27 DE MAIO DE 1977. O TESTEMUNHO ARREPIANTE DE BRITO JÚNIOR (FIM)

Transferência para o Campo de Recuperação do Tari-Kibala

Dentre mortos e feridos alguém escapa. Quem tiver a sorte de sair vivo deste sector tem a obrigação de denunciar superiormente como homens foram tratados como bichos nesta nossa querida República PopularTodos nós sabíamos de cor uma frase escrita, a lápis, numa parede da cela 4, a maldita cela onde vegetei 14 meses e 10 dias: “Se algum dia eu poder historiar o que comigo se passou, fá-lo-ei com prazer. Nesta cela sobreviveram 13 camaradas” – 17/7/1977 – Kipuku

EDIÇÃO DE RAMIRO ALEIXO

sector 2 ficou “vazio”. Aguardávamos, a todo o momento, a nossa vez de sermos levados. No entanto, continuávamos a dormir no chão, a não termos direito a sol, a não termos direito à assistência no Hospital. Continuávamos sem ter direito a visitas das nossas famílias e só eu mais uns dois ou três presos recebíamos de 15 em 15 dias encomendas das nossas famílias. O nosso estado de saúde continuava precário e o chefe da enfermaria da prisão, camarada Filangola, dizia-nos que por várias vezes propôs que fôssemos levados às consultas no Hospital Militar, mas o chefe Carlos Jorge não autorizou.

A partir de Abril passamos a ser consultados pelo dr. Victor Nogueira, também preso. Este médico fez o máximo que pode para aliviar as minhas enfermidades, com os parcos recursos que havia na enfermaria. Tudo fez para que eu fosse levado ao Hospital, inclusive intercedeu pessoalmente por mim ao chefe Osvaldo Inácio e ao chefe Carlos Jorge, mas este não autorizou.

Foi numa das nossas idas à enfermaria que fomos confidenciados, (nem sei como e por quem) de que todos os presos que tinham sido levados nos dias 22 de Fevereiro e 23 de Março de 1978 foram fuzilados. Imagine-se o luto de dor que se abateu sobre nós. Seria mesmo possível que os “miúdos” Colombo, Gejé, Ady, Pestana e outros tenham cometido crimes passíveis de morte? Eu tinha conversado com quase todos os presos do sector, movido por interesse jornalístico, e tinha chegado à conclusão de que o “grande erro”daqueles miúdos era o facto de terem lido demais. A meu ver qualquer deles amadureceria com o tempo. Ali, no sector 2, só conheci dois presos que tinham participado convictamente na intentona (Gato Imortal e Ufolo) e um revelou-nos ter mobilizado pessoas na Terra Nova para irem à manifestação. O Gejé só tinha 19 anos e estava nas FAPLA desde os 15 anos. O Colombo tinha 20 anos. Terrível!

No dia 2 de Agosto de 1978 deram-nos uns pequenos colchões de espuma. Não chegavam para todos, mas os mais doentes tiveram prioridade. Recebi um. Desde 30 de Junho de 1977, portanto, 13 meses e 2 dias, sem direito a colchão, dormindo sempre no chão. Foi também a partir do mês de Agosto que passaram a dar-nos 15 muitos ao sol, uma vez por semana. A primeira vez que fomos levados para apanhar sol, sentimo-nos mal. Apanhávamos sol no hall da prisão!

No dia 16 de Setembro de 1978, confidenciaram-nos de que o Camarada Presidente Agostinho Neto havia discursado em Cabinda e dissera que muitos presos seriam libertados. A partir deste dia notamos uma brusca mudança na atitude dos guardas e dos responsáveis mais próximos de nós. Um comportamento da noite para o dia. Aprendi na cadeia como o homem se pode transformar rapidamente conforme as situações. Um bom homem hoje pode-se transformar numa besta amanhã, e vice-versa.

Os efeitos do discurso do Camarada Presidente não se fizeram esperar. No dia 18 de Setembro de 1978 fui levado ao Hospital para uma série de consultas, de dia e acompanhado de um guarda só. No dia 6 de Novembro voltei ao Hospital para outra série de consultas. Muitos outros presos do sector foram também ao Hospital para consultas, sem escolta especial. Passámos a ter direito à meia hora de sol duas vezes por semana. Passámos a ter direito a receber revistas e jornais, a ter direito a visitas pessoais de 15 em 15 dias.

Dia 5 de Janeiro de 1979, cerca das 15:30 horas o visitador político da prisão, pessoalmente, mandou-me arrumar as minhas coisas porque me viria buscar mais tarde. Exultei e exultaram os companheiros do sector. Seria, enfim, libertado. Desde o discurso do Camarada Presidente Agostinho Neto em Cabinda, tinham sido já libertados, no nosso sector, o Mateus Paka, em 22 de Setembro, Zeca Van Dúnem e o Maiato em 30/Dezembro. Cada um fez as suas recomendações. Imaginava-me já a chegar em casa e a alegria da minha família. Um gozo interior fazia-me esquecer todas as agruras dos 18 meses de prisão, 18 meses terríveis. Finalmente, às 19:30 horas, o chefe Faísca veio buscar-me. Saí carregado do meu saco. Tinha permanecido naquele maldito sector 14 meses e 10 dias!

No hall encontrei muitos presos, alguns meus conhecidos, com as suas imbambas. Ninguém nos dizia nada. Comecei a ficar nervoso. Porque tanta demora? Às 22 horas apareceu o 2.º tenente “Pai dos Picas” que chamou por mim e perguntou há quanto tempo estava preso e onde. Respondi, alto e bom som para que todos ouvissem: “fui preso a 30 de Junho de 1977; estive 4 meses na cadeia de S. Paulo e 14 meses no sector 2”. Naquele momento lembrei-me das promessas que fazíamos nos momentos de maior angústia e desespero: “dentre mortos e feridos alguém escapa. Quem tiver a sorte de sair vivo deste sector tem a obrigação de denunciar superiormente como homens foram tratados como bichos nesta nossa querida República Popular”. Todos nós sabíamos de cor uma frase escrita, a lápis, numa parede da cela 4, a maldita cela onde vegetei 14 meses e 10 dias:

“Se algum dia eu poder historiar o que comigo se passou, fá-lo-ei com prazer. Nesta cela sobreviveram 13 camaradas” – 17/7/977 – Kipuku

Kipuku é do grupo que foi levado em 31/Julho/1977, juntamente com o José MingasKintuadi e Bonito. Nunca mais voltaram a ser vistos.

Quase à meia-noite, um a um fomos sendo chamados (eu fui o 3.º) e a medida que íamos respondendo mandavam-nos subir para um camião. Éramos 51 presos e enchemos dois camiões. Ouvimos então a voz do 1.º tenente Cansado dizer: “vocês vão para uma nova situação; portem-se bem porque quem tentar fugir será abatido”. Às 0:05 os camiões partiram. “Vamos para o campo da Kibala” cochicharam alguns. A euforia de há horas atrás se transformou em tragédia para mim. Estaríamos a ser levados também para fuzilamento, como aconteceu aos infortunados companheiros de outras levas anteriores? Será que o futuro ainda me reservava mais sofrimento? O que mais me doía é que por mais voltas que desse à cabeça, não me lembrava de ter cometido algo que se podia considerar crime contra-revolucionário ou de delito comum. Ainda por cima ninguém me dizia nada. Desde o dia 9 de Novembro de 1977, quando fui obrigado a assinar os falsos autos de declaração nunca mais fui chamado. Portanto, há 14 meses que não me diziam absolutamente nada sobre a minha situação. Terrivelmente doloroso.

Às 11:40 horas chegamos ao Campo de Recuperação do Tari-Kibala. Respirei fundo. Afinal vínhamos mesmo para o Campo. Desde que subi para o camião temi a morte. Tinha experiência dessas levas às altas horas. Dos 51 presos havia 3 médicos, 1 advogado, 2 engenheiros, vários estudantes de Medicina, Economia, Direito, Engenharia, directores e chefes de departamentos públicos, mecânicos, motoristas, polícias e até agentes da DISA punidos por indisciplina.

Passei no Campo do Tari 6 meses. Vivi tremenda experiência. Durante 6 meses preparei terreno para culturas, plantei, sachei e colhi batatas; sachei e colhi ginguba; colhi milho; trabalhei em hortas; preparei estrume para adubos, trabalhei na pedreira, partindo pedras com marretas de 5 e 10 kgs; carreguei kimbangulas nas obras. Durante 3 meses dormi no chão, sobre uma simples manta; passei fome, muita fome mesmo (até que fui autorizado a receber visita familiar, 3 meses depois). Fui humilhado várias vezes (prática corrente naquele tempo); passei dias numa cela sem luz, terra batida, sem cobertor (numa das operações de intimidação). Frequentei um curso elementar de agricultura. Readquiri o contacto com a natureza, com o trabalho do campo. Recuperei parte da saúde abalada nos 18 meses de prisão celular.

No dia 20 de Maio de 1979, tive a feliz oportunidade de conversar demoradamente com o Dr. Orlando, do Tribunal Popular Revolucionário, quando de uma visita de inquérito ao Campo, inquérito conduzido pela camarada Rodeth Gilmembro do Comité Central do MPLA/Partido do Trabalho. Naquela conversa, relatei a minha situação desde o dia da minha prisão, realçando o facto de, durante cerca de 20 meses ninguém me ter dito absolutamente nada, inclusive quando fui trazido para o Campo.

No dia 30 de Junho fui libertado. Dois anos completos de prisão: seviciado, torturado, humilhado, bestializado, tudo isto sem um interrogatório formal, sem culpa formada, sem julgamento.

Camarada Ministro da Segurança de Estado

Só agora faço esta exposição porque, quando fui libertado, de imediato submeti-me a um cuidado e prolongado tratamento e só agora me sinto mais ou menos recuperado, embora subsistam alguns males. Fui tratado dos nervos (tratamento prolongado), do estômago, da vista (cerca de um ano sem apanhar sol), dos ouvidos (fiquei defeituoso do ouvido esquerdo, oiço muito pouco e zumbe permanentemente), enfim, tratamento dos pés à cabeça, como se costuma dizer. Além disso não queria que o meu estado de choque, de exaltação neuro-psíquica, de traumatismo recente de tudo quanto sofri, influenciasse o que pretendia relatar. Preferi primeiramente tratar-me.

Camarada Ministro

Não fiz este relato movido por ódio. Não consigo odiar. O meu objectivo é o de dar a conhecer superiormente um pouco das arbitrariedades de que fui (fomos) vítimas, situações dolorosas e inconscientes em violação dos mais elementares direitos que assistem a um ser humano, por mais culpa que tenha. Digo um pouco porque vários factos que me foram contados não podem ser testemunhados, dado que os que mos relataram estão dados como desaparecidos. Além disso me falta memória para me lembrar mais profundamente tudo quanto vivi, vi e ouvi.

Camarada Ministro

Proclamo aqui a minha inocência. Estou seguro de não ter cometido qualquer acto contra-revolucionário e estou pronto para me defender, agora que a legalidade foi restaurada, de qualquer acusação que me seja formulada. Considero-me uma vítima da situação criada pela intentona de 27 de Maio, vítima da inconsciência de alguns elementos que funcionavam na DISA. A minha possível reabilitação é critério das entidades superiores.

Resta-me somente solicitar ao Camarada Ministro que seja providenciada a restituição do que foi retirado do meu gabinete de trabalho:

– Quarenta e nove mil kwanzas (esta quantia estava no meu gabinete e pode ser confirmado pela então minha secretária, Dalila Carneiro Louro, que até agora ainda funciona no Ministério da Construção).

– Uma pasta de lombada larga, contendo vários documentos de toda a minha vida profissional no âmbito jornalista.

Conforme informação da camarada Dalila Carneiro Louro, dias depois da busca que em Julho foi efectuada no meu gabinete de trabalho, sem a minha presença, o dinheiro desapareceu.

Luanda, 18 de Julho de 1980

Mateus Morais de Brito Júnior

Cópia restrita ao:

  • Camarada Presidente da República
  • Camarada Procurador Geral da República
  • Camarada Procurador Popular
  • Arquivo pessoal
Brito Júnior: dois anos completos de prisão, seviciado, torturado, humilhado, bestializado, tudo isto sem um interrogatório formal, sem culpa formada, sem julgamento. E tudo continua como se nada tivesse acontecido. Alguma coisa continua a estar mal, porque há, de facto, uma força que continua a impedir o conhecimento da verdade. Mas, até quando? Eis a questão.

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