sobre a forma como África era representada e percepcionada. A sua Fundação, sediada em Luanda, esteve igualmente ligada à promoção da cultura e da produção artística africana.

Por isso, o Togo merece os aplausos pela iniciativa diplomática; Sindika Dokolo merece o reconhecimento por ter alimentado esse espírito de questionamento; e África merece o mérito maior por finalmente começar a corrigir não apenas um mapa, mas uma percepção.

E Angola, onde fica nesta história?

Angola não pode ficar apenas a assistir à fotografia. Angola é parte da história desta consciência africana.

Foi em Angola que a luta anticolonial encontrou uma das suas trincheiras decisivas. Foi em Angola que milhares de homens e mulheres deram a vida pela independência. Foi em Angola que, em 1975, nasceu uma República que se assumia soberana diante de um mundo que ainda olhava para África com lentes coloniais.

Por isso, quando hoje o mapa começa a mostrar a verdadeira dimensão de África, Angola deve também perguntar-se qual é a dimensão que quer ocupar na África real.

Porque, meus manos, não adianta termos um continente enorme no mapa e uma ambição pequenina na cabeça!

Não basta descobrir que África é 14 vezes maior que a Groenlândia. É preciso fazer com que essa dimensão se traduza em economia, ciência, indústria, educação, tecnologia, cultura, diplomacia e influência geopolítica.

E Angola tem condições para ser uma das vozes dessa transformação.

Tem território, recursos naturais, posição geográfica estratégica, população jovem, cultura, experiência histórica e uma ligação privilegiada com a África Austral e Central.

Mas há uma maka: ser grande no mapa não é o mesmo que ser grande no mundo.

A verdadeira descolonização não termina quando mudamos a imagem pendurada na parede da escola. Começa quando o africano deixa de pensar que tudo o que vem de fora é automaticamente melhor.

E os EUA? 164 países disseram “SIM”; Washington respondeu “NÃO”

Então, os americanos conseguem aceitar satélites que fotografam até a sombra do nosso quintal, conseguem colocar homens na Lua, conseguem fazer inteligência artificial conversar connosco… mas quando chega a hora de reconhecer que África é grande mesmo, dizem: “Calma lá, isso é agenda ideológica!”

Eh pá, mano! Afinal o problema não era o tamanho da África; era o tamanho da teimosia!

Washington pode discordar da resolução, naturalmente. Mas fica uma pergunta de mbora: se um mapa tecnicamente distorcido é apenas um mapa, por que tanto medo de o corrigir?

A questão é mais profunda do que cartografia. Durante muito tempo, África foi também desenhada mentalmente como pequena: pequena na economia, pequena na ciência, pequena na diplomacia, pequena na capacidade de decidir o seu próprio destino.

Agora a cartografia está a dizer aquilo que os nossos avós já sabiam: a África é grande, ó!

Grande em território. Grande em população. Grande em recursos. Grande em culturas. Grande em potencial.

O problema é que, às vezes, nós próprios continuamos a viver como se estivéssemos no velho mapa de Mercator: com pensamento pequeno dentro de um continente gigante.

E aqui está a verdadeira maka. Não basta aumentar a África no mapa se continuarmos a diminuir África na governação, na educação, na ciência, na industrialização e na autoestima.

Porque mudar o desenho do continente é fácil. Difícil é mudar a cabeça do africano que ainda pensa que tudo que vem de fora é automaticamente melhor.

Por isso, a decisão da ONU tem um simbolismo interessante: a África não cresceu. A África sempre foi grande. Apenas começaram a desenhá-la correctamente.

A partir de agora, quando alguém disser que África é pequena, podemos responder: “Meu irmão, abre o mapa novo! A África não aplicou a jarda, não fez dieta, não usou Mutamba… simplesmente apareceu do tamanho que sempre teve!”

E talvez esta seja a maior lição desta história: há mapas que deformam territórios e há mentalidades que deformam povos.

O primeiro corrige-se com cartografia. O segundo, só com consciência.

África já recuperou o seu tamanho no mapa. Agora falta-lhe recuperar, definitivamente, o tamanho da sua ambição.

E aqui está a verdadeira maka: podemos corrigir o mapa em papel, no computador e na escola. Mas será muito mais difícil corrigir a mentalidade de quem continua a olhar para África como se ela fosse pequena.

O mapa está a mudar. Agora falta mudar a nossa maneira de pensar. 

Por isso, mérito ao Togo, pela coragem de levar a questão à ONU.

Mérito à União Africana, pelo apoio a uma iniciativa que toca numa questão simbólica, educativa e política importante.

Mérito aos panafricanistas que, antes desta votação, já questionavam as narrativas que diminuíam África.

E uma palavra especial para a memória de Sindika Dokolo, que, com todas as controvérsias que marcaram a sua trajectória, deixou também uma intervenção importante no debate sobre a dignidade, a cultura e a afirmação africanas.

E, sobretudo, mérito a África! Porque África não cresceu. África sempre foi grande. O que estava pequeno era o desenho. O que estava torto era o mapa.

Quanto aos cow boys americanos que votaram contra, fica apenas a nossa humilde resposta de mwangolé: “Meus irmãos, não precisam aumentar a África. Ela já é grande. Só não tentem diminuí-la outra vez!”

Porque agora já sabemos:

A áfrica não precisa de crescer. precisa de ser vista como ela realmente é.

E Angola, no meio dessa África gigante, não pode continuar a “banzelar” pequeno. 

Enquanto isso, eu vou “banzelar” no tamanho da funjada do sábado, como é de praxe. 

Bom fim de semana para todos. 

*Menga-Ma-Kimfumu

Sindika Dokolo, deixou também uma intervenção importante no debate sobre a dignidade, a cultura e a afirmação africanas.

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