Da pedagogia do comando à filosofia do pensamento

Houve um tempo em que Angola tinha comandos que não precisavam de explicação. Bastava alguém gritar:
— ARRASTOU COMANDO!
E a criançada, alinhada como soldados de bolso, respondia:
— BATE O PÉ ESQUERDO!
Era o tempo dos Pioneiros, dos desfiles, das palavras de ordem e da mobilização política de massas. O comando não era apenas uma instrução para organizar uma marcha. Era uma pequena “pedagogia política”: ensinava disciplina, pertença, identidade colectiva e, sobretudo, a arte de seguir a direcção indicada.
O pé esquerdo, naquele contexto, era mais do que anatomia. Era “ideologia em movimento”. O menino aprendia primeiro a marchar e depois a perguntar.
Hoje, felizmente, a sociedade mudou. Temos pluralismo político, redes sociais, liberdade de opinião e uma geração que pode perguntar:
— Mas, afinal, vamos para onde?
Só que surgiu um pequeno problema, ó meu kota:
“Mudámos os comandos, mas não eliminámos a cultura do comando”.
Antigamente, o comando vinha do palanque. Hoje vem do WhatsApp. Antigamente havia megafone. Hoje há “smartphone”. Antigamente marchava-se em formação. Hoje marcha-se nos comentários do Facebook.
E quando o chefe digital grita:
— ARRASTOU COMANDO!
Logo aparecem cinquenta mil especialistas:
— “Bate o pé esquerdo!”
— “Não, mano, é o direito!”
— “Calma aí, kota, primeiro manda o link!”
— “Não interessa o link, bate o pé!”
E assim Angola inventou uma nova ciência política:
“A democracia do pé automático”.
O cidadão já não precisa de pensar muito. Basta saber em que grupo está. Se o grupo bate o pé esquerdo, ele bate o esquerdo. Se muda para o direito, muda também. Se amanhã mandarem bater com os dois, o mwangolê bate com os dois e ainda pergunta:
“Chefe, quer também uma cambalhota?”
Aqui está a grande ironia. Durante décadas ensinámos os jovens a “seguir comandos”. Agora precisamos de ensinar os cidadãos a “interrogar comandos”. Porque uma democracia madura não deve produzir apenas bons executores. Deve produzir “cidadãos capazes de pensar”. A diferença parece pequena, mas é gigantesca.
“Obediência” pergunta:
— “O que devo fazer?”
“Cidadania” pergunta:
— “Por que devo fazer?”
“Consciência crítica” acrescenta:
— “E quem decidiu que devemos fazer?”
É aqui que o velho slogan dos Pioneiros ganha uma segunda vida.
“Arrastou comando, bate o pé esquerdo!”
Hoje poderia ser transformado numa nova palavra de ordem:
“Arrastou comando, pensa primeiro!”
Porque o perigo não está em bater o pé esquerdo. O perigo é “bater o pé sem saber para onde se está a marchar”. E Angola conhece bem essa história.
Já marchámos atrás de bandeiras. Já marchámos atrás de discursos. Já marchámos atrás de líderes. Já marchámos atrás de promessas.
Agora, com as redes sociais, até marchamos atrás de “memes”, “likes” e áudios de três minutos enviados por um primo que “tem informação de fonte segura”.
— “Quem te mandou isso?”
— “Um kota.”
— “Qual kota?”
— “Não sei.”
— “Então por que acreditaste?”
— “Porque ele falou com convicção!”
“Eh, mwangolê!”
Agora até a convicção virou certificado de verdade! Mas há uma coisa que não devemos esquecer: “não se pode ridicularizar o passado sem compreender o seu contexto”.
Os Pioneiros foram parte de uma determinada época histórica, com os seus valores, métodos de mobilização e circunstâncias políticas. Muitos daqueles meninos cresceram e tornaram-se profissionais, intelectuais, pais, mães e construtores deste país.
O problema não é o Pioneiro ter aprendido a marchar. O problema seria o adulto continuar a marchar “sem nunca aprender a pensar”. Por isso, talvez esteja na hora de trocar o antigo comando por uma nova pedagogia nacional:
“Bate o pé esquerdo, mas pensa”. “Bate o pé direito, mas questiona”. “Marcha, mas conhece o destino”. “Milita, mas não abdica da consciência”. “Defende uma ideia, mas não transforma o adversário em inimigo”.
E, acima de tudo:
“Ama Angola mais do que amas qualquer comando”.
Porque partidos passam. Governos passam. Dirigentes passam. Comandos passam. Até os slogans passam. “Angola fica”.
E quando um dia o velho Pioneiro encontrar o jovem “influencer” na esquina da Maianga e lhe perguntar:
— “Meu filho, quem está a dar o comando?”
O jovem responderá:
— “Não sei, kota. Está no WhatsApp.”
O velho vai rir até lhe faltar ar. E dirá:
— “Então vocês evoluíram mesmo! Antes tínhamos um comandante. Agora cada telefone tem um!”
E seguirá o seu caminho, batendo lentamente o pé esquerdo. Mas desta vez não para obedecer. Para lembrar que nenhum povo pode caminhar para o futuro com os pés em movimento e a cabeça parada.
“Arrastou comando!” “Bate o pé esquerdo!”
Mas pensa, kota… pensa!
Numa semana em que se comemorou o 104º aniversário do Manguxi, só vou fechar essa crónica com o “Havemos de voltar” ao velho slogan.
Bom final de semana.
*Menga-Ma-Kimfumu









