Mudança – de “República de Angola” para “República de Agostinho Neto”

O Presidente João Lourenço, titular do poder executivo, tinha dito que era contra o culto da personalidade. Quando alguém é, de facto, contra essa prática, impede-a. É uma questão de princípio. Infelizmente, há muita incoerência.

Por: José Carlos de Almeida*

Creio que, um dia Angola terá a denominação de «República de Agostinho Neto», em homenagem ao primeiro Presidente de Angola. 

Para a Independência de Angola foi necessária a participação de muitos angolanos, pretos, brancos e mestiços. De facto, Neto é uma figura importante na história política de Angola. Contudo, não se justifica o excesso de cultuo da personalidade em relação à sua figura.

Em Angola, há excesso de topónimos associados à figura de Agostinho Neto, quer na qualidade de político, quer na de poeta. Descrevo apenas alguns topónimos na província de Luanda:

1. Universidade Agostinho Neto (a principal universidade pública);

2. Mausoléu António Agostinho Neto (Marginal Sul);

3. Município do Kilamba Kiaxi (um dos noves muncípios de Luanda);

4. Centralidade do Kilamba (a maior urbanização do pós-independência);

5. Rua Dr. António Agostinho Neto (à Cidade Alta);

6. Rua Sagrada Esperança (Prenda);

7. Rua 17 de Setembro (do Ministério da Defesa Nacional ao Palácio Presidencial);

8. Largo 17 de Setembro (Porto de Luanda);

9. Centro Recreativo Kilamba (Bairro Nelito Soares – Distrito do Rangel);

10. Biblioteca Agostinho Neto (Bairro São Paulo, Distrito do Sambizanga);

11. Estátua de Agostinho Neto (Largo da Independência, Distrito da Maianga);

12. Busto de Agostinho Neto (Aeroporto Internacional 4 de Fevereiro, Distrito da Maianga); 

13. Figura de Agostinho Neto estampada em todas as notas de Angola;

14. Imagem de Agostinho Neto em grande plano no auditório da União dos Escritores Angolanos, em sua homenagem; e agora

15. Aeroporto Internacional de Belas (Município de Icolo e Bengo); 

Como podemos constatar, há um excesso de homenagem ao primeiro presidente em termos de toponímia. Isso tudo só em Luanda. É muito! São situações como essas que trazem conflitos. Excessos de homenagens em relação a uns e desvalorização de outros.  Ainda bem que os mortos não reagem. Há actos praticados pelo partido que sustenta o governo que é preciso levar em conta a necessidade de consensos, de modos a se evitar muita polémica ou rejeição. Angola já não é um país monopartidário. Já experimenta a «democracia», há trinta anos. Para determinadas questões, não se pode ignorar o Povo. A falta de consenso em relação a muitas leis, práticas e outras situações poderá dar azo a alterações, caso haja mudança de poder. 

O Presidente João Lourenço, titular do poder executivo, tinha dito que era contra o culto da personalidade. Quando alguém é, de facto, contra essa prática, impede-a. É uma questão de princípio. Infelizmente, há muita incoerência. Há um tempo considerável, mudaram a toponímia da «Avenida Brasil» para «Avenida Hoji Ya Henda», mas a população não a aceita. Continua a usar a primeira denominação – «Tenha cuidado ao atravessar a Avenida Brasil!». E creio que até mesmo os que fizeram essa alteração formal continuam também a chamar «Avenida Brasil». 

Também tomei conhecimento que o Aeroporto Internacional da Catumbela passará a ter a denominação «Paulo Teixeira Jorge», político angolano e ministro da Relações Exteriores de Angola (já partiu para outro mundo) que foi governador de Benguela. Em relação a essa alteração, pergunto se o Município da Catumbela não tem dignidade para que o seu nome seja valorizado, através de uma grande homenagem, relacionada com uma importante infraestrutura da Província de Benguela? De tão distante, tomaram uma deliberação, sem consultar os benguelenses.

Eu sou contra a «netização» ou «kilambização» de Angola, conquanto reconheça que Agostinho foi um grande nacionalista e africanista, cuja figura deve ser valorizada, enquanto político e poeta. Por uma questão de coerência, peço ao Executivo para retirar o busto do Agostinho Neto, que está no Aeroporto Internacional 4 de Fevereiro e colocá-lo na Administração do Distrito do Kilamba Kiaxi. Em sua substituição, coloque um monumento, ao menos, com uma figura de um participante ou com imagens representativas daquele acontecimentos.

Embora a declaração política de Agostinho Neto, em relação aos angolanos seja «O mais importante é resolver o problema do povo», há outras declarações importantes, relacionadas com questões socias e com a produção nacional. Quanto às suas ideias, podemos concluir ou presumir que nosso primeiro presidente era um visionário.

Aconselho os políticos angolanos, os membros do MPLA, em particular, a lerem os discursos de Agostinho Neto para que, consoante o contexto, usarem excertos interessantes dessas intervenções. Na MAAN, está à venda uma colectânea de discos com os seus discursos. Oiçam-na como se estivessem a ouvir um CD musical. Eu, enquanto cidadão e membro do MPLA, tenho a colectânea mencionada, a colectânea das músicas cantadas em sua homenagem e o livro «Sagrada Esperança». 

Não é bom conselho tomar determinada decisão ou deliberação sem que se tenha em conta as opiniões de pessoas interessadas, nesse caso particular os habitantes das províncias onde estão localizadas as infraestruras aeroportuárias – Luanda e Catumbela. Porventura, os habitantes de Icolo e Bengo gostassem que a denominação do aeroporto estivesse associada a «Bom Jesus» – Aeroporto Internacional de Bom Jesus». 

Já agora, aproveitando esta minha reflexão, sugiro à equipa organizadora do «Top Dos Mais Queridos», que realizem esse evento cultural, promovendo um espectáculo com os músicos, que cantaram músicas em homenagem a Agostinho Neto. As músicas cantadas por músicos já falecidos podem ser interpretadas por outros cantores. Por outro lado, há ainda possibilidade de se seleccionar alguns poemas para serem musicados e apresentados para uma avaliação e premiação, com base num concurso público. Temos músicos capazes. As melhores composições também podem fazer parte do espectáculo da marca «Top Dos Mais Queridos», da RNA.

Termino parafraseando: «Eu sou aquele por quem se espera».

*joseca_makiesse

(Pensador & Escritor)

E-mail: [email protected]

One Comment
  1. Claro que não concordo com quase Deusificação, permitam-,me esta nova palavra, do nome do Dr. Agostinho Neto. Que fez ele de especial, para além de ser responsável de ter “mandado” chacinar milhares de Angolanos, de conduzir no pouco tempo que Governou como PR, conduzir o País ao buraco em que se encontra. Lembram-se quem eram os membros do Governo do MPLA de então, na sua maioria simples enfermeiros como Mendes de Carvalho, Coelho da Cruz, Bernardo de Sousa e por aí fora. Um ou outro assimilado mas sem voto.na matéria. Um ou outro até podia ser um “gajo porreiro”, mas esse estatuto não chegava para governar. Eram na generalidade, pessoas de condição cultural demasiado baixa e sem carisma. As pessoas mais antigas conhecem Neto como um alcolatra inveterado, o laureado escritor Luso-Angolano J. Eduardo Agualusa, define-o como um poeta apenas sofrivel, isto é com pouca qualidade. Assim.porque continuam a endeusá-lo ? Porque não reconhecem o seu sucessor como o Arquitecto da Paz ao invés de permanentemente o denegrirem ?
    Quando houver de facto uma Comissão de Toponímia espero que de facto honrem quem merece ignorando as cores partidárias.
    MCpts

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