Porque é que o vosso patrão e o Jorge Mendes são primos?
A liberdade formal é linda; a liberdade real é outra conversa. O sistema capitalista tem destas coisas: empurra-te para a jaula dourada e depois chama-te livre porque a porta não tem cadeado. Só que pesa três toneladas.
POR ALBÉRICO LUPITO
Há duas coisas que o mundo percebe por instinto: futebol e queixar-se do patrão. Junte-se as duas e temos um dilema filosófico digno de um debate de tasca ao domingo à noite.
Vamos a factos: um miúdo de 17 anos, com mais dente do que juízo, é vendido por 50 milhões de euros entre dois clubes. O clube que o compra vestiu-lhe a camisola, o clube que o vendeu lavou as mãos. E o miúdo, esse, foi apenas informado por mensagem: “ó Zé, a partir de amanhã treinas em Madrid”. Parece-lhe familiar? Não? Então imagine que o seu chefe lhe bate à porta e diz: “A partir de amanhã trabalhas na concorrência. O gajo pagou-nos bem. Boa sorte”.
É isto. O futebol é a única actividade, a que agora chamam indústria, onde o trabalhador é embalado, etiquetado e expedido como um iogurte com prazo de validade. E ainda tem de sorrir para a foto. Mas não se iluda, caro leitor: a sua vida não é muito diferente. A diferença é que o seu patrão não chama jornais para anunciar o seu “passe”. Fá-lo em silêncio, numa reunião de RH, e o seu “leilão” é feito por cabeças de gado em linkedins e consultoras.
A analogia com o tráfico de escravos é, claro, provocatória. Mas também é incómoda porque tem um fundo de verdade.
Nos velhos tempos, os escravos eram avaliados pela força dos braços, dentes saudáveis e capacidade de reprodução. Hoje, os jogadores são avaliados por percentagem de remates, velocidade em 100 metros e número de seguidores no Instagram. A lógica é a mesma: o corpo rende; o corpo vale; o corpo vende. Só que agora, em vez de correntes, usam-se contratos milionários; em vez de chicote, usam-se multas por atraso; e em vez de senhor de engenho, usa-se um empresário de fato Armani a fumar charuto.
A diferença essencial, dirá o jurista, é que o jogador pode dizer que não. Teoricamente. Mas diga-me: quantos jovens de bairro social com uma mãe a precisar de ajuda vão recusar um contrato de 10 milhões porque “não gostam do clube”? A liberdade formal é linda; a liberdade real é outra conversa. O sistema capitalista tem destas coisas: empurra-te para a jaula dourada e depois chama-te livre porque a porta não tem cadeado. Só que pesa três toneladas.
E o trabalhador comum, meu amigo, onde fica nisto?
Se o jogador é mercadoria, o senhor que lê isto agora, a olhar para o ecrã do computador, também o é. A única diferença é que o valor de mercado do jogador está escrito nos jornais; o seu está escrito no seu recibo de vencimento. E quando a empresa onde trabalha for comprada por outra, o seu “passe” também muda de mãos, com a subtileza de uma reestruturação orgânica e a empatia de um administrador de falências.
Um jogador é vendido com pompa e circunstância. O senhor é vendido com um e-mail genérico: “Informamos que, no âmbito da sinergia de processos, a sua função será optimizada”. É o mesmo leilão. A única diferença é que o dele tem adeptos a aplaudir, e o seu tem um formulário de rescisão por mútuo acordo. O futebol agora é “indústria”, a sua actividade é diversa.
E aqui chegamos à conclusão que vai doer: ou há escravatura para todos, ou não há para ninguém.
Se chamar escravatura ao que acontece no futebol (porque o jogador é comprado, vendido, emprestado e colocado num mercado) então também tem de chamar escravatura ao que acontece na fábrica, no escritório, na loja e no call center. Porque a lógica é a mesma: o trabalho é uma mercadoria; o trabalhador é um meio; o lucro é o fim.
A diferença é que o jogador tem um agente poderoso, um patrocínio da Nike e uma conta bancária que perdoa muitas indignidades. O trabalhador comum tem o sindicato (se existir) e um crédito à habitação que não perdoa atrasos. Um é explorado com milhões; o outro, com atrasos no subsídio de alimentação.
Portanto, caro leitor, quando vir um jogador a ser apresentado num estádio, com fumo e música, e pensar “este gajo é escravo”, lembre-se: o escravo de hoje não tem grilhões; tem um contrato de cinco anos, uma cláusula de rescisão e um empresário que leva 10% de tudo o que ele ganha. Mas o escravo de hoje também é aquele que pica o ponto às 9h, sai às 18h, e sonha com um aumento que nunca vem.
O sistema não é justo para nenhum dos dois. Apenas é mais coreografado para um. Porque, no fundo, a verdadeira escravatura moderna não é ser vendido: é ser vendido e achar que isso é normal. E isso, meus amigos, é o maior golo que o capitalismo alguma vez marcou, com a ajuda do VAR, da FIFA e de todos os patrões do mundo.
Agora, se me dão licença, vou ver se o Benfica empresta o meu ordenado a outro clube. Já que é para ser mercadoria, ao menos que me vendam com pompa e circunstância.










