
“O verdadeiro campeão não é apenas aquele que sabe entrar em campo e marcar golos; é também aquele que compreende o valor de preparar os outros para continuarem a marcar depois da sua saída”.
Meus mwangolês, meus kotas, meus kambas de primeira água e meus especialistas em política de bancada! Sentem-se bem, arranjem uma cadeira de plástico, mandem vir um mufete de cacusso, um funge bem preparado e uma gasosa fresquinha, porque a conversa de hoje promete dar trabalho aos maxilares! Kkkkkkkkk!
Imaginem um estádio completamente cheio. Nas bancadas, uns gritam pelo ídolo, outros pedem renovação e alguns, mais distraídos, estão preocupados com o preço da ginguba vendida à entrada.
No relvado, um craque de dimensão mundial carrega sobre os ombros uma história de golos, títulos, sacrifícios e alegrias. O seu nome fez vibrar milhões de pessoas, os seus feitos atravessaram fronteiras e a sua camisola tornou-se símbolo de uma geração.
Estamos a falar de Cristiano Ronaldo, o nosso conhecido CR7, o homem que transformou o golo numa espécie de assinatura internacional!
Mas eis que, um dia, surgem divergências, as emoções aquecem e o relacionamento com a equipa técnica passa por momentos delicados. O episódio recorda-nos que, mesmo entre campeões, nem sempre os entendimentos são perfeitos.
A propósito, convém esclarecer: uma divergência pontual não significa necessariamente uma despedida definitiva. No caso de Ronaldo, o episódio com o seleccionador Jorge Jesus não deve ser confundido com um abandono definitivo da Selecção Portuguesa. Ainda assim, a situação convida-nos a uma reflexão interessante: como se deve comportar uma grande figura quando se aproxima a hora de passar o testemunho?
É aqui que o futebol começa a conversar com a política. E, quando o futebol se senta à mesa com a política angolana, meus patrícios, até o árbitro pede uma cadeira adicional!
Porque, no nosso país, falar de liderança, sucessão e continuidade é entrar num campeonato onde há jogadores experientes, jovens promessas, treinadores pacientes e adeptos que já sabem distinguir um passe de assistência de um passe para a reforma!
Antes de entrarmos na Cidade Alta, façamos justiça ao craque.
Cristiano Ronaldo não construiu a sua história de um dia para o outro. Foram anos de disciplina, treino, sacrifício, ambição e persistência. Conquistou títulos, bateu recordes, representou Portugal e inspirou jovens de diferentes partes do mundo. O seu percurso demonstra que o talento abre portas, mas é o trabalho que ajuda a mantê-las abertas.
Entretanto, até os maiores protagonistas precisam de compreender que nenhuma carreira permanece eternamente no mesmo ponto.
O futebol evolui. Os treinadores mudam. Os jovens crescem. As equipas renovam-se. E aquilo que ontem parecia impossível torna-se amanhã uma necessidade. O segredo está em saber adaptar-se sem perder a dignidade.
Imaginem, por exemplo, Cristiano Ronaldo a entrar num balneário e a encontrar um jovem avançado cheio de energia, com as chuteiras novas e os olhos a brilhar.
O rapaz aproxima-se, respeitosamente:
— Mister, posso aprender consigo a marcar golos?
CR7 sorri e responde:
— Claro! Mas primeiro tens de aprender a treinar.
O jovem insiste:
— E depois?
— Depois, aprendes a marcar.
— E quando chegar a minha vez de ser titular?
O craque olha para ele, dá-lhe uma palmada amigável no ombro e responde:
— Meu filho, se treinares bem, talvez um dia sejas tu a ensinar os outros!
Pronto! Eis uma lição de liderança!
O mérito de um grande jogador não diminui quando aparece outro talento. Pelo contrário, pode crescer ainda mais quando o veterano ajuda a preparar o sucessor.
“A glória individual alcança o seu verdadeiro significado quando contribui para a grandeza colectiva”.
Ora, meus kotas, se esta lição vale para o futebol, por que razão não haveria de valer também para a política?
Vamos agora aterrar em Luanda, com escala no Aeroporto Internacional Dr. António Agostinho Neto e uma breve paragem para cumprimentar os nossos irmãos que estão a lutar contra o trânsito da capital!
Quem conhece Angola sabe que temos dirigentes com experiência, quadros que dedicaram anos ao serviço público, figuras históricas que participaram em momentos decisivos da nossa caminhada nacional e cidadãos que continuam a contribuir para o desenvolvimento do país.
Há percursos que merecem reconhecimento. Há obras que devem ser preservadas. Há decisões que produziram resultados positivos e experiências que podem ajudar as novas gerações a evitar erros e a encontrar melhores soluções. Seria injusto ignorar tudo isso.
Mas também seria pouco prudente imaginar que a experiência de ontem dispensa a preparação de amanhã.
Angola precisa dos seus veteranos, mas também precisa dos seus jovens. Precisa da memória dos mais velhos e da energia dos mais novos. Precisa de dirigentes experientes que saibam aconselhar e de novas lideranças que tenham espaço para aprender, inovar e assumir responsabilidades.
O problema nunca foi a idade, nem o número de anos de serviço. A questão essencial é a capacidade de compreender que “nenhuma pessoa, por mais competente que seja, consegue substituir indefinidamente o conjunto de talentos de uma nação”.
Epah, kota! Até uma equipa do Girabola precisa de suplentes!
Se o treinador coloca sempre os mesmos onze jogadores, mesmo quando alguns precisam de descansar, corre o risco de chegar ao fim do campeonato com a equipa cansada e o banco cheio de talentos a perguntar:
— Afinal, nós viemos para jogar ou apenas para completar a fotografia oficial? – Kkkkkkkkkkkkk!
Na política, a pergunta também merece atenção. Como preparar sucessores? Como transmitir conhecimentos? Como garantir que as instituições continuem a funcionar quando os actuais dirigentes deixarem os seus cargos? São perguntas legítimas, necessárias e importantes para o futuro de Angola. E não precisam de ser feitas com agressividade. Podem ser colocadas com respeito, serenidade e sentido patriótico. Afinal, reconhecer o mérito de quem veio antes não significa fechar a porta a quem vem depois.
Agora, meus mwangolês, permitam-me abrir a janela da nossa sátira!
Imaginemos um gabinete fictício, algures entre a Cidade Alta e uma repartição pública de Luanda.
Um dirigente experiente está sentado à secretária. À sua frente, há relatórios, projectos, fotografias de inaugurações e uma agenda tão preenchida que até o próprio calendário pediu transferência para outro ministério!
Entra o assessor.
— Excelência, temos uma questão importante para discutir.
— Diga, meu filho.
— Trata-se da preparação dos sucessores e da continuidade do trabalho desenvolvido.
O dirigente ajeita a gravata.
— Muito bem. E qual é o problema?
— Excelência, precisamos de identificar jovens quadros, transmitir-lhes experiência e prepará-los para assumir responsabilidades no futuro.
O dirigente fica pensativo.
— Excelente ideia! Apoio inteiramente a formação dos jovens.
O assessor sorri.
— Fico satisfeito, excelência!
— Aliás, vamos criar uma comissão para estudar a formação de uma comissão encarregada de propor os critérios para a constituição de uma comissão de preparação dos sucessores!
O assessor, emocionado, quase deixa cair a pasta.
— Excelência, isso é visão estratégica!
Mas, no fundo, pergunta a si próprio:
“Será que, quando a terceira comissão terminar o relatório, os jovens já estarão reformados?”
Meus irmãos, esta cena é apenas uma caricatura. Qualquer semelhança com os nossos hábitos burocráticos, é uma coincidência que fica à responsabilidade da imaginação de cada leitor!
A verdade é que preparar sucessores, não deve ser apenas uma expressão bonita para colocar nos discursos. É um trabalho concreto: identificar talentos, formar quadros, delegar responsabilidades, avaliar competências e permitir que os mais novos adquiram experiência. Um dirigente que forma bons sucessores, não está a enfraquecer a sua posição histórica. Está a demonstrar a qualidade da sua liderança. E um assessor competente não é aquele que passa a vida a dizer «sim, excelência». É aquele que sabe dizer, com educação e fundamento:
— Excelência, a ideia é boa, mas podemos fazê-la ainda melhor!
Porque, convenhamos, uma equipa inteira de pessoas que só concordam com o chefe pode produzir reuniões muito tranquilas e resultados bastante barulhentos!
Angola tem uma história complexa, marcada por lutas, sacrifícios, reconstrução e profundas transformações.
Muitas figuras públicas dedicaram parte significativa das suas vidas à construção do país. Algumas participaram na luta de libertação nacional; outras contribuíram para a consolidação do Estado, para a reconstrução de infra-estruturas, para a administração pública ou para diferentes sectores da vida económica, social e cultural.
Esses percursos não devem ser apagados por causa das mudanças políticas. O reconhecimento dos méritos dos dirigentes é importante para a memória colectiva. Mas esse reconhecimento não exige que permaneçam eternamente nas mesmas funções. Pelo contrário, uma saída digna pode consolidar o respeito conquistado ao longo de uma carreira.
Imaginemos um dirigente que, depois de muitos anos de serviço, decide passar o testemunho a uma nova geração.
Na cerimónia, o sucessor aproxima-se e diz:
— Recebo esta responsabilidade com humildade. Sei que houve trabalho antes de mim, reconheço os resultados alcançados e estou consciente de que também terei desafios pela frente.
O dirigente cessante responde:
— Meu filho, não precisas de apagar a minha história para escrever a tua. Aprende com os meus acertos, evita os meus erros e faz melhor onde for possível.
Os presentes aplaudem. Não há ressentimentos. Não há necessidade de transformar a despedida numa batalha de comunicados. Não há obrigação de fingir que tudo foi perfeito.
Há respeito, reconhecimento e sentido de continuidade.
“É assim que se constrói um legado: não exigindo que os sucessores imitem tudo o que fizemos, mas dando-lhes condições para fazerem melhor.”
E, meus kotas, fazer melhor não é uma ofensa aos que vieram antes. É uma homenagem ao trabalho que eles deixaram por concluir.
Porque o verdadeiro desenvolvimento não consiste em cada geração começar tudo do zero. Consiste em aproveitar as conquistas anteriores, corrigir as insuficiências e avançar.
É legítimo reconhecer iniciativas e resultados positivos da governação actual, assim como é necessário continuar a avaliar criticamente aquilo que ainda precisa de ser melhorado. Uma avaliação equilibrada não exige aplausos permanentes nem críticas automáticas. Exige factos, reflexão e sentido de responsabilidade.
A história de Angola não pertence exclusivamente a um dirigente, a um partido ou a uma geração. É uma construção colectiva, feita de avanços, dificuldades, escolhas e aprendizagens.
Por isso, quando chega a hora de renovar responsabilidades, a melhor atitude não é desvalorizar o passado, mas compreender o que ele nos ensina. E aqui surge uma pergunta importante, sobretudo com as eleições gerais de 2027 no horizonte:
“Como podemos transformar a experiência acumulada pelos actuais dirigentes numa oportunidade para fortalecer as instituições e preparar novas lideranças?”
A resposta não está apenas nos discursos.
Está na formação política e técnica dos quadros, na valorização do mérito, no respeito pelas regras constitucionais, na participação dos cidadãos e na capacidade de construir equipas competentes.
Está também na compreensão de que a continuidade do Estado não depende da permanência indefinida das mesmas pessoas nos mesmos lugares. As instituições devem ser suficientemente fortes para continuar a funcionar, mesmo quando os seus dirigentes mudam.
E isso, meus irmãos, é sinal de maturidade política!
A aproximação das eleições gerais de 2027 oferece aos angolanos uma oportunidade importante de reflexão sobre o presente e o futuro do país.
É tempo de discutir programas, avaliar resultados, ouvir os cidadãos e apresentar propostas capazes de responder às necessidades concretas das populações.
Em Luanda, o cidadão quer perder menos tempo no trânsito. No Huambo, no Bié e no Uíge, as populações esperam oportunidades, infra-estruturas e serviços públicos de qualidade. No Cunene, os desafios ligados à seca e à segurança alimentar exigem atenção continuada. No Moxico, no Cuando e noutras regiões, a melhoria das ligações, dos serviços e das oportunidades económicas é essencial para reduzir as assimetrias territoriais. Em todo o país, os jovens querem estudar, trabalhar, empreender e construir uma vida digna.
Não pedem, necessariamente, que os dirigentes façam milagres. Pedem que trabalhem, prestem contas e contribuam para que as oportunidades não sejam privilégio de poucos. E, quando o debate político se intensificar, convém recordar que a democracia não é uma partida em que o adversário tem de ser destruído. É uma competição em que os participantes devem respeitar as regras, apresentar as suas propostas e aceitar os resultados legítimos do processo eleitoral. O vencedor tem a responsabilidade de governar para todos. Os que não vencem continuam a ter o direito e o dever de participar na vida nacional, fiscalizar, propor alternativas e contribuir para o desenvolvimento do país.
Quanto aos dirigentes que decidam concluir os seus ciclos de responsabilidade, podem continuar a servir Angola noutras funções, através do aconselhamento, da formação, da investigação, da intervenção cívica ou de outras actividades.
Não há vergonha nenhuma em passar o testemunho. Vergonhoso seria desperdiçar conhecimentos e experiências que poderiam beneficiar as novas gerações.
Por isso, em vez de perguntarmos apenas quem vai ocupar determinada cadeira, talvez devêssemos perguntar:
— Quem está a ser preparado para assumir essa responsabilidade?
— Que conhecimentos serão transmitidos?
— Que instituições ficarão mais fortes?
— Que legado será entregue ao futuro?
São perguntas que merecem respostas muito mais importantes do que os habituais debates sobre quem apareceu ao lado de quem numa fotografia oficial!
Voltemos, pela última vez, ao nosso estádio imaginário. O jogo aproxima-se do fim. O veterano, depois de uma carreira brilhante, percebe que chegou o momento de permitir que outros assumam maior protagonismo. O público levanta-se. O treinador aproxima-se. O jogador entrega a braçadeira ao seu sucessor.
Não precisa de negar os golos que marcou. Não precisa de fingir que nunca cometeu erros. Não precisa de diminuir o talento dos jovens para preservar a sua própria importância.
Sai com a consciência de que contribuiu para a história da equipa. E, quando olha para trás, vê os jovens a continuar o trabalho, a melhorar as técnicas e a conquistar novos resultados. A sua história não terminou. Apenas mudou de capítulo.
Na política, esta imagem pode inspirar uma reflexão semelhante. Um dirigente que conclui dignamente a sua missão pode continuar a ser uma referência. Pode aconselhar, sem impor, orientar sem sufocar e apoiar os sucessores sem exigir que lhe peçam autorização para cada decisão. Pode compreender que o respeito não se conquista apenas pelo tempo de permanência num cargo, mas também pela forma como se exerce e se transmite a responsabilidade.
E os sucessores, por sua vez, devem reconhecer o trabalho recebido, preservar o que funciona, corrigir o que precisa de ser corrigido e construir as suas próprias realizações. Não precisam de destruir o passado para demonstrar competência. Também não devem ficar prisioneiros dele. Porque o futuro não se constrói com ingratidão, mas também não se constrói com imobilismo. Constrói-se com memória, coragem, responsabilidade e renovação.
Meus mwangolês, depois desta conversa toda, imaginem que um jornalista pergunta a um antigo dirigente:
— Excelência, qual é o segredo para deixar um legado duradouro?
O dirigente pensa durante alguns segundos e responde:
— Trabalhar bem, formar pessoas competentes, respeitar as instituições e preparar o futuro.
O jornalista insiste:
— E qual é o segredo para saber quando sair?
O dirigente sorri:
— É compreender que a cadeira é um instrumento de trabalho, não um membro do corpo!
Na sala, toda a gente ri.
Mas, no fundo, fica uma verdade que merece ser levada a sério.
Há cadeiras que precisam de bons ocupantes. Há ocupantes que precisam de bons sucessores. E há sucessores que precisam de oportunidades para demonstrar aquilo de que são capazes. O importante é que a cadeira continue a servir a instituição, e não que a instituição passe a existir apenas para proteger a cadeira!
Epah, kota, essa é forte, mas vem com carinho!
Porque saber sair não significa desistir de Angola. Significa compreender que o país é maior do que qualquer função e que servir a pátria pode assumir diferentes formas ao longo da vida.
Cristiano Ronaldo tem uma história extraordinária no futebol. Os seus feitos não desaparecem quando outros jogadores conquistam protagonismo.
Da mesma forma, os dirigentes angolanos que deram contribuições importantes ao país podem continuar a ser reconhecidos, mesmo quando passam o testemunho.
A grandeza não exige permanência eterna. Exige responsabilidade. A experiência não deve bloquear a renovação. Deve iluminá-la. E os sucessores não devem ser tratados como adversários dos seus antecessores. Devem ser preparados para levar mais longe aquilo que receberam.
“Porque a verdadeira vitória não está em permanecer para sempre no centro do palco, mas em deixar uma obra capaz de continuar a brilhar mesmo depois de apagadas as luzes da nossa presença”.
Angola merece dirigentes que saibam entrar com humildade, trabalhar com dedicação e, quando chegar o momento adequado, sair com dignidade. Merece sucessores preparados, instituições fortes e cidadãos conscientes de que nenhum protagonista é maior do que a nação que serve.
E, se algum dia nos perguntarem qual foi o nosso maior golo, talvez a resposta mais bonita não seja o número de anos que passámos em campo. Talvez seja o número de pessoas que ajudámos a preparar para continuar o jogo.
“Entre a glória e a teimosia, há uma escolha que distingue os grandes: saber sair também é vencer!”
E agora, meus mwangolês, podem guardar as chuteiras, desligar o VAR e regressar ao trabalho! Porque a vida continua, o campeonato não termina com um único jogador e Angola ainda tem muitos golos para marcar!
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Bom final de semana.
*Menga-Ma-Kinfumu











