
– CONVERSA NA MULEMBA
O desenvolvimento do turismo, afinal, padece das mesmas doenças que afectam o desenvolvimento do País. Desaproveitamento das capacidades humanas, por razões de política partidária, que resulta na constante degradação das instituições públicas.
O Executivo angolano instituiu, há anos, as pontes. Definiu tolerâncias de ponto ao longo de cada ano para os dias em que, caso calhassem a uma quinta-feira depois de um feriado, ou a uma segunda-feira anterior a outro feriado, permitissem aos angolanos um período de descanso de quatro dias seguidos. Essas tolerâncias são compensadas com algumas horas de trabalho extra, cumpridas durante as semanas anteriores. O objectivo é permitir o fomento do turismo interno e um maior conhecimento das realidades e das belezas do país.
Raras têm sido as medidas governamentais com tanta aprovação popular como esta. Os angolanos adoram viajar. Do mesmo modo que arranjam dinheiro para bate-portas e pedidos e consequentes festas de casamento, mesmo recebendo salários de miséria, também se desenrascam para as passagens e outras despesas. A TPA está sempre presente para divulgar a grande satisfação de quem desfruta do prolongado.
A medida satisfaz quem vai para o Mussulo, onde o desperdício gastronómico e o consumo compulsivo de álcool estão sempre presentes. Faz as delícias de quem aproveita para fazer cruzeiros de luxo, para participar num casamento em Singapura ou em Londres ou para realizar uma festa, numa fazenda, a propósito do primeiro aniversário de um filho, com centenas de convidados da elite angolana ou vindos de Portugal… todos viajando em jactos disponibilizados pelo endinheirado. Viva o petróleo, depois da seca que vinha desde 2014. Com a ajuda desinteressada do senhor Trump a engordar o orçamento.
O prolongado permite perceber que, apesar dos persistentes muros levantados pelos gestores do Estado na sua arte de mal governar, a sociedade vai costurando os fatos que lhe permite dar a volta por cima, ou seja, que lhe permite ser resiliente, como agora se diz. Vão aparecendo ofertas na restauração mais ao alcance de quem se encontra longe dos círculos que vivem à sombra do rentismo. Ouve-se falar de projectos turísticos que, se forem por diante, e apesar de direccionados para as elites, podem dinamizar certos nichos do mercado. E gerar empregos, permitindo o desenvolvimento de habilidades e capacidades.
O Executivo angolano tem insistido numa abordagem departamentalista da agricultura. Fala de fertilizantes como se fosse a solução mágica para o aumento da produção. Ou de tractores. Ou de correcção de solos. Fala de sistemas ou de cadeias de valor, mas isso não tem tradução na prática. Daí uma sucessão de fogachos sem lógica e sem coerência. Há, contudo, excepções, que, embora em dimensão reduzida – é bom ter isso em mente – produzem resultados evidentes.
Com o turismo acontece exactamente o mesmo. Malanje tem belezas naturais extraordinárias. As mais conhecidas são as Quedas de Kalandula, as Pedras Negras de Pungo e o Santuário da Palanca Negra Gigante, em Cangandala. Mas há muitas outras. As características do relevo permitem aos rios outras quedas (Musseleji, Bem Casados), rápidos (Cangandala) ou cachoeiras (Lutete). Outras belezas e locais históricos são o Miradouro de Kabatuquila, sobre a majestosa Baixa de Cassanji, a Mesa da Rainha Njinga, o túmulo de Ngola Kiluanje e o túmulo do Zé do Telhado, entre muitas outras.
Porém, para se desenvolver o turismo não bastam belezas. É necessário muito mais. Estradas asfaltadas e sem buracos. As de Malanje são más. Foram reabilitadas, nos últimos 20 anos e algumas já re-reabilitadas. Contudo, de novo, cheias de buracos. Padecem do mesmo mal das outras estradas de Angola. O buraco, consequência natural da “mixa”, surge, não é tratado, aumenta com o andar do tempo, aparece outro, e, rapidamente, a estrada vira uma sucessão de buracos. Ninguém explica por que razão não há um serviço de manutenção das estradas. O Fundo Rodoviário, criado, há vários anos, para esse fim, não funciona. Obviamente, ganha adeptos a ideia de que é a expectativa de uma “mixa” proveniente de nova reabilitação que determina tão estranho procedimento.
Quando, no princípio dos anos 2000, se aproximava o fim da guerra, falou-se da possibilidade de ser criado um 4º ramo das Forças Armadas Angolanas com base nos efectivos excedentários. Para gerir a reconstrução, incluindo a manutenção das estradas. Nunca se percebeu a razão do descarte da ideia. Especula-se, apenas que o autor da ideia deveria ser descartado, como foi. Por razões políticas e financeiras. Surgiu em seu lugar o Gabinete de Reconstrução Nacional de triste memória. A nossa ciosa comunicação social pública deve ter pensado que não era assunto de interesse público. Silenciou. Todavia, esta é uma questão relevante e, como tal, deveria ser abordada novamente. Passou demasiado tempo, os efectivos não têm a mesma idade, mas o problema persiste. Trata-se de assunto de primeira prioridade, que se prende com um modo para reduzir os efectivos e a despesa pública.
Mas não são apenas as estradas a condicionar o turismo. Exceptuando o caso de Kalandula, onde há algum serviço de hotelaria e restauração (caro ou de má qualidade), em todos os pontos turísticos atrás mencionados, um turista não consegue comprar uma garrafa de água e, muito menos, fazer uma refeição. São locais malcuidados e sem saneamento básico. Nos postos de combustíveis, casas de banho funcionais (limpas e com água) são extremamente raras. O recurso é a “sentina”. E como atrair turistas, em grande número, sem que estes tenham garantias de assistência médica, em caso de acidente ou de doença?
O desenvolvimento do turismo, afinal, padece das mesmas doenças que afectam o desenvolvimento do País. Desaproveitamento das capacidades humanas, por razões de política partidária, que resulta na constante degradação das instituições públicas. Disfuncionamento do mercado, por sobreposição de regras administrativas sobre regras económicas. Incapacidade de perceber e tirar partido da economia informal. Mau ambiente de negócios. Estabelecimento de prioridades em função de interesses partidários – e outros – e em prejuízo da solução dos problemas que afectam a população e a economia. Os gastos no novo brinquedo da Chicala nos últimos três anos, teriam muito mais valia se fossem feitas no fomento da agricultura e respectivos
investimentos estruturantes. Priorizar as estradas de Moxico Leste e Cuando em prejuízo das estradas Luanda-Benguela e Lubango-Huambo (que serve, ou deveria servir, o triângulo do milho) é, sobejamente, uma demonstração da arte de mal governar.
Insistir numa governação centralizada, com base em instituições económicas extractivas, que não criam as motivações e os incentivos necessários para as pessoas pouparem, investirem e inovarem, é trilhar o caminho do fracasso. As instituições políticas extractivas condicionam as instituições económicas, favorecendo o poder de quem beneficia da extracção. Esta é a razão subjacente ao livro “Porque Falham as Nações” – de Daron Acemoglu e James A. Robinson, que esteve na base da atribuição do Prémio Nobel da Economia de 2024.
Terminado o prolongado, o cidadão, a quem obrigam a fazer um registo oficioso ilegal, pois o que tem de fazer, face à lei, é apenas a prova de vida – que com tanta digitalização deveria ser da responsabilidade das instituições – regressa a casa. Descansado. Apesar de viver na Baixa de Luanda, não tem água em casa, há 15 dias, e de “esquebra” a luz também “tinha ido”. É Angola daqui prá frente!
Novo Jornal, 26/9/26
PS. Dotar a cidade de Malanje de uma toponímia que recupera os nomes anteriores à independência é algo que atesta a arte de mal governar. Noutras cidades e vilas foi ouvida a opinião dos membros dos Conselho de Auscultação das Comunidades. Não creio que tenha acontecido o mesmo em Malanje.











