O ATAQUE OU O APAGÃO DA UNITEL

A nova novela angolana que deixa o regime com o ‘rabo’ ao leu…

RAMIRO ALEIXO
VEGETANDO POR AI

Participei há vários anos numa conferência internacional sobre telecomunicações. Tal como os demais presentes na ampla sala, ouvi de um alto funcionário de uma empresa sul-africana, que a UNITEL atingiu um estágio de elevado desenvolvimento. Destacava-se como uma das mais valiosas e promissoras no conjunto das congéneres implantadas em África, incluindo de grandes potências. E citou como exemplo, que Angola, por via da UNITEL, começou a utilizar o sistema digital primeiro que a cidade de Nova York, que operava ainda no analógico. Destacou, de igual modo, a aposta muito comprometida com a formação de quadros técnicos em todos os escalões e domínios, no país e no exterior, para se libertar a empresa da dependência técnica estrangeira onerosa. Tratava-se, disse, de grande visão empresarial.

Por essas e outras razões que me transmitiram orgulho e confiança naquele momento, sempre me intrigou assistir tanto retrocesso nos últimos sete anos na prestação dos serviços dessa empresa que existe há 25 anos, comparando com o seu percurso anterior de sucesso absoluto. É visível que, apesar de ter crescido e deter agora mais de 21 milhões de clientes, deixou de acompanhar as dinâmicas do desenvolvimento da telefonia móvel e das necessidades do mercado como nos havia habituado. Provavelmente, como resultado do ‘trungungo’ de quem assumiu o poder, e decidiu abocanhar tudo, a pretexto do combate à corrupção. Não olhou para as consequências. E ainda pagou um bilião de dólares para adquirir os 25% da participação societária da PT Ventures/Oi, tornando o Estado angolano detentor de 50% do capital da empresa. Posteriormente, também nacionalizou as participações da Vidatel e da Geni, o que permitiu que o Estado assumisse o controlo praticamente integral da UNITEL.

Uma análise recente de Jorge Luiz Silva de Barcellos (1) onde faz uma “Radiografia Económica e Social de Angola”, revela que a Unitel já foi uma das operadoras mais rentáveis do planeta. A comparação entre o seu valor de mercado na anterior gestão e o valor actual, implícito na Oferta Pública de Venda (OPV) de 2026, é brutal. Jorge Barcellos refere que “em 2017 a UNITEL valia 5,2 mil milhões de dólares e agora vale pouco mais de 2,1 mil milhões. Esta perda de mais de 50% do valor de mercado, é um indicador claro da destruição de valor de um activo estratégico”. E a ser mesmo verdade que ocorreu “o ataque de um hacker surge, assim, como um sintoma de uma fragilidade mais profunda, que lança dúvidas sobre a capacidade de gestão e sobre a valorização justa da empresa”, concluiu.

De lá para cá (de 2017 a 2026), tem sido mais a descer que a subir. E é no mar de inúmeros constrangimentos diários em que se inclui o ‘engolimento’ injustificável de saldo de voz e de dados, que fomos apanhados com as calças nas mãos com um apagão que se prolonga, em muitos casos, decorridas 24 horas e iniciada a reposição gradual. Confirmação de que foi mesmo muito grave o que ocorreu.

Mas não se tratou do primeiro ‘apagão’. Já se observou outro em todo o espaço nacional, há exactos 12 meses. Só que, no meio de tanta confusão que se vivia, não foi tão impactante e quem ordenou, não se sentiu obrigado a qualquer justificação porque para ele era simples: “houve ameaça à sobrevivência do poder”. Neste caso, de outros contornos certamente e com outros propósitos, depois de muita hesitação ou perplexidade, lá veio a direcção da UNITEL justificar que o ‘apagão’ resultou de um ataque cibernético à sua infraestrutura tecnológica”

Como muitos utilizadores dos serviços da UNITEL, inicialmente não fiz fé. Sendo mais directo: não consumi essa informação, não engoli, não aceitei que essa tal invasão de hackers que impuseram um resgate de 300 mil milhões, equivalentes em criptomoedas, seja a verdadeira causa do ‘apagão’. Não me convenceram…

Agora, diante de mais informação, devo penitenciar-me? Não sei! Na minha cachimónia rolam ainda muitos questionamentos que não obtiveram respostas, habituado que estou a falta de transparência nos actos dos donos-disto-tudo. Não há “bela sem senão”. Tudo o fazem ou dizem levanta sempre dúvidas mesmo quando se trata de verdade: “E se essa não for a verdadeira causa? Ou melhor, e se a verdadeira causa de black out foi uma avaria técnica resultante da falta de investimento necessário para segurança e fiabilidade da rede, que deixou a UNITEL vulnerável a ciberataques? Dá para entender que quem pagou um bilião de dólares para comprar uma ‘luxuosa mansão’, seja tão negligente ao ponto de não acautelar a sua segurança? Imaginem agora um cenário, em que o(s) verdadeiro(s) hacker descontente(s) com a fama sem proveito, parte, de facto, para o assalto a UNITEL para cobrar a factura dessa intervenção falhada”? 

Sendo verdade ou parecendo mentira, com tudo isso, a UNITEL, que parecia uma valiosa Ferrari, baixou a sua cotação no mercado. As suas acções caíram 10,83% e ficam a menos de 2.002,00 Kz abaixo do preço do IPO. Em 24 horas, cerca de um milhão dos seus clientes migraram para o concorrente e serão mais nos próximos dias, semanas e meses. Noutras praças, onde a bolsa tem uma função e papel mais activo, os 15% do capital social da empresa colocados à venda para alargar a base accionista, que permitiram nos últimos dias um encaixe de 300 mil milhões de Kz valeriam agora, tanto quanto a oficina de esquina do senhor João. 

Mas pus-me a pensar se essa jogada não terá sido propositada, para influenciar o negócio, provocando a redução do valor das acções, receber recursos, investi-los para depois ganhar numa altura em que a empresa esteja com melhor sustentação? Pode atrapalhar o negócio, o facto de o “ataque cibernético” ter ocorrido no dia 28 de Julho, bem como os antecedentes, que podem levar-nos a não descartar uma eventual intervenção (ou manipulação) do próprio poder político? Antes pelo contrário, o objectivo também poderá ter sido esse mesmo. Passar a mensagem para certos grupos de interesse, que não é bom negócio comprar acções de uma empresa subjugada ao poder político, que quando lhe convém, decreta a suspensão da fonte de arrecadação de recursos, causando prejuízos incalculáveis a ela e aos clientes, também pode fazer parte do jogo, para delimitar a intervenção de actores que não fazem parte da influência do regime. 

Perguntar-se-á o leitor, por que razão chegamos até essa interpretação? É porque o histórico de todo esse processo, conduz-nos primeiro a aprovação de um conjunto de leis propostas pelo Governo, depois a aquisição de abundantes meios letais sofisticados, no valor de milhões de dólares. Tudo combinado, com o objectivo de condicionar e de reprimir a nossa liberdade e os nossos direitos de cidadania. E o pacote incluiu equipamento de escuta telefónica (contando com a intervenção de meios da UNITEL). Logo, apesar da abertura ao mercado por necessidade de capitalização, a UNITEL não é para qualquer um. Mesmo para quem tenha dinheiro limpo. Logo, pode ser o próprio poder a fazer manobras de diversão para assegurar a injecção de capital na ‘sua’ empresa. O capital que não têm para novos investimentos que poderão permitir, mais adiante, a sua sobrevalorização na bolsa.

O que se expõe aqui pode até passar de mero exercício de cosmética. Ou como se diz, esse segundo apagão também pode ter sido mais um ensaio bem-sucedido por razões preventivas para o pior cenário. Não é uma hipótese descartável nem teoria conspirativa. Os indicadores do nosso ambiente político, apontam para eventual elevação do nível de tensão e de conflitualidade contra o poder, até as eleições e depois delas, devido ao sufoco das medidas económicas que toma, que servem de forca às empresas e levam a cada dia ao empobrecimento das famílias. Não é exagero afirmarmos que o descontentamento contra a governação atinge o pico, apesar da sua prestação não ser de todo má. Mas, há alguma coisa que não cativa, que o torna abominável, desprezível. Provavelmente, porque não conseguiu ser reformista. Ou, provavelmente, por manifestar insensibilidade, por desrespeitar a vida e estar tão minado de corrupção, num nível mais refinado, que superou o anterior. Mantém o status quo das más práticas na gestão da coisa pública e comem tudo. Incluindo a UNITEL.

Por tudo isso, mesmo fazendo boa-fé no argumento de que foi um ataque cibernético à sua infraestrutura tecnológica”, e, porque factos são factos,não há como ignorar a coincidência deste ‘apagão’ com o primeiro que ocorreu há exactamente um ano. Por essa altura, no decurso de manifestações e actos de vandalismo subsequente, os órgãos castrenses foram responsáveis pelo assassinato de 30 cidadãos, 277 feridos, 1.515 detidos e a destruição de 118 estabelecimentos comerciais. São números que não abonam a governação, o sistema ou o regime. Foi mais um massacre, a juntar a vários outros ao longo de 50 anos de governação do mesmo actor: o MPLA. E o ‘apagão’ não pode ser coincidência.

As nossas muitas dúvidas ou incertezas, avolumam-se e tornam-se mais profundas e consistentes, quando ligamos alguns órgãos de comunicação públicos. Nestes tempos da IA, insistem em querer transformar-nos em estúpidos e ignorantes. Como se vivêssemos ainda na Idade da Pedra. Dão mais ênfase aos argumentos jurídicos de condenação à prática de um eventual crime, relativizando o aspecto técnico que é (ou devia ser) mais importante e esclarecedor, acrescidos de dados económicos e comerciais, fundamentais para análise. Porque sabem que é aí que mora a verdade. Mas, se for dita e debatida, descamba na falta de investimento e na responsabilização de quem se apropriou da UNITEL, e não soube cuidar bem dela nem defender os nossos interesses como Estado e como clientes. 

Para condimentar o prato, ajudou pouco a justificação de Aguinaldo Jaime, o PCA da UNITEL. Apresentou-se pouco convincente. E lembrei-me da actuação de certa juíza representante da Comissão Nacional Eleitoral ao anunciar os resultados das eleições, em 2022. A Aguinaldo Jaime faltaram apenas os copos de água, porque a base e os fundamentos dos discursos, pareceram de mando copiado! 

Mas, ainda assim, vou aceitar que se tratou mesmo de um ataque cibernético à infraestrutura tecnológica” da UNITEL. Tenho outra alternativa? Até tenho, mas, vai dar no mesmo, porque embora a maioria da população não saiba, a AFRICELL e a UNITEL são farinha do mesmo saco: “mantêm uma relação de concorrência” e também de “partilha regulada de infraestruturas mediante pagamento”. O mesmo que dizer, que o negócio ficou fácil para quem chegou a Luanda sem nada.  Bastou aliar-se aos donos-disto-tudo de ontem e juntar os de hoje para se tornar na segunda operadora. Acto contínuo conseguiu um financiamento do IFC apresentando como garantia o Contrato de Concessão atribuído pelo Estado angolano e o resto veio por arrasto. Actualmente, instalou a sede num dos edifícios arrestados ao abrigo da recuperação de activos pertencentes ao Estado, porque terá sido construído com recursos retirados da Segurança Social. Recebeu o edifício de oferta? Paga arrendamento à proprietária? O que se sabe, é que decisões dessa envergadura não são tomadas por arraia-miúda. E se desenrolarmos o novelo, concluiremos que a outra ponta está amarrada ao Palácio, tem patente e é parecido com quem manda em tudo. Ou é apenas o seu ‘ponta’ no negócio.

A solução passa por maiores investimentos e por abrir o mercado à mais operadoras para acabar com esse monopólio. O actual modelo de distribuição de tudo entre eles, conduz o país para o abismo, destruindo a qualidade dos serviços, pois não atendem as necessidades do desenvolvimento, nem o alargamento da rede para satisfazer o crescimento demográfico e a melhoria da prestação pública e comercial das instituições. E a culpa não pode ser nossa, porque até pagamos mesmo quando não somos bem servidos. Mas eles, os donos-disto-tudo, querem lá saber!

Referências:

  • “Radiografia Económica e Social de Angola” -Comparação entre o Final do Governo de José Eduardo dos Santos (JES) (2017) e a Actualidade (2026);

Jorge Luiz Silva de Barcellos, o autor, é formado em Gestão, Física, Mestre em Matemática e Engenharia de Computador (IA) Mestrado em Finanças Internacionais (não concluído) Ex-Assessor do Ministro da Energia e Águas de Angola, Eng. José Maria Botelho de Vasconcelos, tem vivência de 23 anos em Angola (29 de Julho de 2026)

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