POR ALBÉRICO LUPITO
Angola possui um dos maiores potenciais hídricos de África, com 47 bacias hidrográficas e rios como o Kwanza, o Cunene e o Cubango. Entretanto, este cenário de abundância contrasta com a realidade cruel: cerca de 70% da população não tem acesso regular à água canalizada, e no sul do país, a seca severa já afectou mais de 2,3 milhões de pessoas. O paradoxo é evidente: há água, mas ela não chega a quem precisa.
O problema não está apenas na falta de infra-estruturas, mas sobretudo na gestão ineficiente. Estima-se que quase metade da água produzida nas cidades se perde devido a fugas, roturas e ligações ilegais. O crescimento urbano desordenado, especialmente em Luanda, superou a capacidade de investimento, criando uma “segregação institucionalizada” no acesso ao recurso, onde bairros periféricos dependem de cisternas enquanto zonas nobres têm água corrente.
Para inverter este cenário, Angola está a investir mais de 4 mil milhões de dólares em novos sistemas de captação e tratamento. O Canal do Cafu, no Cunene, já beneficia 235 mil habitantes, mas a verdadeira transformação exige mais do que betão e tubagens. É urgente profissionalizar a gestão, combater as perdas e adoptar tecnologias de monitorização em tempo real, como sensores e inteligência artificial.
Contudo, o alicerce de qualquer mudança duradoura é a educação. Não basta construir barragens se não houver uma consciência colectiva sobre o valor da água. É preciso ensinar as crianças nas escolas a preservar as nascentes, a reaproveitar a água e a denunciar o desperdício. Simultaneamente, o país precisa de formar engenheiros hidráulicos, hidrogeólogos e gestores ambientais: especialistas que hoje fazem falta para planear e gerir os recursos hídricos.
Instituições como o Instituto Superior Politécnico do Bié já oferecem formação em Engenharia de Recursos Hídricos, e o Instituto Geológico de Angola prepara-se para capacitar técnicos em hidrogeologia com parceiros europeus. Mas os professores do ensino básico e secundário também precisam de formação contínua para abordar a gestão da água com confiança e conhecimento.
Angola tem os rios, o sol e a vontade(?). Falta transformar este potencial em política pública, com visão de longo prazo, investimento inteligente e, acima de tudo, com educação. Só assim a água deixará de ser um privilégio para se tornar um direito universal, jorrando das torneiras de Norte a Sul do país.










