ENTRE VERÃO E CACIMBO (8)

JACQUES ARLINDO DOS SANTOS
JAcQUEs TOU AQUI!

António há de morrer/ A Oliveira há de secar

O sal também se derrete/ E o azar há de acabar…

Do cancioneiro popular português (anos 1960)

1 – As tensões cíclicas vindas do passado colonial e da consequente soberania dos Estados (português e angolano) conduzem-me, amiúde, a certas lembranças. Algumas, dão-me a sensação de se desvanecerem, porém, continuam vivas na minha memória. Por isso, não evitam as mil e uma comparações que faço, entre as realidades de Angola e Portugal.  O hábito não é só meu. Há mais patrícios angolanos na Tuga, a fazerem isso. Por óbvias razões, não deixam de equiparar as atitudes, as políticas, inclusive, que mais se salientam aqui, com as que se registam na nossa Angola. O que é perfeitamente natural, diga-se de passagem!

À margem da convivência que se enraíza, paulatina e paralelamente, noto que já se considera normal a retórica dura contra o passado colonial e a histórica exploração portuguesa, embora com alguma lógica se sonhe, nalguns círculos e em certas circunstâncias, que a Democracia exercida hoje pelos portugueses – muitas vezes ridicularizada por uma parte dos seus próprios cidadãos –, apesar das diferentes realidades, possa fazer escola e ganhar força na nossa mártir buala de Angola. Deixem-me, no entanto, abrir um parêntesis para referir que, na verdade, os tugas que maltratam a sua democracia, não sabem, na verdade não têm ideia, de como, nos dias que correm, se castiga verdadeiramente uma Democracia!

Sonhar é fácil! Mas, os angolanos – mérito absoluto para uma parte significativa da sua vibrante juventude –, estão despertos e começam a tornar sonhos em realidades, descobrindo, naturalmente, a génese de certos fenómenos. Tais como o famigerado retrocesso democrático que ataca a sociedade mwangolé. Visado a partir da altura em que começou a aperceber-se melhor – os indícios são, como se sabe, consideravelmente antigos – que a liderança do País prioriza a manutenção do poder absoluto em detrimento das regras do jogo democrático, utilizando abusivamente as instituições do Estado, mormente, as da Justiça, para se proteger. 

A asfixia da dissidência partidária interna no maioritário é mais que evidente. Dúvidas? Se repararmos na última decisão do Constitucional em relação ao “caso Higino Carneiro”, ficam desfeitas! Os métodos e os recursos utilizados, são, no mínimo, absurdos e ditatoriais. Os críticos internos, as alas opositoras dentro do partido são silenciadas, marginalizadas ou expulsas sob o pretexto de “falta de lealdade” ou “divisão”.  Os caducos esquecem-se que os tempos mudaram e esse tipo de comportamento poderá ter os dias contados. Não tem condições de sobrevivência, apesar de muitos cidadãos sonharem ainda com um partido que imite o Colorado do Paraguai ou o PRI do México, e outros que tais (do género do que atende pelo nome de Portelinha da Silva), sempre bem informados, pensarem que isto está bom demais, que vai ser mesmo para durar, porque quem manda e arregimenta todo o tipo de força, quer que isto caminhe assim como está. Mas, entre os vários lapsos que cometem, esquecem-se também que estamos em África e e que, no nosso Continente as coisas da política costumam ser diferentes!

Por tudo o que observo e com o cacimbo a desaparecer aos bochechos, mesmo com resquícios que deixam marca, prevejo que a temporada que se aproxima, vai ser bastante quente!

2 – Estão a completar-se, por estes dias, vinte anos sobre a minha primeira e única visita aos Estados Unidos da América. Uma viagem de carácter político-cultural, era eu ainda deputado pelo Grupo Parlamentar do MPLA, levou-me a visitar alguns Estados americanos, entre eles Washington, Carolina do Norte, Mississipi, Oregon, New México, Nova Jersey e mais dois ou três, cujos nomes não me ocorrem agora.  Em todos eles solicitei ao meu cicerone e tradutor – um companheiro cubano zangado com Fidel –   que, nos momentos mais livres, me proporcionasse o prazer de assistir a um espectáculo de sapateado! Expliquei a minha antiga admiração por Gene Kelly e Vera-Ellen, Fred Astaire e Ginger Rogers, Donald O’Connor e Judy Garland e, sobretudo, pelo genial Samy Davis Jr. Desconsegui o que pretendia, e desiludi-me. O sapateado tinha perdido fôlego na América. Que pena! Não haverá em Angola, quem faça ressurgir o sapateado? Se os estrangeiros descobrem as virtudes do nosso semba-quizomba, com passadas incríveis, porque não lançarmos nós, também, olhos ao sapateado? Pensar nas perspectivas a abrir pelo Corredor do Lobito não será descabido. Sonhar com patrocínio da Carrinho e de outras marcas, talvez não seja pensar mal. Logo surgirão bailarinos-militantes a surpreender-nos!

Como nem só de sapateado se faz o mundo do espectáculo, não deixo de referir que, no tempo do cinema-escola séria, de verdade, eu sempre preferi os filmes musicais às cowboiadas do contentamento juvenil. Tinha os meus heróis preferidos, Alan Ladd, Glenn Ford, Gary Cooper. Mas, como nunca fui de animar bandidagens, preferia os dramas em que a justiça vencia os tiranos, era sempre no fim, mas vencia. Naquele tempo, o cinema americano abordava assuntos sérios, como a denúncia, o julgamento e a condenação de grupos da estirpe do Ku Klux Klan (KKK), que não se comparava a alguns que andam por aí a fazer maldades. Todavia, e resumindo, já fomos influenciados pela boa escola americana no cinema. Ela foi, no entanto, perdendo a virtude, nos filmes como na vida real, até na relação com os outros povos. Acredito que o cinema vingue, um dia, em Angola. Tenho a certeza de que não faltará matéria para se fazer bom cinema, na base do que vai acontecendo nos “filmes” dos nossos dias!

3 – Eles, os nossos adversários, não gostam que eu fale, mas eu insisto. Sou chato, como o “Chapas”, o Ernesto Rodrigues Murtinheira, um tipo como só ele, que fez parte de momentos da minha vida e que um dia, prometo, vou apresentar aos meus leitores. Vou ao que interessa agora. Depois de ultrapassados os cónegos do Moreirense, com a categoria que começa a incomodar alguns, vamos certamente dar mais um baile de vira, no domingo, aos minhotos do Gil Vicente de Barcelos. Espero que sim. Nem mesmo o enorme respeito que tenho pela cidade os vai salvar. Porque falo de Barcelos, da cidade do Galo? Porque o seu Museu, lindo e bem organizado, acolhe muita da arte angolana em olaria tradicional. Como nunca vi em Angola! Exposta maravilhosamente! Por isso, por pessoas de lá que muito estimo e por outras coisas que já tive oportunidade de relatar nesta coluna, há uns meses passados. Deixem, no entanto, que vos diga. Sou do Benfica, e isto me envaidece!

Faço as habituais despedidas. Com abraços para os meus leitores, parentes, amigos, camaradas e companheiros de luta. Até ao próximo domingo, à hora do matabicho.

Forte da Casa, Portugal, 13 de Setembro de 2026 

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