
RECADOS DA CESALTINA ABREU (72)
“Vivemos em tempos em que é mais fácil substituir do que sustentar”.
No final da minha mensagem de ontem, lancei como sugestão, ou desafio: a criação de “ilhas de solidez” no meio da fluidez que caracteriza a vida nesta fase da modernidade, que Zygmunt Bauman designou de “líquida”: marcada pela velocidade, incerteza, volatilidade dos laços sociais, fragilidade das instituições e pelo consumismo — um tempo em que quase nada é feito para durar.
Retomo hoje essa ideia, porque me parece mais fecundo criar pontos de consistência do que tentar resistir à própria fluidez.
Por “ilhas de solidez” entendo espaços, relações ou práticas que contrariam a efemeridade e a superficialidade. Podem ser físicos ou simbólicos, mas têm em comum a promoção da autenticidade, do cuidado mútuo e de compromissos duradouros — em contraste com a lógica do descartável.
São, em essência, âncoras de sentido: lugares onde ainda se cultivam vínculos profundos, ética e compromisso, oferecendo alguma estabilidade num contexto de permanente mudança.
Alguns exemplos:
• Relações familiares e de amizade profundas, construídas na confiança e no tempo;
• Projectos comunitários e práticas de voluntariado que reforçam a solidariedade e combatem o individualismo;
• Actividades que exigem dedicação e continuidade, como práticas artesanais;
• A fidelidade a valores e princípios éticos, mesmo em contextos voláteis.
Importa também reconhecer instituições que procuram desempenhar esse papel — como a escola — mas que enfrentam forte pressão para se adaptarem à lógica dominante, muitas vezes à custa da sua própria consistência.
Talvez o caminho não seja apenas resistir, mas identificar, apoiar e multiplicar esses espaços de solidez.
Bom inicío de semana, saúde, cuidados e coragem para construir / identificar ‘ilhas de solidez’ e contribuir para as expandir e fortalecer.
Kandando daqui!










