CONVERSA NA MULEMBA

Um dia de campo é um evento utilizado pelo chamado agronegócio em vários países, como, por exemplo, a África do Sul e o Brasil, durante o qual produtores rurais se encontram numa propriedade agrícola para verem exposições e práticas relacionadas com cultivos, produtos, máquinas ou técnicas implementadas. Não é um powerpoint num auditório, mas uma observação no terreno. Quando um produtor vê um campo numa fazenda em condições semelhantes à sua, acredita. Dias de campo geram confiança, promovem educação e criam capital social. Para um jovem profissional que se quer afirmar no agronegócio, organizar um dia de campo é uma das melhores estratégias.
O Ministério da Agricultura organizou um dia de campo a 15 de Agosto último. Em Angola, a organização de dias de campo, assim como a organização de feiras e exposições, quase sempre a cargo de governos provinciais, ainda não fazem parte das estratégias dos agricultores. As poucas excepções são a Feira Agropecuária da Huíla, desde 1986, a cargo da Cooperativa dos Criadores de Gado local, e os inúmeros pequenos mercados realizados em sedes municipais e outros locais do Uíge, promovidos por uma miríade de pequenos agricultores desde há várias décadas. Esta última iniciativa, embora ignorada pelas instituições públicas e pela comunicação social, não é indiferente às contas do INE, o que explica o terceiro lugar nos PIB provinciais, logo depois de Luanda e do Zaire.
A realização do dia do campo no passado fim de semana na Agropecuária Kambondo, região da Quibala, mostra a evolução do agronegócio nos últimos anos. É verdade que roubos, queimadas e conflitos de terras têm provocado dissabores e prejuízos. Mas não se pode atribuir a meros actos de banditismo ou a factores culturais a responsabilidade por tais actos. As verdadeiras causas são a fome e a pobreza, bem como o oportunismo de quantos tiram proveito das políticas de ofertas de bens pelo governo. E da fragilidade e do extrativismo das instituições públicas. Ouvi o ministro Isaac dos Anjos sugerir a criação de pacas pela população rural como um meio para mitigar a carência de proteína animal e evitar as queimadas. A par de outras, esta medida poderia ser encarada se houvesse uma verdadeira preocupação em resolver os problemas do povo, por parte de uns, e em pugnar por negócios justos, por parte de outros.
O que nos foi dado ver na Kambondo mostra que há uma Angola que dá certo. Que contraria o pessimismo de quantos dizem que sem educação não se vai lá. Pessimismo é preguiça, ou algo pior. Confunde-se a consequência com a causa, uma vez mais. O problema de Angola não é a educação, mas a incapacidade revelada ao longo de décadas para se alterar o rumo do País. Na educação e em muitos outros domínios. Como os pequenos buracos nas estradas ou as autarquias. Só um movimento disruptivo pode alterar o rumo vicioso que nos entorpece e favorecer um rumo virtuoso, seja lá qual for o formato que se encontrar. E para isso precisamos de cidadãos conscientes, corajosos e patriotas.
António Emílio Faceira (AEF) e a sua esposa Jú construíram em Kambondo uma obra notável. Conheci-o na década de 60, no Huambo, quando nos movimentávamos não organicamente em direcção à independência de Angola, juntamente com o seu irmão Luís, meu colega na Faculdade de Agronomia. Vivemos a sua fuga para a guerrilha em 1972 e a sua trajectória atribulada, com passagem por Kinshasa, até conseguir chegar a Brazzaville. Onde Lúcio Lara teve de pagar uma verba superior à habitual ao habitual “atravessador” de canoa zairense “por se tratar de um mulato”. Nasceu assim o combatente Defunto.
Findas as guerras em que participou, AEF dedicou-se à actividade privada. Mas não escolheu ser comerciante. Não virou coleccionador de divisas. Não esbanjou dinheiro em luxo e fausto no estrangeiro. Escolheu ser agricultor. E fez o que poucos, com acesso privilegiado a crédito, fazem: investiu. Investiu em produção agrícola, em pecuária e em algo estruturante – a produção de sementes de qualidade.
Possui uma infra-estrutura de silos que podem armazenar 3.500 toneladas de grãos, um secador de grãos com capacidade de 200 toneladas/dia, dois armazéns refrigerados com capacidade para 1.000 toneladas e uma unidade de beneficiamento de sementes (UBS). Recentemente foi inaugurado um laboratório de análise de solos, sementes e controlo de qualidade.
Os investimentos realizados estão a transformar a Fazenda Kambondo num centro moderno de produção agrícola e de sementes. Tem uma área irrigada de 760 hectares com pivôs, destinados à produção de mais de 2.500 toneladas de sementes certificadas de milho, para além de soja e feijão, bem como à produção de grãos que se associa à produção de sequeiro. Mas aparece o dado que dói. Para a próxima campanha agrícola o país precisa de 286 mil toneladas de sementes de qualidade. A expectativa de produção nacional? Apenas 7% dessa quantidade.
O medo que se tem de tecnologia sem controlo no seu uso não se aplica aqui. AEF não tem formação em agronomia. É autodidacta. Mas tem o que muitos engenheiros não têm: disciplina de estudo. A lógica de estratégia militar que aprendeu, ele aplica na terra. É um regalo ouvir os seus argumentos técnicos, mesmo quando não concordamos com eles.
A sua preocupação com a ciência levou-o a estabelecer parcerias, principalmente na produção de sementes, como com uma empresa paraguaia, cujo líder esteve presente no dia de campo. E foi ele quem soltou uma bomba: o milho transgénico tem prazo de validade. Mais 10 anos e esgotam as suas virtudes. As grandes produtoras vão ter de voltar ao milho convencional. Verdade ou não, Angola precisa de debate sobre o tema. Científico. Sério. Sem qualquer tipo de política no meio.
Mais do que responsabilidade social, o que vimos em Kambondo foi o compromisso social e político de AEF e Jú. Nascido do sentimento patriótico. Da luta pela independência. Da ideia de uma sociedade mais justa. Refeitório comum, aplicação do salário mínimo aprovado para a agricultura e inscrição da totalidade dos 230 trabalhadores (98% angolanos) na Segurança Social. O director da empresa, Gerson Lopes, é um angolano regressado dos Países Baixos, para onde havia emigrado. Fez o caminho inverso de tantos jovens que hoje saem do país.
A escola pública mais próxima fica a mais de dez quilómetros. Por isso a Cambondo resolveu fazer a sua. O ai Jesus da Tia Jú. Edifício limpo, bem pintado, sem um vidro partido. Não conheço escolas primárias tão bem preservadas. Tem refeitório alimentado pela produção da fazenda, casas de banho para alunos, alunas, professores e professoras. Quartos para os professores, para que não haja pretexto para atrasos. Orgulho por não haver uma única criança analfabeta ou fora do sistema de ensino.
Foi construída com dinheiro, equipamento e trabalho dos próprios trabalhadores da fazenda. O terreno de 2,5 hectares foi oferecido pela comunidade. E nele ainda vai nascer um campo de futebol. O jardim da escola é cuidado pelos próprios alunos. Até em tempo de férias.













