O COBRADOR DE FRAQUE: QUEM AJUDA HOJE, COBRA AMANHÃ!

CARLOS GOMES NGONDI SUCAMI*

Uma sociedade não pode viver eternamente refém de cobranças. Reconhecer quem trabalhou é uma obrigação moral. Respeitar compromissos legítimos é sinal de seriedade. Mas transformar cada gesto de solidariedade numa dívida perpétua é matar a própria essência da amizade.

Meus kambas, meus kotas, minhas mamãs e meus mwangolés de gema, sentem só aí, puxem a cadeira e preparem o coração, porque o mambo deste sábado é daqueles que fazem rir com a boca, chorar com o bolso e coçar a cabeça até encontrar a factura da vida!

Hoje vamos falar do famoso “Cobrador de Fraque”, essa espécie humana que não aparece quando a festa começa, mas chega pontualmente quando a conta vem para a mesa.

Não confundam, por favor, com o cobrador do candongueiro, aquele kota de camisa suada, apito na boca e voz de comando, capaz de transportar quinze passageiros num Hiace de doze lugares e ainda gritar: “Avança, mana! Lá atrás tem espaço!”

Esse é trabalhador do transporte público informal. O nosso personagem é doutor em cobranças emocionais, mestre em favores políticos e especialista em transformar um aperto de mão numa letra de câmbio.

O cobrador de fraque veste fato elegante, calça sapatos de verniz, usa perfume importado e aperta a gravata com tanta força que até a consciência fica sem oxigénio. Não vende peixe, não vende tomate, não vende jinguba. Ele cobra! Cobra amizades, cobra lealdades, cobra promessas, cobra favores e, quando a ocasião permite, cobra até aquilo que nunca emprestou!

É o tipo de cidadão que, quando te apresenta a uma pessoa importante, já começa a calcular a comissão moral do serviço.

— Meu kota, lembras-te daquele dia em que te apresentei ao chefe?

— Lembro-me, sim.

— E daquele almoço no Talatona?

— Também.

— E daquela fotografia em que aparecemos juntos?

— Claro!

— Então, meu irmão, está na hora de acertarmos as contas!

O outro ainda está a tentar perceber qual foi o empréstimo, quando o cobrador já apresentou uma lista de serviços prestados: dois apertos de mão, três sorrisos, uma boleia e um elogio numa reunião.

Na contabilidade dele, tudo tem preço. Até o silêncio!

“O cobrador de fraque não oferece amizade: concede crédito com juros emocionais!”

Meus amigos, não vamos fazer de conta que o cobrador de fraque tem cartão de militante exclusivo. Não tem partido. Tem interesses! Hoje veste vermelho, amanhã aparece de azul e, se o vento político mudar de direcção, ainda arranja uma camisola com as cores da ocasião. É um camaleão de fato completo, com doutoramento em sobrevivência política e pós-graduação em conveniência.

No Partido da Situação, pode apresentar-se como o camarada que acompanhou a caminhada, participou nas campanhas, sacrificou o sono e esteve presente nas horas difíceis.

Na oposição, pode surgir como o combatente incansável, o resistente de longa data, o homem que enfrentou tempestades pela causa da mudança.

Dos dois lados da trincheira, a conversa pode começar com ideais nobres e terminar com uma pergunta muito concreta:

— E para mim, o que está reservado?

É nesse momento que a política corre o risco de deixar de ser serviço público para se transformar numa reunião de condomínio, em que cada participante apresenta a factura das suas contribuições.

O problema não está em reconhecer méritos, valorizar a experiência ou recompensar o trabalho. Isso é justo e necessário. O problema começa quando alguém confunde militância com propriedade, amizade com obrigação eterna e participação política com um cheque em branco.

Há quem, depois de ajudar numa campanha, pense que adquiriu uma fracção do Estado. Outros acreditam que um aperto de mão com uma figura importante vale mais do que um concurso público.

E alguns, quando o amigo chega ao poder, já não dizem “parabéns pela nomeação”. Preferem perguntar:

— Meu kota, e a minha parte?

Eh, pá! Parece que o país foi transformado numa sociedade comercial, em que cada militante é accionista, cada favor é investimento e cada nomeação é distribuição de dividendos!

Mas convém recordar uma verdade que não precisa de carimbo ministerial: “o Estado não é propriedade de quem chega primeiro à fotografia, nem o Orçamento Geral do Estado é um bolo de aniversário para repartir entre os convidados”. 

O dinheiro público pertence à comunidade e deve servir o interesse público.

A mana que vende tomate no São Paulo, o jovem desempregado no Cazenga e o muzangala que faz contas no Zango também são accionistas dessa grande empresa chamada Angola. A diferença é que não recebem dividendos: pagam impostos, enfrentam dificuldades e continuam à espera de melhores dias.

Passemos agora pelo Cazenga, pelo Sambizanga, pelo Rangel, pelo Zango e pelas centralidades de Luanda. 

Encontramos jovens com diplomas debaixo do braço, currículos enviados para dezenas de instituições e esperanças que já estão a precisar de manutenção. Encontramos mães a vender peixe, bombó e tomate para pagar a escola dos filhos. Encontramos pais que, à noite, fazem contas na calculadora do telemóvel para descobrir como é possível o salário acabar antes do mês.

Entretanto, num gabinete climatizado, o cobrador de fraque ajeita a gravata e bate à porta.

— Excelência, lembra-se do apoio que lhe dei?

O jovem desempregado também se lembra de uma promessa. A mãe que vende tomate recorda-se de outra. O professor espera melhores condições de trabalho. O enfermeiro reclama meios para atender os pacientes. O cidadão quer água, energia, estradas e serviços públicos que funcionem. Mas o cobrador tem acesso ao gabinete, enquanto os outros, muitas vezes, continuam na fila.

Eis o problema: quando o favor pessoal passa à frente da competência, o mérito fica no corredor e a oportunidade entra pela porta dos fundos.

Depois, quando os serviços falham, quando os projectos não avançam e quando o cidadão reclama, todos procuram um culpado.

Poucos se lembram de que o problema pode ter começado no dia em que se escolheu um protegido em vez de um profissional competente.

O cobrador de fraque, porém, não se preocupa com essas pequenas dores da sociedade. A sua preocupação é outra: garantir que o investimento produza retorno!

— Meu kota, eu não quero nada para mim. Só quero que te lembres dos amigos!

Quando alguém pronuncia essa frase, o cidadão prudente esconde a carteira, verifica o saldo bancário e começa a rezar. Porque há amizades que saem mais caras do que um apartamento no Talatona!

E atenção: o problema não está no fato elegante, nem na gravata bem escolhida. Há homens de fato que servem Angola com dignidade e cidadãos modestamente vestidos que também sabem vender a consciência. “A questão não é a roupa. É o carácter!”

Um homem pode vestir seda por fora e carregar capim seco por dentro.

Meus kambas, estamos a caminhar para as eleições gerais de 2027. O ambiente político vai aquecendo e os vendedores de esperança começam a preparar as suas bancas. Uns prometem emprego. Outros prometem estradas. Há quem prometa hospitais, escolas, água potável, energia eléctrica e melhores salários. Tudo isso é importante. Angola precisa de soluções concretas, não de milagres anunciados em conferências de imprensa.

Mas, enquanto o cidadão procura propostas credíveis, o cobrador de fraque está ocupado com outra actividade: cobrar os favores antigos e garantir os benefícios futuros.

Nas campanhas, a sua presença é indispensável. Conhece os corredores, domina os bastidores, distribui conselhos e apresenta-se como o homem que sabe abrir portas. Se o partido vencer, exige reconhecimento. Se o candidato for nomeado, reclama recompensa. Se o amigo chegar ao topo, considera que chegou também a sua hora de subir. E, se alguém perguntar quais são os seus méritos, responde imediatamente:

— Eu estive lá desde o princípio!

Como se estar presente numa fotografia fosse equivalente a construir uma escola, criar empregos ou melhorar o atendimento num hospital.

Em tempo de eleições, aparecem também os abraços calorosos, as viaturas de luxo, os discursos emocionados e as promessas capazes de fazer chover no deserto. O político visita o bairro, cumprimenta a mamã que vende banana, abraça o jovem e pergunta:

— Como está o povo?

O kota olha para ele, olha para o prato vazio e responde:

— O povo está aqui, excelência. Só falta saber como vai jantar!

Silêncio na comitiva. O assessor tosse. O fotógrafo pede outra pose. E o cobrador de fraque, que estava ao fundo, aproxima-se para explicar que a promessa ainda está dentro do prazo. Mas o eleitor angolano tem uma responsabilidade: aprender a distinguir promessas de programas, discursos de resultados e simpatia de competência.

O voto não deve ser entregue por gratidão pessoal, medo ou pressão de amigos. Deve resultar da avaliação livre das propostas, do desempenho e da credibilidade de quem pretende governar.

“O voto não é uma dívida do eleitor para com o político. É uma procuração temporária que o cidadão entrega a quem considera capaz de servir o país”. 

E uma procuração não é propriedade!

Quem recebe confiança deve prestar contas. Quem promete deve apresentar resultados. Quem governa deve aceitar críticas. E quem perde deve compreender que a democracia não é uma festa privada em que só o vencedor tem direito a dançar.

O cidadão não pode ser tratado como cliente que recebe uma camisola, uma gasosa ou um aperto de mão em troca de quatro anos de silêncio.

Meus amigos, o cobrador de fraque tem uma característica curiosa: fala sempre de grandes princípios, mas apresenta pequenas facturas.

Diz que defende a transparência, desde que ninguém lhe peça para abrir a própria gaveta. Diz que combate a corrupção, desde que a investigação não chegue à porta do seu compadre. Diz que ama Angola, mas, quando precisa de escolher entre o interesse nacional e o interesse pessoal, começa a tossir como quem engoliu uma espinha de cacusso.

É patriota nas cerimónias, revolucionário nos discursos, democrata nas fotografias e pragmático quando aparece uma oportunidade.

Se houver uma bandeira, segura-a com orgulho. Se houver um microfone, discursa com emoção. Se houver uma câmara, endireita a gravata. Mas, se houver uma factura para pagar em benefício do interesse público, de repente, o telefone fica sem rede!

— Alô, camarada?

— Estou sem sinal!

— Mas estamos aqui ao teu lado!

— Pois, mas a rede está mesmo muito fraca!

É a famosa rede selectiva: funciona perfeitamente para receber convites, mas falha quando chega a hora de prestar contas.

O problema é que uma sociedade não pode viver eternamente refém dessas cobranças. Reconhecer quem trabalhou é uma obrigação moral. Respeitar compromissos legítimos é sinal de seriedade. Mas transformar cada gesto de solidariedade numa dívida perpétua é matar a própria essência da amizade.

Ajudar alguém não deve ser uma operação bancária disfarçada de fraternidade. E servir Angola não pode ser um investimento privado à espera de dividendos públicos. Se alguém presta serviços ao Estado, deve ser remunerado segundo as regras aplicáveis. Se tem competência, deve ter oportunidades. Se trabalha, deve receber o que lhe é devido. Mas ninguém deve transformar favores pessoais em instrumentos de pressão sobre os titulares de cargos públicos.

O interesse nacional não pode ficar refém da lista de amigos de quem governa.

Imaginem agora uma cena no Largo da Independência.

O cobrador de fraque, impecavelmente vestido, aproxima-se de um antigo companheiro.

— Meu irmão, chegou a hora de acertarmos as nossas contas!

O companheiro respira fundo e pergunta:

— Diz-me lá: quando me deste a mão, querias ajudar-me a levantar ou querias garantir que eu ficaria obrigado a puxar-te para cima?

O cobrador ajeita a gravata.

— Como assim?

— Quando defendeste a nossa causa, estavas a pensar no povo ou já tinhas preparado a factura?

O silêncio torna-se mais pesado do que um contentor cheio de cimento.

— E quando dizes que mereces reconhecimento, estás a pedir justiça pelo teu trabalho ou estás a exigir um privilégio?

Meus kambas, há perguntas que não precisam de megafone. Basta colocá-las diante da consciência. O cobrador de fraque não é necessariamente aquele que veste um fraque verdadeiro. É aquele que transforma a gratidão em obrigação, a amizade em moeda de troca e a política numa contabilidade de interesses particulares.

Pode estar no partido da situação ou na oposição. Pode frequentar os gabinetes do poder ou os corredores das organizações cívicas. Pode ser dirigente, empresário, militante ou simples especialista em aparecer quando há benefícios para distribuir. O que o identifica não é o cartão, o título ou a cor da camisola. É a maneira como entende as relações humanas.

Angola precisa de homens e mulheres que saibam distinguir reconhecimento de submissão, lealdade de cumplicidade e mérito de privilégio. Precisa de políticos que compreendam que governar é servir, não cobrar. Precisa de cidadãos que não vendam a consciência por uma gasosa e não entreguem o futuro por uma promessa embrulhada em papel de presente. Precisa de instituições onde a competência valha mais do que o compadrio e onde o interesse público não seja refém das contas particulares.

Porque um país não se constrói com a soma das dívidas pessoais dos seus dirigentes. Constrói-se com trabalho, responsabilidade, justiça, instituições fortes e respeito pelo cidadão.

E, quando chegar a hora de acertar as contas, que cada um apresente a sua verdadeira factura: os resultados do trabalho, os serviços prestados, as promessas cumpridas e o contributo dado à sociedade.

Quanto ao resto, meus kambas, mandem guardar o fraque no armário! 

Que a gravata não aperte a consciência, que o perfume não esconda o cheiro dos interesses e que os sapatos de verniz não sirvam para pisar os direitos do povo. Porque há dívidas que se pagam com dinheiro, outras com gratidão, mas nenhuma deve ser cobrada à custa do futuro de Angola!

E, como diria o velho kota da esquina, enquanto mexe o funje e sopra o molho de peixe:

— Meu filho, quem te deu a mão para te levantar merece um obrigado. Mas quem te deu a mão só para te amarrar precisa de ouvir um mambo bem claro: a minha consciência não está à venda, e o meu país não é balcão de cobranças!

Eh, pá, meus mwangolés, se a carapuça serviu, não precisam de ir ao alfaiate reclamar. Basta tirar o fraque, olhar para o espelho e perguntar:

“Estou a servir Angola ou estou apenas à espera da minha vez de cobrar?”

A resposta pode não aparecer no espelho, mas a História, essa kota velha, tem uma memória que não precisa de agenda para se lembrar de ninguém.

Enquanto isso, o meu fraque ainda , é uma taça de vinho tanto de uma adega longínqua.

Muito obrigado ao meu ilustre amigo Jorge Eurico, o escriba. A quem, devo essa expressão: “O Cobrador do Fraque” .

Bom fim de semana. 

*Menga-Ma-Kimfumu

“Leia. Reflita. Sorria. Partilhe!”

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