
Angola precisa de velocidade sim, mas velocidade para tirar primeiro as crianças da fome, colocar professores e alunos em escolas dignas, levar medicamentos aos hospitais, financiar agricultores e criar empregos.
Angola parece ter descoberto, finalmente, como andar a duas velocidades. De um lado, há a Angola da modernidade, dos grandes eventos, dos discursos sobre o futuro e, agora, dos barcos eléctricos a alta velocidade na Baía de Luanda. Do outro, há a Angola que continua a andar devagar. Muito devagar, atrás de uma carteira escolar, de um prato de comida, de medicamentos e, em muitos casos, de uma sala de aula que não tenha o céu como tecto. É, simplesmente, desmoralizante assistir a este contraste. Enquanto uns discutem experiências náuticas de luxo, milhares de crianças continuam a estudar debaixo de árvores e outras chegam à escola com o estômago a fazer mais barulho do que o professor. E há uma verdade que nenhum barco eléctrico consegue esconder: criança com fome aprende pouco e abandona muito.
Os programas sociais são importantes, mas quando a comida destinada aos mais vulneráveis desaparece misteriosamente a favor do mercado paralelo, temos um problema maior do que a falta de merenda. Temos um sistema em que até a fome parece ter intermediários. E quando uma criança abandona a escola porque precisa de procurar comida, não estamos apenas a perder um aluno. Estamos a hipotecar o futuro da Nação. Enquanto isso, todos os anos ouvimos que “a criança é o futuro”. Parece que o futuro continua muito mal alimentado.
Na saúde, o quadro não é menos preocupante. Famílias sem dinheiro enfrentam hospitais com dificuldades, medicamentos que nem sempre estão disponíveis e uma assistência que, para muitos, continua a ser uma espécie de lotaria. E aqui talvez seja preciso fazer uma pergunta que pode parecer incómoda para alguns: de que serve falar de futuro, inteligência artificial, megaprojectos e modernidade, se uma criança pode morrer porque faltou um medicamento básico numa unidade hospitalar? A modernidade que não consegue chegar à enfermaria infantil é uma modernidade de montra. Bonita para fotografar, mas pouco útil para quem está doente.
E depois temos a agricultura, essa eterna promessa nacional que parece viver permanentemente em período eleitoral. Angola distribui sementes, entrega instrumentos, anuncia programas e apresenta fotografias com agricultores sorridentes. Pelo KWENDA, chegam algumas “merrecas” às famílias, enquanto o povo bate palmas. Só que, depois da fotografia, continua a faltar quase tudo, crédito acessível, mecanização, irrigação, estradas rurais, armazenamento, assistência técnica e mercados para vender a produção. O agricultor planta sem saber exactamente onde vai vender, por quanto vai vender e se conseguirá transportar aquilo que produziu. Assim, a agricultura continua a ser tratada como política de discurso, quando deveria ser uma verdadeira indústria nacional.
É aqui que entram instituições como o BAD, o FACRA e outros mecanismos de financiamento, que deveriam ajudar a transformar o pequeno produtor num empresário agrícola e não apenas a beneficiário indicados. Angola tem terra, água, juventude e condições para produzir muito mais. Mas não basta entregar enxadas e sementes para depois importar alimentos que poderíamos produzir cá. Não faz sentido produzir milho e continuar dependente de importações; produzir tomate e importar derivados; colher fruta e deixar que se perca por falta de conservação. A agricultura precisa de deixar de ser vista como caridade e passar a ser encarada como negócio, emprego, segurança alimentar e soberania económica.
E é precisamente neste cenário que aparece o E1 Luanda GP 2026, nos dias 12 e 13 de Setembro, na Baía de Luanda, com os seus barcos eléctricos, glamour, celebridades e toda uma atmosfera de modernidade. Não há problema nenhum em Angola receber grandes eventos internacionais. Pelo contrário: podem promover turismo, a imagem externa, negócios e colocar o país no mapa. A pergunta é outra, meus senhores: quanto custa? Quem paga? Quem beneficia? E qual é o retorno para o cidadão comum? Porque enquanto uns aceleram na água em barcos eléctricos, há famílias que continuam a fazer corrida de obstáculos para conseguir pagar a cesta básica.
O problema, portanto, não é o barco eléctrico. O problema é a velocidade da prioridade. Quando o fútil ganha força em relação ao útil, alguma coisa está errada. Luxo na miséria é uma combinação particularmente cruel. Parece modernidade, mas pode transformar-se apenas em cenário.
Angola precisa de velocidade sim, mas velocidade para tirar crianças da fome, colocar professores e alunos em escolas dignas, levar medicamentos aos hospitais, financiar agricultores e criar empregos. Porque, no fim, não adianta termos barcos eléctricos a correr pela Baía de Luanda se o cidadão continua a andar a pé atrás do pão.
Miséria na modernice é quase zero quilómetros por hora. Inclusive, na promoção ou projecção internacional que se pretende na atracção do turismo de luxo, que pelos vistos, resume-se a parte mais chique de Luanda.











