DO BRASIL À BANDA: QUANDO A LÍNGUA FAZ CAMPANHA CONTRA O PRÓPRIO DONO!

CARLOS GOMES NGONDI SUCAMI*

Na política, môrmão, há quem pense que ter garganta de leão é ter inteligência política. Há quem confunda arrogância com autoridade, insulto com argumento e barulho com popularidade. Mas o recente confronto brasileiro deixou uma lição que merece ser estudada pelos nossos kotas da política: às vezes, a língua entra no debate como reforço e sai de lá como o principal problema da campanha!

No debate televisivo que antecedeu a segunda volta das eleições gerais no Brasil, o puto Flávio Bolsonaro resolveu brincar com a história dos “nove dedos” do kota Luiz Inácio Lula da Silva. Só que a brincadeira saiu cara. Lula mostrou a mão, recordou o acidente de trabalho que lhe custou um dedo aos 17 anos e evocou a sua condição de operário. O jovem tigre quis fazer humor com uma deficiência física, mas acabou metido numa situação em que teve de pedir desculpas.

O ‘macaco velho’ Lula, com muitos quilómetros de estrada política, percebeu que aquela mão tinha uma história para contar: suor, sacrifício, trabalho e sobrevivência. Não precisou de contratar uma agência de publicidade para fabricar uma lágrima. A própria história entrou no estúdio, sentou-se na plateia e pediu a palavra!

E o resultado eleitoral confirmou que a campanha ainda não estava arrumada. Depois de ficar em segundo lugar na primeira volta, Lula conseguiu inverter o resultado, vencer a segunda volta e conquistar um quarto mandato. Flávio, que chegou à segunda volta em vantagem, acabou por conhecer o outro lado da contagem. O jovem tigre tinha força, mas o ‘macaco velho’ ainda conhecia alguns caminhos da floresta!

Agora, môrmão, vamos trazer o filme para a nossa banda, porque Angola também tem os seus nove dedos, as suas mãos calejadas e os seus tigres de campanha!

O partido da situação e o Executivo actual têm realizações para apresentar. Há obras, infra-estruturas, estradas, escolas, hospitais, projectos e outros investimentos que fazem parte do balanço da governação. São dedos que o poder pode levantar para mostrar o trabalho realizado. E não seria justo fingir que nada foi feito só porque estamos em época de crítica política.

Mas atenção, camaradas! Se Lula mostrou o dedo que perdeu como testemunho de uma vida de trabalho, o Executivo também deve saber mostrar os dedos que tem, sem esconder a mão inteira! Porque as realizações são importantes, mas não podem servir de luva para esconder as dificuldades que continuam a apertar a vida do cidadão.

O Executivo não pode transformar cada crítica numa tentativa de desvalorizar o seu trabalho. Nem toda a crítica é perseguição política, nem todo o crítico é inimigo da pátria. Às vezes, môrmão, quem aponta o buraco está simplesmente a pedir que alguém mande tapar o buraco!

E a oposição? Também precisa de ir à escola do controlo emocional!

Denunciar problemas, fiscalizar a governação e questionar as realizações do Executivo fazem parte do jogo democrático. Mas há quem confunda fiscalização com insultoterapia, denúncia com provocação e contundência com arrogância. Alguns entram no debate com tantas pedras nas mãos que se esquecem de levar propostas no bolso!

Querem governar, mas às vezes parecem estar mais interessados em provar que o adversário não presta, do que demonstrar que eles próprios estão preparados para fazer melhor. É muito “fora o outro”, “abaixo aquele” e “ninguém presta”! Mas, quando chega a pergunta sobre como resolver o problema da água, do emprego, da saúde ou da educação, começa o silêncio administrativo!

A oposição deve perceber que denunciar não é necessariamente convencer. O cidadão quer saber o que está mal, mas também quer conhecer a alternativa. Não basta mostrar os dedos feridos do país; é preciso explicar como pretende curar as feridas!

E aqui está a grande ironia da nossa banda: “a situação usa, por vezes, a arrogância das realizações para ofuscar os adversários; a oposição usa, por vezes, a arrogância das denúncias para desvalorizar tudo o que foi feito.” Um lado apresenta os seus troféus como se fossem resposta para todos os problemas; o outro apresenta os problemas como se não existisse uma única realização digna de reconhecimento.

No meio dessa disputa de egos, está o cidadão, que não come discursos, não bebe conferências de imprensa e não paga a renda com comunicados políticos!

Mas a lição do Brasil vai muito além de uma mão e de um dedo perdido. Lula mostrou que a comunicação política exige memória, capacidade de resposta, domínio emocional e conhecimento da própria história. Flávio mostrou, pelo episódio, como uma provocação pessoal pode obrigar um candidato a gastar tempo precioso a pedir desculpas.

E há outra lição: o macaco velho não deve desprezar o jovem tigre, nem o jovem tigre deve imaginar que a força dos seus rugidos substitui a experiência. Na floresta política, quem passa o tempo a mostrar os dentes pode acabar por não conseguir mostrar os argumentos!

Por isso, meus kambas da situação e da oposição, façam o vosso TPC!

Ao partido da situação: não deixem que as realizações vos subam à cabeça. Uma obra inaugurada não é um salvo-conduto para a arrogância. Governar também é ouvir, reconhecer insuficiências e corrigir o que não está bem.

À oposição: não deixem que a indignação vos roube a inteligência política. Criticar não é insultar, denunciar não é humilhar e gritar mais alto não significa ter melhores soluções.

Angola precisa de uma disputa política em que as realizações sejam reconhecidas, as insuficiências discutidas e as alternativas apresentadas. O eleitor de 2027 não deve ser tratado como figurante de um espectáculo eleitoral, mas como o verdadeiro protagonista da decisão.

Moral da história: Lula mostrou a mão que perdeu, mas também a história que construiu. Flávio aprendeu que uma provocação pode transformar-se numa factura política. E os nossos políticos devem perceber que os dedos das realizações não dispensam os dedos das responsabilidades!

Porque, na banda, não basta ter cinco dedos para apontar o adversário. É preciso ter mãos para trabalhar, cabeça para pensar e língua para comunicar!

E, môrmão, guarde bem esta última lição: “quem usa a arrogância para esconder os problemas e quem usa os insultos para denunciar os problemas podem acabar ambos a descobrir que a urna não tem botão de replay!”

A boca pode prometer o céu, o comício pode levantar poeira e o microfone pode amplificar a garganta. Mas, no dia da votação, o eleitor entra sozinho na cabine.

E, na lógica do avô Ernesto João Ngola Catembua, aprendi o seguinte: “A urna não come jinguba, não bebe kissângua e não se deixa embalar pelo som do tambor!”

Porém, enquanto o santo da casa não faz milagres, eu digo que os nove dedos do Lula, fizeram um milagre no Brasil. Que o diga Flávio Bolsonaro! 

Bom final de semana, môrmão! 

*Menga-Ma-Kimfumu

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