O “CAMINHO FIOTE” QUE PODE VOLTAR A SANGRAR O PAÍS

RAMIRO ALEIXO
VEGETANDO POR AÍ…

Dia, sim, dia também, ouvimos de dirigentes e de militantes de proa do MPLA, que essa formação política é a única capaz de promover o desenvolvimento harmonioso de Angola, bem como, de assegurar a harmonia e a reconciliação nacional. Contudo, são os próprios que também demonstram que esses laivos não colhem. A prática tolhe a verdade. Lá dentro, há medo, têm sérias dificuldades de convivência com a diferença e isso vem de longe. E quem conhece a história do MPLA, quem esteve ou está lá dentro, sabe bem o que a casa gasta. Sabe que foi assim com Agostinho Neto, que não foi diferente com José Eduardo dos Santos, e que, infelizmente, não mudou com a presidência de João Lourenço. Antes pelo contrário, a mordaça encoberta pela tal disciplina partidária (que se traduz na obrigatoriedade da obediência e da unanimidade de pensamento e de acção) endureceu. Aliás, disciplina e unanimidade, não são sinónimos de coesão mas sim de imposição, de castração.

Mas, não é isso que nos preocupa, porque tudo o que funcionar para desgastar a imagem do MPLA, a oposição (e não só) aplaude e agradece. Pode constituir um benefício para os desafios políticos que se avizinham, com a realização das eleições gerais, em 2027. 

O que é preocupante, é que fica cada vez mais claro, que essa direcção do MPLA não tolera a diferença, a liberdade de escolha mesmo entre eles. Logicamente, não aceitará qualquer resultado nas eleições que lhe seja desfavorável. E isso é que pode tornar-se complicado para o Estado porque constitui ameaça à sua própria existência.

O que atesta essa nossa interpretação são os factos, é o comportamento, por vezes suicida, da sua direcção. Prediz que se está nas tintas para o voto e para quem vota, pois o que interessa é apenas a continuidade no poder. Não é Angola nem são os angolanos. Apenas eles. Daí que não se importará de passar o rolo compressor da sua máquina por cima de tudo o que for contra a continuidade do seu domínio. 

Por essas e por outras, embora as estatísticas e a sua contabilidade apontem decréscimos de 10% na adesão de eleitores a cada pleito, subentende-se, pois, que os resultados que têm assegurado a vitória cada vez mais espremida, não são, de facto, para esse partido, uma matéria preocupante. Servem apenas de meio de referência na estratégia para legitimar o exercício do poder. Porque com mais ou menos aperto, a vitória estará sempre assegurada, porque não está sequer condicionada ou dependente de balanços de boa governação, factor que deveria ser determinante para convencer os eleitores.

É esse jogo, ou esse esquema, que necessita de abordagem mais profunda, de melhor entendimento, para que possa ser desmontado em benefício do livre funcionamento do Estado Democrático e de Direito, se, efectivamente, dele se faz recurso. 

Infelizmente, a máquina já está afinada e faltam poucos detalhes. Existem trabalhos e denúncias bem sustentadas de alguns actores da sociedade, sobre a manipulação dos resultados. Mas, é preciso aprofundar e multiplicar esses alertas, porque o que vem aí, pode ser demasiado grave para todos. 

Os indicadores que apontam que o país corre o risco de mergulhar num novo banho de sangue estão visíveis. Há demasiada insatisfação e descrença. Sabe-se, quem tem as armas, quem tem todos os meios letais e até adquiriu outros mais sofisticados. Sabe-se quem tem, prepara efectivos e envia emissários à diferentes países para colher experiências de repressão. Logo, o cenário está todo preparado, incluindo o corte das comunicações. Só falta o toque da trombeta. 

Diante dessa perspectiva, existem algumas perguntas incontornáveis: quem tem capacidade para travar essa máquina e esse jogo de elevado risco que, antecipadamente, aponta para o mesmo vencedor de sempre? Quem tem influência suficiente para bloquear essa estratégia, que inclina o campo de jogo e pode levar o país ao caos? Os partidos que farão parte do jogo? A sociedade? As chefias militares, dos órgãos securitários e órgãos afins assegurando que não tomarão parte em novos massacres em defesa de um partido?

Sobre isso, seria bom conhecermos também o pensamento e o posicionamento das altas patentes militares dos dois lados, que movidos pelos políticos, fizeram a guerra e a paz. Mas também neste domínio, eles estão divididos, fragilizados e silenciados. Se os de um lado ainda têm alguma intervenção pública, mesmo sendo poucos, os do outro lado, a maioria, que não está isenta de responsabilidade maiores, preferem o distanciamento, a auto-omissão, como que para assegurar o conforto garantido pelo poder com a ‘oferta’ de benefícios que a paz lhes trouxe. Lamentavelmente, apenas para uns e não para todos, porque mesmo entre aqueles que estão do lado ‘vencedor’, há muitos que estão a penar. No geral, falta-lhes um espaço de convívio e de reflexão regular sobre a sua dignificação, sobre o país e sobre a geopolítica internacional, que está profundamente descaracterizada. Porque a reforma não significa inutilidade, embora no caso de Angola, até para comentar assuntos militares se convide quem só viu ou vê guerras pela televisão. Mas, lavar e limpar as mãos como Pilatos, como se não fossem parte importante na defesa deste povo, pode beirar à acto de TRAIÇÃO.

Entende-se que seria de boa nota que essa classe tivesse em conta, por antecipação, que o país pode passar por momentos difíceis, e que todos somos importantes para continuar a assegurar a paz e a estabilidade.  Sem interferência sobre o exercício do poder político, se quiserem, têm autoridade para, no mínimo, alertar que o “caminho fiote” escolhido por quem se acha o dono-disto-tudo, não é boa opção para ninguém. É ‘turrão’, mas também tem rabo. 

Tirando esse grupo especial, não vejo quem mais possa exercer influência sobre esse poder político, que se viciou, não sabe sair pelo próprio pé e sem medo, atropela até generais com destacada folha de serviço de 50 anos em defesa do próprio sistema. Está a arrastar o país para um nível alto de conflitualidade. Isso é perigoso para a estabilidade, demonstra falta de visão de Estado e acarretará um custo (ou prejuízo) demasiado alto lá mais para frente. E quem anda mergulhado nessas águas, até sabe que não é assim que deve funcionar o jogo político, porque o que sobe, desce sempre mais pesado.

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