
Durante décadas, as universidades africanas trataram a agricultura como sector residual, enquanto os melhores alunos eram encaminhados para direito, medicina e gestão. É preciso inverter esta hierarquia simbólica: a produção de alimentos é uma prioridade estratégica, não uma actividade de segunda.
Currículos para a soberania
Onde e como formar os quadros do desenvolvimento?
A pergunta não é apenas pedagógica: é política. Um país que não forma os seus próprios quadros em função dos seus próprios objectivos de desenvolvimento, continuará a importar não só tecnologia e bens básicos, mas também a maneira de pensar o desenvolvimento. A criação de currículos alinhados com a soberania, a auto-suficiência alimentar, a industrialização séria, a geração de emprego e um sistema fiscal justo é, por isso, uma peça central (e não acessória) da estratégia descrita anteriormente.
O problema coloca-se em três níveis: onde enquadrar institucionalmente estes currículos, como estruturá-los e quem os deve conceber e controlar.
1. Onde enquadrar os três níveis institucionais?
a) No sistema de ensino técnico-profissional e politécnico. É aqui que a ligação ao aparelho produtivo é mais directa. A transformação local de recursos exige quadros intermédios: técnicos de refinação, metalurgia, química industrial, manutenção, gestão de cadeias de valor, controlo de qualidade. A agricultura de regadio e a produção de fertilizantes exigem técnicos de agronomia, especialistas em solos, irrigação e extensão rural. Estes currículos devem ser desenhados com as empresas e os ministérios sectoriais, não apenas pelo Ministério da Educação (e se algum destes tipos de ensino estiver dependente do ensino superior, que a dependência a este se concretize). A dupla formação (alternância entre escola e empresa), inspirada no modelo alemão, ou a criação de um próprio, mas sempre adaptada às realidades locais, deve ser o instrumento utilizado.
b) Nas universidades, mas reorganizadas em torno de problemas locais e não de disciplinas. As universidades africanas herdaram a estrutura departamental colonial, compartimentada e virada para a reprodução de elites administrativas. Uma universidade orientada para o desenvolvimento deve organizar-se em centros de problemas: um centro de política industrial e cadeias de valor, um centro de soberania alimentar e sistemas agrários, um centro de fiscalidade e administração tributária, um centro de recursos naturais e negociação de contratos. Isto não elimina as disciplinas. Integra-as. A economia, o direito, a engenharia, a agronomia e a sociologia convergem num objecto concreto.
c) Na formação de quadros do Estado. A negociação de contratos de recursos, a fiscalidade mineira e petrolífera, a regulação de preços de transferência, a gestão de fundos soberanos e a administração aduaneira são competências especializadas que não se adquirem numa licenciatura genérica. Escolas de administração pública e de finanças, ou institutos autónomos de formação tributária, devem oferecer formação contínua e certificada aos funcionários que efectivamente exercem estas funções. O Quénia, o Uganda e a Guiné mencionados anteriormente precisam de negociadores formados, não de consultores externos.
2. Como estruturar?
Princípios curriculares
Primeiro, o currículo deve ser construído a partir dos objectivos de desenvolvimento nacional, e não a partir da oferta disponível de professores e manuais. Isto implica um exercício prévio de definição de prioridades sectoriais, que é, em si, um acto de soberania.
Segundo, a formação em soberania técnica exige literacia económica e jurídica básica generalizada. Um país não negoceia contratos de recursos nem constrói um sistema fiscal justo se a sua elite política e administrativa não compreende preços de transferência, royalties, depreciação acelerada, estabilização fiscal e cláusulas de arbitragem. Estes conteúdos devem estar presentes não só nos cursos de economia e direito, mas na formação de todos os quadros superiores do Estado.
Terceiro, a auto-suficiência alimentar exige reintroduzir a agronomia e a economia rural no centro do currículo, e não na periferia. Durante décadas, as universidades africanas trataram a agricultura como sector residual, enquanto os melhores alunos eram encaminhados para direito, medicina e gestão. É preciso inverter esta hierarquia simbólica: a produção de alimentos é uma prioridade estratégica, não uma actividade de segunda.
Quarto, a industrialização séria exige engenharia e ciências aplicadas em escala. A Coreia do Sul formou, nas décadas de 1960 e 1970, um número massivo de engenheiros, muitos deles com formação no estrangeiro mas com vínculo de retorno obrigatório ou incentivado. África forma hoje poucos engenheiros por habitante e perde muitos dos que forma. O currículo deve incluir mecanismos de retenção e de retorno, e as universidades devem ter laboratórios e oficinas, não apenas salas de aula.
Quinto, o sistema fiscal justo exige formação em administração tributária e em economia pública aplicada. Um imposto sobre o rendimento que não é cobrado, uma tributação indirecta regressiva que penaliza os pobres, uma renúncia fiscal concedida a multinacionais sem contrapartida, tudo isto são falhas de concepção e de execução que se corrigem com quadros formados, e não apenas com leis.
3. Quem concebe e controla?
a questão da soberania curricular
O ponto mais delicado é o controlo. Durante décadas, os currículos africanos foram desenhados com financiamento e assessoria de instituições externas (Banco Mundial, agências de cooperação bilateral, fundações privadas, etc.) que transportavam consigo modelos importados: a primazia da educação primária sobre a técnico-profissional, a ênfase em “competências para o mercado de trabalho” definidas por empregadores estrangeiros, a avaliação por indicadores internacionais.
Isto não significa rejeitar toda a cooperação externa. Significa que a definição das prioridades curriculares deve ser um acto nacional, submetido a debate público e a escrutínio parlamentar, e não o resultado de uma negociação entre ministérios e doadores. As comissões nacionais de currículo devem incluir representantes dos sectores produtivos, dos sindicatos, das associações de agricultores e das universidades. E devem publicar as suas deliberações.
Há também uma dimensão regional. A Área de Comércio Livre Continental Africana cria um mercado continental que exige reconhecimento mútuo de qualificações e currículos mínimos comuns em áreas estratégicas. Uma rede de universidades e politécnicos africanos, com currículos partilhados em engenharia de processos, agronomia tropical, fiscalidade mineira e gestão de cadeias de valor, reduziria a dependência de programas externos e criaria massa crítica continental.
4. O currículo como infra-estrutura da soberania
A criação de currículos alinhados com os desafios descritos não é uma reforma educativa entre outras. É a infra-estrutura da soberania, tão essencial como as estradas, a energia ou as refinarias. Um país que não forma os seus próprios negociadores de contratos, os seus próprios engenheiros de processos, os seus próprios agrónomos e os seus próprios fiscalistas, de acordo com as condições locais, continuará dependente de quem os forme, e essa dependência traduz-se, como se viu, em perda de valor, corrupção, contratos desfavoráveis e políticas de desenvolvimento importadas.
O enquadramento deve ser triplo: técnico-profissional, universitário reorganizado por problemas, e formação de quadros do Estado. Os princípios devem ser a primazia dos objectivos nacionais, a literacia económica e jurídica generalizada, a centralidade da agricultura e da engenharia, e o controlo nacional e regional da concepção curricular. Sem isto, as políticas de transformação local, de soberania alimentar e de fiscalidade justa ficam sem os quadros que as executem e, como a história do ajustamento estrutural demonstra, as políticas sem quadros acabam por ser escritas por quem empresta o dinheiro.
NOTA: em anexo, um exemplo de indicações curriculares para um curso superior.
Fontes com correspondência
- UNECA, Report to the conference of ministers responsible for human resources planning development and utilization on the progress, status and effectiveness of staff development training programmes in Africa, Dezembro de 1987.
- UNECA, Co-operation and co-ordination activities and programmes in the field of human resources development, Abril de 1983.
- UNECA, Manpower and training: national machinery for manpower planning and administration of training, Julho de 1965.
- Zenodo, STRATEGIES FOR IMPROVING AGRICULTURAL TECHNOLOGY EDUCATION TOWARDS GLOBAL FOOD SECURITY AND SELF SUFFICIENCY, 22 de Setembro de 2026.
- Tese de doutoramento da Universidade de Salamanca (GREDOS), discussão sobre o legado do sistema educativo colonial em África. O documento assinala que, após a independência, os doadores externos financiaram a criação de universidades, mas o currículo e a orientação pedagógica continuaram a ser influenciados externamente.
- Oxford Academic (livro), discussão sobre o “desenvolvimento da universidade” e o currículo jurídico em África no período pós-independência.
- University World News, The case for developmental universities, 29 de Outubro de 2015. Cita a definição de Judith Sutz (2006) sobre “universidade do desenvolvimento”: as universidades dos países em desenvolvimento necessitam de se transformar em “universidades do desenvolvimento”, através da produção e distribuição de conhecimento para aumentar a sua contribuição para o desenvolvimento; mas isto exige que a indústria e o governo assumam novas responsabilidades. O artigo também cita o discurso de Nkrumah em 1956, defendendo que as universidades devem “criar raízes nas tradições e culturas africanas”.
- Sun Scholar (tese), discussão sobre a “Declaração de Acra” de 1972 e o conceito de “universidade do desenvolvimento”.
- União Africana, Continental TVET Strategy 2025–2034, apresentada em 14 de Outubro de 2025.
- Banco Mundial, Africa’s Pulse No.31, Abril de 2025 (citado pela Ecofin Agency).
- UNESCO, The Contribution of Higher Education to the Education System as a Whole(documento antigo).
ANEXO
Um exemplo:
Para o currículo do curso de Medicina
O currículo médico tradicional, com origem a ocidente, herdeiro do modelo flexneriano[1], tende a ser fragmentado, hospitalocêntrico e orientado para a doença, o que cria um terreno fértil para a mercantilização do medicamento e para a lógica de consumo da indústria. Organizar um curso que coloque a prevenção e a nutrição no centro exige uma reforma estrutural, não apenas a adição de uma disciplina. A abordagem que se segue procura contrariar essa visão comercial, organizando o currículo em eixos transversais e longitudinais.
Eixo 1: Fundamentos críticos e epistemológicos
Antes de ensinar a “fazer”, é preciso desconstruir o paradigma vigente. Este eixo deve atravessar todo o curso, especialmente nos dois primeiros anos.
- Saúde como construção social: introduzir desde o início a crítica à mercantilização do medicamento como tecnologia de controlo social e à “indústria da doença”. Discutir como o complexo médico-industrial transforma problemas estruturais (como a solidão ou a precariedade) em patologias individuais a serem medicadas.
- Educação médica crítica: adoptar uma pedagogia que forme médicos como agentes de mudança, capazes de reconhecer quando a intervenção mais benéfica não é um fármaco, mas sim uma alteração no ambiente, na alimentação ou nas condições de vida.
Eixo 2: Nutrição e medicina do estilo de vida (Integração Vertical)
Em vez de uma opção isolada, a nutrição e os pilares do estilo de vida devem ser integrados verticalmente ao longo dos 4 (ou 6) anos, correlacionando-se com os sistemas orgânicos.
- Domínios da nutrição: cobrir de forma faseada a nutrição básica (bioquímica), a nutrição aplicada/saúde pública (padrões alimentares fundamentais) e a nutrição clínica (terapêutica), seguindo referenciais de competências como os da Sociedade Europeia de Nutrição Clínica e Metabolismo (ESPEN).
- Pilares do Lifestyle Medicine: incluir nutrição, actividade física, sono, gestão de stress, relações sociais e exposição ambiental como conteúdo fundamental e não electivo.
- Competências práticas: introduzir “Culinary Medicine” e cozinhas de ensino, onde os estudantes aprendem a preparar refeições saudáveis e a aconselhar doentes com base em evidências (ex.: padrão mediterrânico).
Eixo 3: Saúde Pública e determinantes sociais
A prevenção só faz sentido se ancorada na realidade da comunidade. O currículo deve ter uma integração horizontal com saúde pública, nutrição comunitária e outras profissões.
- Determinantes estruturais: ensinar a avaliar e intervir sobre as determinantes sociais da saúde (pobreza, habitação, acesso a alimentos), em parceria com a comunidade e não apenas no hospital.
- Abordagem biopsicossocial: superar o modelo puramente biomédico, capacitando o futuro médico a compreender a doença como resultado da interacção entre biologia, psicologia e contexto social.
Eixo 4: Competências de aconselhamento e mudança de comportamento
Saber o que é saudável não basta; é preciso saber como ajudar o doente a mudar. Este eixo deve ser treinado em role-plays e estágios clínicos.
- Entrevista motivacional: treinar modelos de mudança de comportamento aplicados à alimentação e actividade física.
- Trabalho interprofissional: aprender a articular o cuidado com nutricionistas, psicólogos e assistentes sociais, reconhecendo que o médico não é um “super-homem” isolado.
Eixo 5: Avaliação por competências (e não por horas)
Para evitar a captura comercial, a avaliação não deve medir “horas de aula”, mas sim competências observáveis no cuidado preventivo.
Portfólios e OSCE: o Objective Structured Clinical Examination ou Exame Clínico Objectivo e Estruturado serve para avaliar se o estudante consegue, numa consulta simulada, identificar determinantes sociais, negociar um plano alimentar realista e evitar uma prescrição desnecessária.
- Mapeamento curricular: garantir que os objectivos de nutrição e prevenção estejam explicitamente mapeados e avaliados em todos os anos, e não apenas “presentes” de forma implícita.
Em suma, a organização curricular que contraria a visão comercial desloca o epicentro do hospital para a comunidade, da doença para o cuidado ao longo da vida e do medicamento para a alimentação e o contexto social. A nutrição deixa de ser um apêndice para se tornar a linguagem transversal que liga a bioquímica à saúde pública e à clínica.
O texto que preparei é uma síntese de argumentação e não um artigo académico com citações formais. Por isso, não tem uma lista de referências própria. Entretanto, os conceitos e orientações apresentados assentam em literatura consolidada. Abaixo, um conjunto de referências fundamentais que sustentam cada um dos eixos discutidos.
Crítica ao Modelo Flexneriano e Medicalização
A discussão sobre o currículo fragmentado e hospitalocêntrico remete para a crítica ao Relatório Flexner (1910) e ao fenómeno da mercantilização do medicamento:
- Flexner, A. (1910). Medical Education in the United States and Canada. Carnegie Foundation. O documento original que estruturou o ensino médico ocidental no século XX, priorizando o hospital e a doença.
- Illich, I. (1975). Medical Nemesis: The Expropriation of Health. Uma crítica clássica à iatrogenia[2] e à mercantilização do medicamento na vida dos cidadãos.
- Conrad, P. (2007). The Medicalization of Society. Analisa como condições não médicas passam a ser tratadas como doenças.
Nutrição e Lifestyle Medicine no Currículo
A integração vertical da nutrição e dos pilares do estilo de vida é defendida por organismos como a ESPEN e a ACLM:
- ESPEN (European Society for Clinical Nutrition and Metabolism). O projecto NEMS (Nutrition Education in Medical Schools) defende que a nutrição seja obrigatória em três domínios: básica, saúde pública e clínica.
- American College of Lifestyle Medicine (ACLM). As Competências Nucleares de Lifestyle Medicine (actualizadas em 2025) definem as habilidades essenciais, incluindo a competência para actuar sobre as determinantes sociais da saúde (SDOH).
Culinary Medicine e Competências Práticas
A literatura sobre Culinary Medicine demonstra o impacto de intervenções práticas na formação médica:
- Harris, S. R., et al. (2025). “Culinary medicine in medical education: a pilot study…”. Frontiers in Nutrition. Estudo que avalia a melhoria de conhecimentos e autoconfiança de estudantes em aconselhamento dietético após sessões práticas de culinária.
Determinantes Sociais e Saúde Pública
A necessidade de reorientar o currículo para o contexto social é amplamente defendida:
- Collins, T. E., et al. (2019). “Medical education must change if we are to tackle the causes of non-communicable diseases”. The BMJ. Argumenta que os currículos tradicionais, focados na doença, não preparam os médicos para abordar as determinantes sociais das doenças crónicas.
Entrevista Motivacional e Aconselhamento
A formação em competências de comunicação para a mudança de comportamento é suportada por evidência:
- Bradley, A., et al. (2022). “Let’s talk about diet – Nutrition skills in medical education”. Medical Education. Descreve uma intervenção que integra a Entrevista Motivacional (MI) e simulações com pacientes para melhorar a confiança dos estudantes no aconselhamento nutricional.
Pedagogia Crítica e Educação Médica
Para uma formação que desenvolva o pensamento crítico, a pedagogia de Paulo Freire é uma referência central:
- Freire, P. (1970). Pedagogia do Oprimido. A sua crítica ao “conceito bancário” de educação e a defesa de uma pedagogia de emancipação são aplicadas à educação médica em vários artigos.
[1] Modelo de educação médica baseado no Relatório Flexner de 1910, com orientação curativa, individualista e centrado na doença.
[2] Qualquer alteração patológica, dano ou efeito adverso provocado na saúde de um paciente como resultado de uma intervenção médica, mesmo quando o tratamento é indicado, correcto e necessário.










