A CATUMBELA PREPARA-SE PARA ABRIR UMA NOVA PÁGINA NA SUA ECONOMIA

SAMPAIO JÚNIOR

No próximo dia 18 de Outubro, o município da Catumbela deverá ganhar a Cidade Comercial da Catumbela, um empreendimento que, na sua fase inicial, prevê a criação de cerca de 300 empregos directos e 600 indirectos.

Instalada no Pólo de Desenvolvimento da Catumbela, a primeira fase contempla 70 lojas, distribuídas entre o rés-do-chão e o primeiro andar, com capacidade de expansão para cerca de 140 espaços comerciais. O projecto foi concebido numa lógica integrada, juntando comércio, serviços, restauração, lazer e hotelaria.

Para Benguela, não é apenas mais um espaço comercial. Pode representar o nascimento de um novo eixo de distribuição de mercadorias, capaz de aproximar produtos, comerciantes e consumidores e reduzir a dependência de viagens a Luanda para determinadas compras.

Segundo apurámos, o investimento está a ser assumido por empresários expatriados que conhecem o mercado regional e que anteriormente desenvolveram actividade comercial na Namíbia, particularmente junto da fronteira com Angola, onde abasteciam uma significativa clientela angolana. Agora, regressam ao mercado angolano para investir, assumindo os riscos próprios de uma economia marcada pela inflação, pela desvalorização cambial e pela redução do poder de compra das famílias.

E aqui começa a verdadeira questão. O angolano trabalha, mas muitas vezes o seu salário não chega ao fim do mês antes das necessidades. O comerciante informal procura mercadoria onde ela existe a preços competitivos. O consumidor procura preço, variedade e qualidade. E o empresário procura estabilidade, logística, moeda e mercado.

A Cidade Comercial da Catumbela poderá responder parcialmente a estas necessidades.

O comerciante informal da província e de outras regiões do país, poderá encontrar aqui uma maior diversidade de produtos, evitando algumas deslocações a Luanda para abastecimento. Mais do que vender, porém, o desafio será criar uma verdadeira plataforma comercial regional, capaz de servir Benguela, Lobito, Catumbela, Huambo, Bié e outras zonas do centro-sul e leste.

Isso poderá significar mais circulação de pessoas, mais transportes, mais camiões, mais táxis e mais actividade económica.

Mas há também um alerta: mais movimento exige mais organização.

Se a infraestrutura rodoviária e os transportes não acompanharem o crescimento, poderemos assistir ao conhecido espectáculo de autocarros sobrecarregados, congestionamentos e acidentes. Não basta construir o centro comercial, é necessário preparar a cidade para o movimento económico que ele poderá gerar.

E os chineses? A questão torna-se ainda mais interessante quando se olha para a possibilidade de os operadores comerciais importarem directamente ou encomendarem mercadorias provenientes da China. O Centro Comercial var dar esta falicidade.

A China já ocupa uma posição central nas relações comerciais de Angola. O MIREX refere que o comércio bilateral ultrapassou 23 mil milhões de dólares em 2024, mantendo a China como principal parceiro comercial de Angola.

Por isso, quando perguntamos “o que significa a China virar-se cada vez mais para Angola?”, talvez a resposta não esteja apenas na quantidade de produtos chineses que chegam aos nossos mercados.

A verdadeira pergunta é outra. Angola vai continuar a ser apenas um grande mercado consumidor da China ou conseguirá transformar essa relação numa plataforma de produção, distribuição e exportação?

É aqui que está o futuro. Se a Cidade Comercial da Catumbela se limitar a receber contentores, abrir lojas e vender produtos importados, teremos simplesmente mais um grande mercado.

Mas se conseguir evoluir para um hub comercial e logístico, envolvendo armazenamento, distribuição, transporte, comércio digital, formação profissional, serviços financeiros, pequenas indústrias de transformação e ligação directa aos produtores nacionais, a história será diferente.

O grande salto seria fazer com que parte dos produtos hoje importados começasse, progressivamente, a ser montada, transformada ou produzida em Angola.

Porque importar é necessário enquanto a produção nacional não consegue responder à procura. Mas o futuro de uma economia não pode depender eternamente da importação de quase tudo aquilo que consome.

A própria cooperação Angola-China tem vindo a colocar no discurso oficial a necessidade de diversificação económica e transferência de tecnologia.

Portanto, talvez seja este o momento de pensar mais longe. Da loja à fábrica. A Cidade Comercial pode começar com 70 lojas e chegar a 140.

Mas a ambição deveria ser muito maior, que alguns dos produtos vendidos nessas lojas possam, amanhã, sair de fábricas instaladas em Angola.

Que o comerciante deixe de ser apenas importador e passe também a ser distribuidor. Que o distribuidor se transforme em investidor. Que o investidor encontre parceiros industriais. Que os jovens deixem de procurar apenas emprego e encontrem oportunidades para criar empresas.

E que a China, em vez de representar apenas o país de onde vêm os produtos, possa representar também tecnologia, maquinaria, conhecimento, financiamento e parcerias para produzir em Angola.

A China já demonstrou interesse em aprofundar investimentos em Angola e em sectores ligados à modernização das infraestruturas. Existe inclusive um acordo bilateral de promoção e protecção recíproca de investimentos. É precisamente aqui que Catumbela pode ganhar importância estratégica. O PDIC tem muito espaço para instalarem futuras fabricas. 

A localização entre Benguela e Lobito, a proximidade do corredor do Lobito, o potencial logístico da região e a ligação aos mercados do interior, podem transformar a Catumbela num ponto importante da nova geografia comercial de Angola.

Mas, para isso serão necessários energia estável, estradas funcionais, segurança, telecomunicações, crédito, regras previsíveis, alfândegas eficientes e, sobretudo, capacidade empresarial nacional. Porque o investidor estrangeiro pode trazer capital. Mas quem deve ganhar capacidade com o investimento é também o país.

Se a Cidade Comercial conseguir gerar emprego, dinamizar o comércio, integrar empresários angolanos, estimular a produção nacional e criar novas cadeias de distribuição, poderá tornar-se muito mais do que um conjunto de lojas. Poderá ser uma espécie de janela para a economia do futuro.

E talvez seja esta a grande oportunidade da Catumbela, deixar de ser apenas um lugar por onde se passa e começar a ser um lugar onde o comércio, a indústria e o investimento param para ficar.

O chinês chega com mercadoria e capital. A pergunta é: o que Angola terá preparado para transformar essa oportunidade em produção, conhecimento e riqueza nacional? Esse é o verdadeiro desafio.

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