
Há momentos em que somos quase levados a acreditar em superstições, sobretudo quando acontecimentos tão dolorosos parecem cruzar-se de forma tão trágica. No passado sábado, foi inaugurado, em Luanda, o Hospital Especializado em Queimaduras Julius Nyerere. Menos de 24 horas depois, a unidade recebeu vítimas do trágico acidente ocorrido na EN 100, na região da Ngangula, no Sumbe.
Durante a sua deslocação ao Sumbe, para acompanhar a transferência de alguns feridos para o hospital, a ministra da Saúde, Sílvia Lutucuta, esclareceu que a unidade já estava a receber doentes com queimaduras. Assim, fica afastada a hipótese ou a superstição de que as vítimas do acidente da Ngangula teriam sido as primeiras a “inaugurar” os leitos do novo hospital.
Mas, acreditar em superstições não é, seguramente, a melhor forma de explicar uma tragédia desta dimensão. O que aconteceu na Ngangula exige reflexão, responsabilidade e, acima de tudo, respeito pelas vidas que se perderam.
Segundo as informações divulgadas, o acidente envolveu um autocarro de passageiros e um motociclode três rodas que transportava combustível. O embate provocou um incêndio de enormes proporções e deixou o saldo de 22 mortos, entre eles os dois acupante da motocicleta. Perdas humanas dolorosas e difícieis de aceitar, sobretudo para as inúmeras famílias de Ondjiva, Lubango, Huambo e Luanda que perderam os seus ente queridos neste trágico acidente. E mais um neste corredor de ligação da Estrada Nacional nº 100.
No que diz respeito ao transporte público de passageiros, o desafio já não deve ser apenas reagir às tragédias, mas antecipá-las. Está a morrer muita gente nas estradas. E isso deveria constituir uma preocupação permanente das autoridades, mas também dos utilizadores.
A segurança rodoviária precisa de uma verdadeira intrusão ou melhor, intervenção inteligente e permanente da Polícia. Não para incomodar ou simplesmente “pentear” os automobilistas, mas para acompanhar, prevenir e identificar riscos antes que estes se transformem em tragédias. É preciso uma presença omnipresente e, sobretudo, inteligente, capaz de proteger quem faz das estradas o seu ganha-pão. E não ser tão complacente com aqueles que se fixaram ao longo das vias, que mesmo desconhecendo regras, sinalética de trânsito, o código e a sua interpretação porque boa parte até é analfabeta, metem-se na estrada com excessiva carga e acompanhantes, muitas vezes de noite, sem iluminação ou fazendo uso de pequenas lanternas, inclusive de telefones. A Canjala, de noite e aos fins de semana, é transformada em pista de corridas de jovens com motorizadas. E não há um único agente de autoridade que ponha fim àquela desordem.
Faço pessoalmente uso dos autocarros da Macon nas minhas deslocações e conheço, em algumas ocasiões, o estado de conservação de veículos que mais parecem sucatas andantes. Por isso, não podemos ignorar a necessidade urgente de renovação das frotas. Veículos envelhecidos, obrigados a circular diariamente por estradas altamente esburacadas, formam uma combinação perigosa. Há estradas no nosso país que parecem verdadeiros campos de batalha. Não cativam o investimento em meios modernos e com comodidade. E quando se faz, o desgaste é de tal ordem que não cobrem os custos de manutenção ou de compra de outros para substituição ou renovação.
Depois do acidente que vitimou enfermeiros nas imediações do Longa, na EN 100, os autocarros passaram a ter a velocidade limitada ao máximo de 80 quilómetros por hora. É uma medida importante, mas a segurança rodoviária não pode depender apenas da velocidade.
O Estado tem que fazem bem a sua parte na construção, na manutenção das estradas, na fiscalização e no cumprimento rigoroso das regras de transporte de passageiros e de matérias perigosas. E há outro aspecto que não deve ser esquecido: os passageiros também precisam de receber informação útil sobre procedimentos de emergência. Em caso de acidente, muitos não sabem sequer onde estão os vidros ou as saídas de emergência, nem como agir rapidamente para abandonar o veículo.
A prevenção deve começar muito antes do acidente. Na qualidade dos veículos, nas condições das estradas, na fiscalização, na formação dos motoristas e também na preparação dos passageiros.
Que a tragédia da Ngangula não seja apenas mais uma para fazer parte das estatística do que ocorre nas estradas de Angola. Que sirva sobretudo para reforçar a fiscalização, melhorar as condições das vias, exigir mais dos operadores e combater práticas perigosas na venda e transportação de combustíveis.
Paz à alma das vítimas mortais desta dolorosa tragédia. Que Deus conforte os seus familiares e amigos neste momento de profunda dor. Aos feridos, desejo rápidas e sinceras melhoras.












