Sonhos de Natal

Não existe presente de Natal melhor do que uma família unida

Autor desconhecido

Embora não acredite na encenação do velho das barbas brancas a distribuir presentes pelas crianças de todo o mundo, mantenho vivo o meu sonho de Natal. Nenhum ateu consciente me condenará por ter alimentado desde criança, a quimera do ambiente e espírito de Natal. Foi-se a crença, sumiram as figuras lendárias, os brinquedos, doces e todas as guloseimas. Tudo é bem diferente de antanho. Firma-se agora na vida real e transforma-se em prenda nunca recebida antes, um presente de tamanho e alcance mais polido. A grandeza da parte saudável do meu coração é um cantinho onde deposito tudo quanto transpire clareza, decência, esperança e respeito pelo próximo. Tem espaço suficiente para guardar ofertas que me tocam em sorte. Sentimentos como a amizade, a lealdade, o respeito e a compreensão. Não é disparatado pensar que um dia destes possa receber a dádiva que mais anseio desde que passei a ver o mundo e, particularmente, a minha terra, de um modo diferente. 

Virá embalada num enorme pacote de sonhos, dos que dispensam estrelas, árvores e luzes estampadas, capaz de receber o corpo grande de um homem. Não necessariamente um gigante em forma de gente, mas um homem forte, de alma enorme, que tenha mais que físico gigantesco, colossal pensamento. A vida é feita de sonhos, e nada me impede de penetrar no mundo fantástico da ilusão quando me vejo perdido na imensidão de maldade que me afoga num mar negro e profundo, ano atrás de ano. Quero conhecer outro mundo, com a pretensão de entrar nele sem a presença do misterioso Pai Natal. No meu sonho feito de crença, apelo a um ser indefinido mas presente, ciclópico, detentor de suficiente poder sobre o povo, mas também capaz de se colocar diante de mim, mostrando-se, não travestido de Pai Natal, mas na pele de um homem como eu, que tenha na primeira linha das suas preocupações, a festa da enorme família angolana, celebrada diariamente e não apenas num dia do ano, naquele que já foi chamado antigamente como o “Dia da Família”.

Por exigência minha, terá de ser homem próximo de um ser perfeito e, pese o facto de não existirem homens perfeitos na terra, contrário do que imaginam mentes eivadas de vaidades tacanhas, que seja alguém a assumir o dever de fazer emendas ao que anda errado e estar acompanhado de outros homens lúcidos, pessoas com carácter e sensibilidade, responsáveis e assessores sérios, que não estejam apenas atentos ao tilintar das moedas, um som que me perturba fortemente e conduz, como sabemos, à luxúria, ao roubo e à traição. Já basta ter que lembrar as trinta moedas de Judas Iscariotes, o apóstolo traidor, segundo reza a histórica tradição católica. Preferia que esse homem substituísse, em tempos duros como os que correm, as festas palacianas que se promovem na época natalícia. Que escolhesse em vez de locais luxuosos com jardins bem tratados, com música celestial no fundo e requintes inexplicáveis de bom viver, e fossem sim, contempladas todas as crianças pobres do país no seu habitat natural de miséria, e não aqueles meninos e meninas bem alimentadas, de olhos brilhantes a luzir de boa saúde, a ler com boa dicção, sinónimo de que têm, felizmente, escola e bons cuidados de saúde. É deprimente vê-las a agradecer pateticamente a quem tem obrigação de zelar por elas mas, principalmente por todos os outros. As meninas e meninos, espalhados por esta imensa Angola, a viverem amarguras que as outras e outros de cá, frequentadores das festas dos jardins palacianos, são incapazes de supor que existem. Para ser mais claro, o homem que eu pretenderia ver no lugar de Pai Natal, teria que ter a coragem de suprimir, nem que tivesse que recorrer à Lei Magna, e enquanto não se atingissem objectivos concretos e melhores para toda a população, todos estes actos que, em vez de dignificar, se tornam em verdadeiros pesadelos de exclusão, insultos a uma população severamente castigada pela pobreza. Era bem escusado mostrarem-se como se mostram, as diferenças entre uns e outros.

Ai, como gostaria eu de ver o homem grande a assumir os erros que vêm da antiga e grande regedoria, numa quadra solene como esta em que somos forçados, por múltiplas razões, a pensar na desgraça da família. Uma instituição que, entre nós perdeu crédito, hoje não tem significado quase nenhum, é tristemente observada de viés por homens que, muito longe de serem reformadores de uma sociedade afectada por chagas no mais profundo da pele e da carne das pessoas, não têm a estatura daquele com o qual eu sonho nas minhas elucubrações. É isso que me faz aspirar a prenda que eu, no imediato, gostaria de oferecer às crianças da minha terra e às famílias angolanas, aquele presente que, desgraçadamente, não é senão uma névoa cinzenta que passa pelo universo difuso das minhas ideias. Um presente que está muito distante do meu querer, anda lá pelas alturas do céu, ali onde o velho das barbas, envolvido por nuvens que se abrem aos que, como eu, vivem de esperanças, continua a ser parceiro de uma ilusória imagem do paraíso.

Nesta fase das nossas vidas pouco conseguidas, vista nesta época como tempo de paz e de concórdia, não posso deixar de expressar um outro desejo, quiçá, o maior de todos no momento. Trata de ver a inteligência e o bom senso de homens e mulheres, jovens e velhos, a evoluírem, entrarem para o grupo dos que amam o livro e os hábitos de leitura, crescerem mais do que cresce a pandemia da Covid-19, para vermos a maldita, finalmente, vencida. Tarefa que seria melhor conseguida se entretanto, os vícios e os erros que se sobrepõem aos impactos periféricos da pandemia deixassem de se manter no mesmo estado de aproveitamentos.

Mas a realidade está aí, a derrubar os meus patéticos sonhos, ela, a terrível Covid-19, está a crescer, como crescem os pobres em Angola. Finalmente já se ouvem ministros a dizer que estão assustados com a situação, talvez admitam também que passou de moda falar-se de crianças de rua, prevalecem agora as famílias de rua a viverem em passeios de alamedas e avenidas, visitando e revistando contentores de lixo. São núcleos com uma tendência de crescimento imparável, apenas não enxergados pelos que estão mais atentos à embrionária Bolsa de Valores que vai encher certamente os bolsos de quem já é milionário (riqueza quantas vezes criada por ilicitudes) e remeter mais para as profundezas da miséria quem nunca conheceu outra situação ou condição social.

“O futuro do lado de lá” é um texto escrito cá em Portugal (e como ele é bem escrito!) pelo angolano Fernando Pereira, um senhor que apesar das nossas diferenças em vários domínios, pensa como eu em muitos outros, nos essenciais, essencialmente, e ainda faz o favor de ser meu amigo.

“A nossa classe média passou a média de classe porque olha sempre para o seu umbigo egoísta e desatento”, afirma ele numa passagem do dito escrito.

Frase perfeitamente adaptável à sociedade angolana actual onde acontecem coisas terríveis à maioria das pessoas. Mas que podem ainda salvar-se se singrarem especialistas (uma vez que as entidades a quem estão entregues os projectos não atam nem desatam) e se formem, por exemplo (ai como é fácil sonhar), sociedades anónimas ou por quotas, como melhor entendessem os donos do dinheiro, sérias, sobretudo, destinadas a conceber, criar e projectar o livro escolar e a literatura simples de Angola mais os hábitos de leitura por todo o país. Os sócios ou accionistas teriam de ser obrigatoriamente os pequenos editores angolanos, com provas dadas neste domínio (não me vejam a puxar a brasa ao meu cacusso) e todos os agentes ligados ao livro. Teriam como membros associados e parceiros privilegiados as instituições da sociedade civil vocacionadas para tal e para apoio aos cidadãos mais vulneráveis da sociedade, para as quais reverteriam parte das mais-valias conseguidas com a indústria livreira. Seria certamente necessário apoio institucional e, quem sabe, uma garantia soberana para se ir buscar dinheiro fora do país e levar avante o projecto. Sonho de Natal? Talvez não, se pensarmos que o mesmo, ou quase o mesmo, se está a fazer com galinhas, ovos, açúcar, ervilhas, feijão branco e catarino. Porque não pensarmos em idêntica aposta numa das áreas mais importantes para o crescimento e desenvolvimento do país? Deixo a dica à reflexão dos poderosos de Angola e aos seus mais dilectos colaboradores.

E enquanto no Chile se festejam com euforia momentos de vitória para uma esquerda coligada a suspirar de sonhos, nós ficamos por aqui, planeando o melhor possível um futuro que, tudo indica, é completamente diferente do que tinha sido sonhado. Deixo-me ficar por aqui, rendido aos milhares de quilómetros de asfalto, picadas, buracos e terra batida que faz difíceis as ligações entre nós e não nos permite conhecer de perto a miséria profunda. Ainda fascinado por uma linha de cafeeiros, palmeiras e eucaliptos que separam o meu sonho do mar da ilusão, despeço-me dos meus leitores com os melhores desejos de Boas Festas em família, as melhores que a Covid-19 permitir. Caríssimos, até domingo, à hora do matabicho.

Lisboa, 25 de Dezembro de 2021 

(Dia da Família)

One Comment
  1. É um prazer Lê-lo todos os Domingos!!!!!!!!!!!

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