ZOOM DA TUNDAVALA

Algumas das nossas cidades viram ser-lhes atribuídas denominações pelas quais se tornaram conhecidas no país e além-fronteiras.
A memória transporta-nos, por exemplo, para a cidade do Huambo, carinhosamente chamada “Huambo-Cidade Vida”, nome muito ligado ao Carlos Pereira, nas vestes de Director do então Emissor Regional do Huambo da RNA, aí para os finais dos anos 70. Nome que “pegou”, e que faz recordar que, apesar dos tempos difíceis que se viviam naquela altura, com bombas a rebentar a torto e a direito, e um recolher obrigatório severo, a cidade do Huambo tinha vida. Era a “Cidade Vida”.
Benguela, conhecida também por ser a cidade “das Acácias Rubras”, já se quis que fosse “Califórnia” mas, um destes dias, uma tragédia enterrou o sonho e, certamente, continuará a ser “das Acácias”, porque são rubras e… mudas.
Lubango, viria a ganhar a denominação de “Cidade do Conhecimento”, reza a lenda, em 2007. Este título está, inegavelmente, muito ligado às fortes tradições académicas que remontam aos tempos do Liceu Diogo Cão, berço do “Reino de Maconge”, um Reino de Fantasia, de Sonho, de Fraternidade, fundado em 1939. Reino que une, principalmente, antigos estudantes do Liceu, da Escola de Regentes Agrícolas do Tchivinguiro — Dr. Francisco Vieira Machado, e da Escola Industrial e Comercial Artur de Paiva.
O conhecimento, a história e, as praxes e tradições académicas, fortemente enraizados na cidade, fazem com que o Reino, que é de Maconge, tenha na cidade o seu berço, e seja um Reino sem fronteiras, sem limites geográficos. Porque Maconge é Reino onde existir um macongino.
A forte e longeva tradição académica da cidade, aliada à maior presença de instituições de ensino, principalmente superior, na actualidade, contribuíram para que o Lubango viesse a receber tão pomposa denominação, que dá mesmo as boas-vindas aos visitantes, através de painéis colocados estrategicamente nas entradas da cidade, alguns desafortunadamente sumidos e nunca mais repostos.
A cidade é “do Conhecimento” que não é só academia, praxes e tradições académicas. Conhecimento é cultura, é arte. É música, dança, teatro… e a poesia. Conhecimento, como acto ou efeito de conhecer, é a “apropriação intelectual de um objecto, de uma técnica, de um facto ou de uma verdade, através da razão, da experiência ou da intuição”. O conhecimento não se obtém apenas nas escolas e nas universidades: conhecimento científico. Ele é obtido também no dia a dia, através da experiência directa dos diferentes intervenientes, e até de tentativas e erros. É passado de geração em geração: conhecimento empírico. O conhecimento está na relação directa entre o sujeito que conhece e o objecto conhecido.
A arte, a cultura, o teatro, a dança e a música não só se relacionam com o conhecimento, como são formas vitais de produção, preservação e transmissão de conhecimento que a humanidade utiliza desde antes da invenção da escrita.
Não é objectivo, nesta apreciação, promover qualquer conferência para discutir isto, do conhecimento. É, sim, propósito “levantar a lebre”, trazer para o espaço do debate, o estado em que se encontra a cidade, um dia batizada “do Conhecimento”, sem que tenha de ser numa sala fechada, com ar condicionado e apetrechada de suas excelências.
A ideia é, trazer a lume, o reconhecimento de que a cidade já deve ter conhecido melhores dias, que o conhecimento já andou mais solto, mais criativo. Já se viram mais manifestações das artes, da cultura e até da música, que não deve ser confundida com as “maratonas” musicais sempre bem regadas com muito álcool e recheadas com outros ingredientes para a satisfação de outros apetites. Não se sabe se faltam iniciativas, se arrefeceram os ânimos… Ou se não há tanto “conhecimento” assim.
Facto é, que há aspectos do conhecimento que, na “Cidade do Conhecimento” devem merecer mais atenção e, além do espaço que deve ter reservado a essas iniciativas, no sentido das oportunidades que lhes devem ser dadas, são necessários espaços físicos onde se possa fazer acontecer as artes, a cultura, nas suas mais variadas expressões e manifestações.
A cidade, que se diz “do Conhecimento” está desprovida de espaços, lugares, onde se possam exibir os artistas, os mestres das artes. Não quer dizer que não existam, mas são manifestamente insuficientes. E nem sempre o lugar, ou a forma como se realizam são os mais apropriados ou indicados. Aos mais atentos não escapa, e por isso não os deixa indiferentes, o estado de abandono em que se encontram o Cine Teatro ODEON e o Cine Teatro ARCO ÍRIS, sem dúvida alguma, dois lugares onde as artes, a cultura, a música, o conhecimento, podiam acontecer, não só com maior frequência, como serviriam um público mais alargado.
É certo que esses espaços têm donos. Ambos seguiram caminhos diferentes depois de terem deixado as “saias do Estado” que continua a lavar as mãos e faz de conta que nada disso é com ele. O ODEON chegou a ser igreja mas, nem o “Reino de Deus” o safa. O Arco Íris, a maior sala de espetáculos da cidade, aguarda silenciosamente pelo prometido restauro, enquanto na sua fachada ainda se pede aos lubanguenses que fiquem em casa, a lembrar que poderá haver outras pandemias.
E há também a “Tourada”, lugar mítico das Festas da Senhora do Monte onde se realizavam as “pegas” de touros e se faziam umas garraiadas que, um dia, num tempo perdido no tempo, alguém se lembrou que podia ser convertido num espaço para a realização de espetáculos, para a promoção da cultura. Afinal, do conhecimento, que outros entenderam deixar o recinto aos cuidados de uma instituição qualquer que preferiu não lhe mexer. E, hoje, apenas está lá, sem qualquer serventia, abandonada, mas sob a tutela de alguém, de algum ente público. Não se faz, nem se deixa fazer…
A “Cidade do Conhecimento” precisa de acordar da letargia em que se encontram as artes, a cultura, as letras, a música, o teatro, como partes importantes do conhecimento. É imperativo que o interesse público prevaleça e envolva todos os actores interessados na preservação e valorização da denominação que lhe foi atribuída.
A “Cidade do Conhecimento” não é fantasia… só Maconge!











