QUÃO O CRIME DO PADRE AMARO, QUÃO ANGOLA!*

CARLOS GOMES NGONDI SUCAMI**

As instituições nacionais, quando querem preservar a própria ‘santidade’, tornam-se especialistas em transformar escândalos em rotina e pecados em meras distrações administrativas.

Há obras literárias que sobrevivem ao tempo porque nunca foram apenas sobre o seu tempo. O Crime do Padre Amaro, de Eça de Queirós, é uma dessas raras radiografias morais que, escritas no século XIX, continuam a diagnosticar sociedades inteiras no século XXI. 

Tinha eu ainda dezassete anos quando li pela primeira vez, na minha Carmona natal (actual Província do Uíge), esse ‘bestseller’. E, hoje, já na casa dos sessenta, continuo a defender, que o romance é uma das melhores ficções da língua do Camões que existe.

O romance narra a história de Amaro Vieira, um jovem padre que chega à cidade de Leiria em Portugal, para exercer o sacerdócio. Apesar da aparência de devoção e disciplina religiosa, Amaro revela-se um homem fraco, dominado por desejos e influências do meio clerical hipócrita em que vive. Na convivência com a beata Amélia, filha de uma fervorosa devota da paróquia, nasce entre ambos uma relação secreta e proibida. Seduzida pelo padre, Amélia envolve-se numa paixão clandestina que resulta numa gravidez. Para evitar o escândalo e preservar a reputação da Igreja e do sacerdote, recorrem a esconderijos e manobras para ocultar a situação.

O desfecho é trágico: Amélia morre após dar à luz, e a criança acaba abandonada e destinada à morte. Enquanto isso, o padre Amaro continua a sua vida religiosa quase sem consequências, protegido pelo silêncio e pela cumplicidade do meio clerical.

Agora, troquemos o cenário. Sai Leiria em Portugal, entra Angola. E o desconforto instala-se. Se Eça de Queirós voltasse hoje para observar certas realidades de Angola, talvez não precisasse de escrever um novo romance. Bastaria reler O Crime do Padre Amaro e trocar apenas alguns nomes.

Porque, de repente, o romance deixa de ser literatura distante e passa a soar perigosamente familiar. A batina pode ter sido substituída por fato e gravata, mas o enredo, esse, mantém-se assustadoramente intacto. 

A diferença é que, no romance, o escândalo precisava de silêncio. Hoje, o silêncio já vem incluído no sistema.

Em Angola, também há discursos inflamados sobre moralidade, combate a corrupção, ética, patriotismo e serviço público. Palavras grandes, bem ensaiadas, ditas com solenidade. Mas, tal como no universo de Eça, muitas vezes essas palavras vivem divorciadas das práticas. Prega-se virtude em público e negoceia-se conveniência em privado.

O “crime” do Padre Amaro não foi apenas pessoal. Foi estrutural. Ele existiu e prosperou porque estava inserido numa rede de cumplicidades, uma sociedade que preferia preservar as aparências a enfrentar a verdade.

E aqui está o ponto mais incómodo: Angola também desenvolveu, ao longo dos anos, uma certa tolerância às suas próprias contradições. Não é que o País não saiba distinguir o certo do errado. Sabe. E muito bem. O problema é outro: é a elasticidade com que se aplica essa distinção, dependendo de quem está em causa.

Há uma espécie de moral selectiva em circulação. Quando convém, condena-se. Quando interessa, relativiza-se. Quando envolve poder, silencia-se. E assim se constroem os nossos “Padres Amaro” contemporâneos, não necessariamente religiosos, mas investidos de autoridade simbólica, política ou económica. Figuras que se alimentam de um sistema onde a aparência vale mais do que a substância.

Eça de Queirós foi impiedoso porque compreendeu algo essencial: a hipocrisia não é apenas um defeito individual; é uma doença social. Ela instala-se, reproduz-se e normaliza-se até deixar de causar escândalo.

Talvez seja isso que mais aproxima o romance de Eça da realidade angolana. O perigo já não está apenas nos actos em si, mas na habituação a eles. Quando o absurdo deixa de indignar, torna-se rotina. Quando a incoerência deixa de chocar, transforma-se em cultura. Quando o “crime” deixa de ser excepção, passa a ser método. Mas nem tudo é fatalismo.

Se há algo que a leitura de O Crime do Padre Amaro ainda nos oferece é a possibilidade de consciência. A literatura, quando incomoda, ainda cumpre a sua função mais nobre: despertar.

Angola não é apenas o retrato das suas falhas. É também o País de um povo que já demonstrou, em momentos decisivos, capacidade de ruptura, resiliência e reinvenção. A questão é saber se essa mesma coragem será aplicada, um dia, à moral pública. Até lá, a pergunta continuará a ecoar, incómoda e persistente.

Talvez a maior modernidade da obra de Eça de Queirós seja esta: ele percebeu que as instituições, quando querem preservar a própria santidade, tornam-se especialistas em transformar escândalos em rotina e pecados em meras distrações administrativas.

Assim, entre sermões morais e práticas discretas, entre discursos inflamados e cofres silenciosos, o espírito do velho romance continua a passear pelos corredores do poder.

E talvez seja por isso que, olhando para certas realidades, somos obrigados a repetir, com um sorriso amargo: “Quão o Crime do Padre Amaro… quão Angola”.

Sempre com um dos olhos fixo nos teclados do meu PC, o outro a mirar a panela de feijão com o óleo de palma a coser na cozinha, vou-me despedindo, desejando os votos de um bom final de semana. 

* Inspirada no romance do saudoso Eça de Queirós 

**Menga-Ma-Kimfumu

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