CARLOS FEIJÓ PARTE A LOUÇA NO CUNENE E ENVIA RECADOS PARA DENTRO DO SEU PARTIDO

SAMPAIO JÚNIOR

A poucos meses das eleições de Agosto de 2027, o MPLA tem diante de si o desafio de confrontar o discurso com os resultados da sua governação e responder às expectativas de uma população que exige mudanças concretas nas suas condições de vida.

O coordenador do Grupo de Acompanhamento do MPLA para o Cunene, Carlos Feijó, partiu a loiça, como se diz na boca do povo. Uma metáfora bem conseguida para o momento político em análise.

Ao discursar na XI Conferência Ordinária Provincial do MPLA no Cunene, Carlos Feijó descreveu o encontro como um momento de lucidez colectiva, em que o partido se olha ao espelho, avalia o caminho percorrido e decide, com clareza, o que deve fazer a seguir.

Entre a lucidez do discurso e a realidade de um país mergulhado na pobreza, há uma distância que não se apaga com palavras, senhor coordenador.

Esperemos, porém, que o espelho não esteja demasiado fusco e permita uma radiografia sem maquilhagem política, dos estragos provocados por décadas de governação do partido que sustenta o Executivo, e que conduziu o país à actual situação económica e social.

Uma avaliação desapaixonada, deveria levar o MPLA a reconhecer que continua a caminhar em terreno cada vez mais negativo, sem grandes sinais de alívio para uma população que se aproxima de Agosto de 2027, com expectativas frustradas e uma crescente desconfiança em relação às promessas políticas. A sentença pode ser ditada nas urnas e, se o partido acabar sentado na bancada da oposição, que não procure culpados alheios.

A juventude está desesperada. Falta emprego, falta habitação e faltam oportunidades para construir um futuro com dignidade. Milhões de angolanos continuam com os olhos postos num grão de milho ou num bago de arroz, na esperança de garantir a próxima refeição. Num país com recursos naturais abundantes, a fome permanece uma visitante indesejada que parece ter encontrado residência permanente.

Carlos Feijó reforçou que um partido forte não teme a diferença de opinião, antes sabe transformá-la em reflexão, aprendizagem e decisão colectiva. Resta saber se esta lucidez não chega tarde demais. Acrescentou que não tolera a deslealdade, a intriga e a divisão alimentadas fora dos órgãos próprios.

É um discurso politicamente correcto. Mas convém perguntar: será que estas intrigas surgem por geração espontânea, ou são também consequência de uma longa permanência no poder, da luta por lugares, do acesso aos recursos do Estado e da disputa por privilégios?

Afinal, como diz a sabedoria popular, “numa casa onde falta o pão, todos ralham e ninguém tem razão”. Quando os benefícios escasseiam para muitos e parecem abundar para alguns, a unidade partidária transforma-se facilmente numa luta pela sobrevivência política.

O coordenador afirmou igualmente que a militância não pode ser entendida como um caminho para obter emprego, promoção, acesso privilegiado a oportunidades ou benefícios pessoais.

Aqui, Carlos Feijó toca numa ferida antiga. Na prática, persiste a percepção de que possuir um cartão de militante do partido no poder, pode abrir portas para cargos de responsabilidade e facilitar o acesso aos chamados lugares de confiança. Esse vício já criou calos!

É neste ambiente que se multiplicam situações em que figuras tradicionais, incluindo reis e sobas, e até jornalistas, aparecem trajados com as cores partidárias, levantando legítimas interrogações sobre a necessária separação entre a autoridade tradicional, a independência profissional e a militância política.

O combate à corrupção, ao nepotismo, à bajulação, ao favorecimento e à impunidade também voltou a marcar o discurso. Todavia, depois de tantas declarações de intenção, estas palavras começam a soar a uma lenga-lenga política, repetida de conferência em conferência, enquanto os cidadãos aguardam resultados concretos.

Estes males não violam apenas princípios legais e éticos: corroem a confiança dos cidadãos nas instituições e alimentam o desgaste político de quem governa.

Carlos Feijó tem no entanto razão, quando afirma que comunicar não é apenas falar, mas também ouvir. As críticas dos cidadãos não devem ser automaticamente interpretadas como hostilidade política. Pois, pois! Das palavras aos factos, são outros quinhentos.

Na generalidade, as críticas são o grito de uma população cansada de promessas, que exige respostas para os problemas que enfrenta diariamente. Mas ouvir, por si só, não chega. É preciso agir!

As empresas nacionais enfrentam dificuldades crescentes, a actividade económica perde fôlego e a incerteza instala-se na vida dos cidadãos. A sobrevivência económica de muitas famílias tornou-se uma luta diária, enquanto o poder de compra continua a ser uma das grandes preocupações da população.

Angola corre o risco de continuar a funcionar como um Estado de despesas elevadas e resultados insuficientes, em que o custo da governação não encontra correspondência na melhoria das condições de vida dos cidadãos.

Por isso, se o MPLA pretende realmente olhar-se ao espelho, deve ter a coragem de enfrentar a realidade sem filtros, sem discursos de circunstância e sem procurar culpados apenas dentro das suas próprias fileiras.

O país precisa de emprego, habitação, saúde, educação, segurança alimentar e oportunidades para os jovens. Precisa de instituições credíveis, de justiça e de uma economia que permita aos angolanos viver do seu trabalho, sem depender da proximidade ao poder político.

Carlos Feijó partiu a loiça no Cunene. Resta saber se o seu partido está disposto a apanhar e juntar os cacos.

A poucos meses das eleições de Agosto de 2027, o MPLA tem diante de si o desafio de confrontar o discurso com os resultados da sua governação e responder às expectativas de uma população que exige mudanças concretas nas suas condições de vida.

E, quando um espelho está demasiado fusco, não basta limpá-lo com discursos: é preciso mudar a realidade que ele reflecte. Se é que ainda vai a tempo!

No final das contas, Carlos Feijó não estará a colocar a sua pedra na fila dos que, sem chocar com o Chefe, contando com o apoio de uma elite dos camaradas, podem ser opção na escolha do cabeça de lista para substituição de João Lourenço no Palácio da Cidade Alta? E porque não, se também é parte da sustentação do sistema, se como jurista esteve no parto da CRA e noutras ‘maracutaias’ que constituem segredo de Estado, para além de ter sido ministro de Estado? Curriculum não lhe falta.

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