
O terceiro mandato presidencial de Lula da Silva produziu uma antinomia incontestável, que afectou, tanto a sua aceitação interna, quanto o apoio internacional junto de sectores da esquerda anti-imperialista dentro e fora do Brasil.
Se, por um lado, a adesão a uma coligação com grupos políticos de direita e a deriva traduzida por algumas medidas económicas e fiscais do seu governo geraram insatisfação, inclusive no seio da sua própria base eleitoral, por outro, posições na esfera internacional, com destaque para sucessivos actos de ingerência contra a soberania de instituições venezuelanas e a traição a Nicolas Maduro, conduziram à perda de apoio e prestígio internacional de Lula da Silva.
Os argumentos sobre os referidos antecedentes estão devidamente fundamentados no artigo sobre “A apostasia de Lula da Silva e os traidores na esquerda latino-americana”. A compreensão do contexto político anterior às eleições é fundamental para o esclarecimento dos diversos factores explícitos e implícitos dos resultados eleitorais de 2026.
Lula da Silva partiu para a 1ª volta do pleito eleitoral numa atmosfera de quase total desconexão com as bases, total desorganização e praticamente sem uma campanha eleitoral no sentido clássico do termo, à qual é possível associar a apatia da população (pelas razões já afloradas) e uma fraquíssima presença nas redes sociais, espaço até então dominado pela extrema-direita. O resultado foi uma não-surpresa, da qual não deve ser dissociada a ingerência de factores externos, tais como os tentáculos dos EUA sob a égide do trumpismo, Israel e as big thecs, no quadro do que tem sido constatado em toda a América-Latina e tal como foi denunciado pelo caso Hondurasgate.
A imaturidade do ódio e o paradoxo da ameaça
O resultado da 1ª volta das eleições revelaram, num primeiro plano, um fenómeno digno de caso de estudo. Flávio Bolsonaro que, ao contrário de Lula da Silva, não possui história, muito menos obra feita no cenário político brasileiro, foi, por uma combinação de factores, considerado vencedor com 47,03% dos votos, contra 45,16% atribuídos ao petista. Numa reacção oposta ao que seria expectável de um candidato que pretende garantir votos para a conquista efectiva da presidência da república, o representante do PL celebrou a vitória na primeira volta, ameaçando alterar a constituição, proceder a uma série de cortes no financiamento de sectores sociais (que apelidou de tesouraço), e prometeu “não cometer os mesmos erros” cometidos pelo seu pai, quando este esteve na presidência.
As ameaças proferidas por Flávio Bolsonaro, candidato que até recentemente transbordava de convicção duma vitória incontornável na segunda volta, como que já prometendo vingança contra tudo que representa medidas governativas de apoio social, resultou, quer a nível da base eleitoral do PT, quer em sectores indecisos e outros, que mesmo não sendo eleitores de esquerda, optassem por decisões racionais e por um envolvimento mais activo, directo e massivo na campanha eleitoral a favor de Lula da Silva.
Se, por um lado, as decisões políticas tomadas por Lula ao longo do terceiro mandato foram consideradas prejudiciais por muitos cidadãos brasileiros, dentro e fora do espectro da esquerda, por outro, a larga maioria dos brasileiros tem consciência do quão trágico será para o país uma vitória de Flávio Bolsonaro.
É dado assente, que o resultado da primeira volta emitiu para dentro da esquerda e do PT o choque de realidade necessário, para que saíssem das respectivas zonas de conforto e disputassem a eleição no terreno até então dominado pela extrema-direita – as redes sociais. É visível o apelo ao voto a favor de Lula da Silva, vindo inclusive de individualidades da esquerda, que sempre foram críticas das derivas ideológicas protagonizadas pelo petista. De igual modo, o cálculo político de certos sectores da direita moderada, antagónicos ao bolsonarismo, tem optado por uma preferência à vitória de Lula.
O Dilema do Prisioneiro
Muito provavelmente, como resultado da típica arrogância da extrema-direita, imaturidade política de Flávio Bolsonaro, ou a plena confiança numa infalibilidade da acção de factores extra-eleitorais de incidência externa (interferência dos EUA e de Israel), o discurso adoptado após o anúncio do resultado da primeira volta foi, simultaneamente, o maior desastre cometido por Flávio e revelador do quanto Lula da Silva e a sociedade brasileira se defrontam com o Dilema do ‘Prisioneiro’.
No caso de ascensão de Flávio Bolsonaro à Presidência da República, as consequências não se restringirão apenas à eliminação de conquistas sociais que têm beneficiado milhares de famílias desfavorecidas, ou ao retrocesso que representará a reintrodução da cultura do ódio como política de governo (como foi durante o regime de Bolsonaro, o pai). Uma vitória eleitoral de Flávio Bolsonaro pressupõe, fundamentalmente, a alienação definitiva do Brasil às mãos do império sob a égide do trumpismo sionista. A imensa reserva de terras raras e toda a infinidade de recursos abundantes no Brasil é a moeda com a qual Flávio pretende comprar a soltura do pai e um cargo de presidente vassalo, que administraria o maior país da América-Latina, sob as ordens de Washington e Telavive.
Então, sem coordenação do PT ou da equipa de campanha de Lula da Silva, a população brasileira reagiu. Diversos sectores inorgânicos da sociedade brasileira têm inundado ruas e praças em todo o país. André Janones, político do partido Rede, protagonizou o feito histórico de reunir no grupo de WhatsApp “Exército do Lula”, mais de 5 milhões de pessoas em menos de uma semana.
O crescimento vertiginoso da campanha a favor de Lula nas redes sociais (em proporções sem precedentes), assim como o regresso da esquerda ao seu campo de batalha por excelência – as ruas ‒ ao que se somam forças não-esquerdistas e sectores da política inorgânica, criaram condições reais para a reversão da tendência de voto.
Uma população entre a soberania e a neo-servidão
A pesquisa da BTG/Nexus, sobre as intenções de voto na segunda volta, divulgada a 19 de Outubro, aponta Flávio Bolsonaro com 46,5%, ao passo que Lula da Silva reuniu 45,9%, representando uma redução de 0,6% da diferença percentual nas intenções de voto, comparando com os 2,8% da pesquisa de 13 de Outubro, reflectindo um empate técnico a cinco dias das eleições.
A eleição no Brasil, de domingo, 25 de Outubro, vai além de uma escolha entre Flávio Bolsonaro e Lula da Silva. Trata-se de uma luta entre a preservação da soberania do Brasil e a sua ocupação efectiva pelo império do Norte.
As manifestações de apoio a Lula, por todo Brasil, e o engajamento histórico nas redes sociais são importantes. Porém, por si só, não determinam a vitória eleitoral, assim como os resultados das sondagens não traduzem verdade absoluta. Por outro lado, o trumpismo sionista é determinado e tem diversas ferramentas de subversão a seu favor. Argentina, Chile, Colômbia, Equador, Honduras e Bolívia tombaram às mãos da extrema-direita vende-pátria.
Uma votação massiva da população brasileira poderá desintegrar os estratagemas da interferência externa nas eleições e permitir a reviravolta vitoriosa de Lula. Contudo, caso Lula da Silva vença, terá um mandato presidencial com o Senado e a Câmara dos Deputados dominados pela extrema-direita bolsonarista, ávida de deflagrar o caos e a ingovernabilidade no que seria o último mandato presidencial de Lula.
Porém, caso Lula da Silva perca na segunda volta e o Brasil tombe novamente nas mãos de entreguistas a soldo do império, então, o resquício de autodeterminação na América-latina entrará definitivamente na idade das trevas.
*Analista de Relações Internacionais e Doutor em Estudos Globais










