
Quando a terra tremeu no sul do Líbano naquela noite de 30 de Julho, não foi um sismo. Foram 700 toneladas de explosivos a rasgar o silêncio da História. O alvo? As imediações do Castelo de Beaufort, uma fortaleza que resiste ao tempo desde o século XII, testemunha de cruzadas e da conquista de Saladino, e que agora integra a Lista do Património Mundial da UNESCO.
O exército israelita diz que destruiu túneis do Hezbollah. Mas, como se atreve a fazê-lo à porta de um monumento que pertence à humanidade? Como se atreve a usar a força bruta bélica, com o seu poder de fogo desproporcional, num local que goza de protecção reforçada ao abrigo da Convenção de Haia?
Esta não é uma simples acção isolada ou excesso de zelo operacional. É um velho padrão. É a continuidade de uma política de eliminação cultural que já vimos antes. Os nazis, nos seus dias de glória sombria, destruíram monumentos e obras de arte para subjugar os povos. O grupo terrorista Estado Ilâmico, que curiosamente hoje governa a Síria com beneplácito do Ocidente colectivo e da Turquia, com a sua demência iconoclasta, fez explodir estátuas milenares na Síria e no Iraque, num ritual de pura e requintada barbárie. Agora, Israel segue a mesma cartilha nos territórios que ocupa, seja na Palestina ou no Líbano. A lógica é a mesma: para humilhar um povo, destrói-se a sua memória. Para o expulsar da sua terra, apaga-se a prova de que lá esteve.
Olhemos para o que está a acontecer. Não foi só Beaufort. A antiga cidade de Tiro, berço da civilização fenícia e também Património Mundial, foi bombardeada, com colunas romanas reduzidas a pó e mosaicos milenares transformados em estilhaços. Mesquitas e igrejas, algumas com séculos de existência, foram arrasadas sem qualquer contemplação. E para quê? Para combater o Hezbollah, dizem eles. Mas por que razão, então, a população civil do sul do Líbano está a ser expulsa das suas casas numa punição colectiva que cheira a limpeza étnica? Para ser honesto é limpeza étnica!
O argumento militar não se ajusta. A desculpa da “ameaça terrorista” tornou-se um tambor vazio e ruidoso para justificar o injustificável. Beaufort não é um alvo militar; é um símbolo. E é por ser um símbolo da história comum da região que o querem calar. O facto de dinamitar a terra à volta da fortaleza, Israel não está apenas a violar o cessar-fogo ou a ameaçar acordos bilaterais ; está a cuspir na face da comunidade internacional. Está a dizer-nos que a lei não lhe toca, que a UNESCO não passa de um papel sem força, e que a História só lhe interessa quando serve a sua narrativa.
Esta é a imagem de um país que se julga acima do bem e do mal, acima dos tratados e da decência. É a imagem de uma ocupação que não se contenta em roubar território, mas que quer roubar a alma dos seus vizinhos. Ao dinamitar as fundações de Beaufort, Israel dinamita também qualquer pretensão de ser um Estado civilizado. Mostra ao mundo a sua face mais feia: a face do ocupante que, tal como os bárbaros do passado, pensa que pode apagar o que não lhe convém com pólvora e aço.
Mas a memória não se apaga com explosivos. As pedras de Beaufort, mesmo feridas, continuarão de pé, a lembrar-nos que houve quem construísse, enquanto outros só sabem destruir. A história julgará este acto, e o nome de Israel ficará, para sempre, manchado por esta nova página de um volumoso livro de vergonha.












