
Com os ajustes directos, vai muito dinheiro para sobre-faturações e subcontratações, necessário para a construção de infraestrutura básicas, para além da falta de fiscalização das empreitadas.
“Abril chuvas mil”.
O aviso não é novo, muito menos novidade. Para quem não saiba, uma das primeiras decisões que o Executivo do partido no poder tomou quando se instalou, foi extinguir a Junta Autónoma de Estradas de Angola (JAEA), onde a minha querida mãe, que chegou a chefe de Departamento, trabalhou, tendo na mesma sala como colegas, Brito Júnior e Roberto de Almeida, para além de outros quadros portugueses.
A JAEA tinha as casas dos Cantoneiros (hoje em escombros ou indevidamente ocupadas), pequenos cilindros motorizados e outros equipamentos ao longo das estradas. Serviam para abrigar o pessoal e apoiar a reparação (tapa buracos) em perímetros pré-estabelecidos. Muitos anos depois, criaram o Instituto Nacional de Estradas (INEA), que foi transformado num antro de corrupção, roubo descarado e de ‘assassinato’ nas estradas, por falta de reparação e fiscalização das obras. Joaquim Sebastião, entre outros protegidos, que o diga…
Logo de imediato, os “inteligentes” correram com todo o pessoal da Direcção dos Serviços Hidráulicos, onde o meu pai foi director de uma das áreas. Pasmem-se, para instalar a sede da Organização da Mulher Angolana (OMA). Na altura, os funcionários da Direção dos Serviços Hidráulicos foram transferidos para uma vivenda, no Miramar, onde mal cabiam. E pouco depois foi extinta, até a presente data, 50 anos e 5 meses depois.
A Direção dos Serviços Hidráulicos tinha como função, medir o caudal dos rios em permanência, desassoreá-los quando necessário, e reparar as pontes e outras infra-estruturas afins…
Antes do meu pai ter concorrido para a Direção dos Serviços Hidráulicos, trabalhou longos anos na Direção dos Serviços Geográficos e Cadastrais, em Luanda, no Lubango, em Ndalatando e no Sumbe, como delegado. Faziam a medição e registo dos terrenos do país. Não eram os “administradores” (primeiros secretários do partido no poder, ou sobas), que dispunham de terras para distribuir.
O que fizeram com a Direção dos Serviços Geográficos e Cadastrais, dias depois da proclamação da Independência?
Mandaram desalojar a Direção dos Serviços Geográficos e Cadastrais, amontoar os livros de registos dos terrenos de séculos, armazenando-os algures mal protegidos. Muitos livros deterioraram-se, e passaram a tutela dessa instituição para o Ministério da Defesa, onde, à excepção do ministro e do secretário de Estado, as chefias eram quase todos analfabetos, a começar pelo chefe do Estado Maior. Não me recordo de quem tinha acima da 4.ª classe feita nas escolas das aldeias (negros e/ou mestiços).
Também já não é surpresa, durante os 50 anos de retrocesso, após a proclamação da Independência de Angola, que continua a luta contra a ciência com experimentação, contra o conhecimento e a ascensão por etapas, a favor da politiquice para salvaguarda do interesse de grupos. Impera a conveniência de negócios, por compadrio, por tribalismo. Continua a luta de egos e o culto da personalidade aos piores ditadores dos dois principais partidos.
Continua o ódio pelos quadros que tiveram a sorte de não serem descendentes de camponeses, nem de operários, seguindo o slogan de Agostinho Neto, de que “é preciso substituir a burguesia pela classe operária e camponesa”. Se estivesse vivo diria, provavelmente, “… substituir os filhos da anterior pequena burguesia, pelos filhos dos operários e camponeses só do regime e dos bajuladores”, descurando a formação de base da maioria da população descamisada, abandonada a sua sorte.
A verdade, como se viu, é que só pegaram em armas para substituir o colono e tornaram-se piores que todos eles. O resultado está à vista quer em Luanda, com estragos por todos os bairros periféricos, com incidência no município do Talatona, onde o rio Camama transbordou ultrapassando as valas. É a perda de vidas humanas, e milhões de kwanzas de danos materiais para as populações, porque os danos morais não tem preço.
De Benguela já nem se fala. Foi das maiores catástrofes dos últimos tempos. As chuvas torrenciais na Província de Benguela, com inundações como consequência do transbordo do rio Cavaco, engoliram casas precárias e a água galgou estradas, arrastando pontes e partes da linha férrea do centenário Corredor do Lobito. Os membros da delegação ministerial apenas aparecem decorridos quase três dias, todos sorridentes a chegada a Benguela, como se para participar num piquenique.
Em 1985, antes da realização da Conferência dos Não-Alinhados, o Presidente José Eduardo dos Santos nomeou o então ministro do Plano, Lopo do Nascimento, para coordenar um grupo, para fazer um trabalho integrado na capital do país. As acções consistiam na limpeza e alargamento dos esgotos, construção de valas de drenagem, no Cazenga, na Samba e na Corimba. Em simultâneo, ocorreu a reparação de passeios e postos de iluminação da cidade. Lopo de Nascimento comunicou que o prazo era curto para o efeito. O Presidente José Eduardo dos Santos chamou a si a coordenação dos trabalhos e o prazo foi cumprido. O povo até dizia, que o Presidente José Eduardo dos Santos estava a preparar-nos a surpresa da assinatura do Acordo Paz, o que não era verdade. É caso para perguntar, se as catástrofes da ‘Califórnia de Angola’ e em Luanda, serão mais uma prova da incompetência e da ganância dos assessores do Presidente? Porque com os ajustes directos, vai muito dinheiro para sobre-faturações e subcontratações, necessário para a construção de infraestrutura básicas, para além da falta de fiscalização das empreitadas.










