
Se alguém achava que a TAAG era uma companhia aérea, as declarações dos seus representantes na última conferência de imprensa provam que ela é, na verdade, uma prestigiada organização filantrópica para gestores de topo. Enquanto os administradores exibem fatos impecáveis e gravatas de seda que custariam o motor de um Boeing, a explicação para o caos é de uma poesia trágica: “não há peças”.
É fascinante observar a física quântica das nossas finanças públicas: o dinheiro desaparece na “origem” (provavelmente numa conta em offshore), mas a culpa é sempre da “escassez global”.
Deve ser realmente difícil encontrar parafusos no mercado internacional, quando o orçamento da manutenção foi todo investido no conforto ergonómico das cadeiras do Conselho de Administração.
A rota Luanda–Cabinda tornou-se o Triângulo das Bermudas da nossa dignidade. São 12 voos cancelados numa semana, transformando a ligação com o enclave num teste de resistência psicológica.
A TAAG diz que está a “optimizar a frota”, o que no dicionário da ironia significa: “estamos a rezar para que o último avião que ainda mexe não se lembre que também lhe faltam peças”.
O plano de apoio ao cliente é outra pérola do humor abstracto. Prometem alojamento e “actualizações regulares”, mas esqueceram-se de mencionar que a melhor actualização para um passageiro angolano seria ver um avião, e não um comunicado em papel timbrado.
É o auge do luxo institucional: pagar salários de primeiro mundo a gestores que entregam um serviço de… bem, de quem não tem peças.
Os gestores continuam a voar em classe executiva nos seus bónus, enquanto o contribuinte fica em terra, a ver os aviões passar (isto se eles conseguirem descolar, claro).
Se a normalização vier até quinta-feira, será um milagre. Se não vier, fiquem descansados: haverá outra conferência de imprensa, com fatos e gravatas ainda mais bonitas.
Afinal, em Angola, o que importa não é chegar ao destino, é manter a pose enquanto se está parado.
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