
Não basta solicitar uma ONU que produza resultados para todos. É preciso que cada angolano também sinta que a sua própria Angola produz resultados para ele. É preciso trazer para Angola a mesma linguagem de diálogo, inclusão, Direito, desenvolvimento e confiança que se projecta para o mundo.
Enquanto alguns chefes de Estado foram à Assembleia Geral das Nações Unidas levar discursos de guerra, ameaça, tarifa, sanção e aquele famoso “se mexer comigo, vais ver só!”, Angola apareceu no palco com uma arma diferente: a diplomacia.
O Presidente João Lourenço subiu à tribuna da ONU no dia 22 de Setembro, na 81.ª Assembleia Geral, e trouxe uma mensagem que, traduzida para o português de bairro, poderia ser mais ou menos assim:
— Meus senhores, vamos parar de brincar à guerra. Sentem aí. Vamos conversar!
E aqui começa a maka. Porque o mundo anda mesmo meio desarrumado da cabeça. Há países que falam em paz enquanto mandam mísseis. Há outros que defendem o Direito Internacional quando lhes convém e descobrem uma nova interpretação jurídica quando deixam de lhes servir as regras.
É nesse cenário que o Presidente angolano chamou o fenómeno pelo nome: “anarquia mundial”, onde a força parece estar a ganhar à razão e à lei.
Ora, meus manos, isso até parece conversa de táxi em Luanda:
— Chefe, afinal quem manda?
— Quem tem força!
— E a lei?
— A lei está no bolso do outro!
Só que, na ONU, a brincadeira deixa de ser brincadeira.
Um dos pontos mais fortes do discurso foi a defesa de uma reforma profunda do Conselho de Segurança das Nações Unidas.
João Lourenço questionou uma ordem mundial em que o poder de decisão continua concentrado essencialmente nos vencedores de uma guerra que terminou há oito décadas, apesar de o mundo ter mudado profundamente desde então. Angola defendeu uma representação adequada de África, América Latina e Ásia, incluindo a possibilidade de assento permanente com os poderes correspondentes.
Epah! Aqui o discurso ganhou musculatura.
Porque, vamos falar sério: África não pode continuar a ser convocada para assistir à reunião quando a decisão já foi tomada na sala ao lado. É aquela história do nosso quintal:
– Vamos fazer uma reunião da família.
– E eu?
— Tu ficas ali sentado.
— Mas também sou da família!
— Sim, sim. Mas primeiro deixa os mais velhos decidirem.
Depois, quando chega a conta:
— Família é família, temos de contribuir todos! Eh pá! Assim também é batota.
O Presidente recuperou, nesse sentido, a posição africana expressa no Consenso de Ezulwini e na Declaração de Sirte, defendendo maior participação africana nas decisões sobre paz, segurança, desenvolvimento, clima e inteligência artificial. E isto merece atenção.
Porque a questão não é simplesmente “África quer cadeira”.
É: quem participa na decisão deve também ter voz proporcional ao peso das consequências que essa decisão produz.
Angola, 50 anos de ONU: chegámos depois da festa, mas trouxemos o recibo
Outro momento importante foi a evocação dos 50 anos da entrada de Angola como membro de pleno direito das Nações Unidas, em Dezembro de 1976. Cinquenta anos!
Meu irmão, isso já não é aniversário. É bodas de ouro diplomáticas!
Angola chegou à ONU depois da Independência, num contexto marcado pela Guerra Fria e pelas disputas entre grandes potências. O discurso recordou como essas confrontações condicionaram o percurso angolano até à paz de 2002.
E aqui há uma ironia histórica que dava para fazer um filme:
Angola tornou-se independente em 1975, mas a independência internacional demorou mais uns meses a apanhar o comboio.
O país estava em casa, mas ainda precisava da autorização dos convidados para entrar na sala.
Hoje, cinquenta anos depois, Angola já não está simplesmente sentada na plateia. Está a dizer:
— Camaradas, vamos também mexer na disposição das cadeiras! Talvez a frase mais bonita e mais provocadora do discurso tenha sido a ideia de que nenhuma arma é mais poderosa do que a diplomacia, porque as armas destroem, enquanto a diplomacia pode unir, reparar, construir e salvar vidas.
Aqui o Presidente trocou o vocabulário da pólvora pelo vocabulário da mesa. E isso, para um país que conhece demasiado bem o preço da guerra, tem uma carga histórica especial.
Angola sabe o que é ouvir o barulho das armas. Sabe o que é uma ponte destruída. Sabe o que é família separada. Sabe o que é reconstruir cidade, estrada, escola e esperança.
Por isso, quando um Presidente angolano diz na ONU que a diplomacia deve substituir a confrontação, não está apenas a recitar uma frase bonita do manual diplomático. Há memória nacional nessa afirmação.
Agora vem a parte que o nosso mwangolé gosta menos: a crónica não pode ser apenas fanfarra.
Um discurso presidencial na ONU é, por natureza, uma peça de política externa. É a apresentação da visão oficial do Estado sobre o mundo. E o discurso de João Lourenço foi particularmente forte na dimensão internacional: ONU, Direito Internacional, reforma do Conselho de Segurança, África, multilateralismo, paz, diplomacia, clima e inteligência artificial. Mas a ONU também é um espelho.
E quando Angola fala de boa governação mundial, justiça, inclusão e desenvolvimento, inevitavelmente aparece uma pergunta que não precisa de ser feita por nenhum estrangeiro:
Como transformar esses grandes princípios internacionais em resultados concretos dentro de casa?
Porque o cidadão comum não vive no Conselho de Segurança. Vive no bairro. Não come multilateralismo ao pequeno-almoço. Quer emprego. Não bebe Direito Internacional. Quer água, luz, saúde, escola, segurança e oportunidade.
O diplomata pode dizer “ordem internacional mais justa”. O cidadão responde:
— Está bem, chefe. Mas quando é que chega aqui no meu quarteirão?
É aí que a grande diplomacia encontra a pequena panela do cidadão. E é aí que começa a verdadeira avaliação de qualquer discurso.
O Presidente também colocou o dedo numa ferida global: a arquitectura internacional mudou, mas as estruturas de poder continuam muito parecidas.
Novos países nasceram. Economias cresceram. África mudou. A Ásia mudou. A tecnologia revolucionou o planeta. A inteligência artificial já está a fazer coisas que deixam até o funcionário público a perguntar se ainda precisa de carimbar o documento. Mas o Conselho de Segurança continua a carregar boa parte da lógica geopolítica de 1945.
É como comprar um Land Cruiser 2026 e instalar nele o rádio de 1975.
Anda? Anda. Mas alguma coisa está desactualizada. A pergunta levantada por Angola é, portanto, pertinente:
Pode uma organização criada para responder ao mundo do pós-Segunda Guerra Mundial continuar a funcionar indefinidamente como se o mundo ainda fosse aquele?
Há ainda uma passagem particularmente interessante: João Lourenço afirmou que os dirigentes actuais serão julgados no futuro pela capacidade de substituir confrontação por diálogo, competição predatória por cooperação, exclusão por solidariedade e força das armas pela força do Direito. Isso parece quase conselho de mais-velho:
— Meus filhos, não destruam a casa para provar quem manda na sala. O problema é que, na política internacional, os filhos são Estados soberanos, a casa é o planeta e alguns deles aparecem na reunião com lança-chamas. Então o conselho é bonito. A dificuldade é fazê-lo funcionar. Porque diplomacia não é apenas falar bonito. É negociar quando ninguém quer ceder. É ouvir quando se prefere gritar. É construir compromisso quando cada lado quer sair da sala com a vitória no bolso. É fazer o impossível parecer negociável.
No essencial, o discurso de João Lourenço procurou colocar Angola dentro de uma agenda maior: mais multilateralismo, mais representação africana, reforma da ONU, respeito pelo Direito Internacional, solução pacífica dos conflitos e reforço da diplomacia.
E isso é importante porque Angola não falou apenas como Angola. Falou também a partir de uma posição africana já expressa em mecanismos continentais, particularmente sobre a reforma do Conselho de Segurança. Ou seja: não fomos apenas pedir cadeira; fomos perguntar por que razão a mesa continua montada como se África ainda estivesse do lado de fora.
No fim das contas, o discurso de João Lourenço teve uma característica curiosa: foi mais internacionalista do que doméstico, mais diplomático do que partidário, mais institucional do que eleitoral.
E talvez tenha sido exactamente isso que a tribuna da ONU exigia.
O seu ponto forte esteve na defesa de uma ONU mais representativa, na reivindicação de maior protagonismo africano, na valorização da diplomacia e na memória histórica de um país que conhece por experiência própria os custos da guerra e da confrontação.
Mas o discurso deixa também uma segunda tarefa e esta não se resolve em Nova Iorque.
É trazer para Angola a mesma linguagem de diálogo, inclusão, Direito, desenvolvimento e confiança que se projecta para o mundo.
Porque, afinal, não basta pedir uma ONU que produza resultados para todos. É preciso que cada angolano também sinta que a sua própria Angola está a produzir resultados para ele.
E aqui termina a crónica. O Presidente voltou da ONU. A diplomacia ficou. A maka continua.
E o mwangolé, como sempre, olha para o céu e pergunta:
— Presidente, já que lá na ONU estamos a pedir uma nova ordem mundial… aqui em casa podemos começar por arrumar a sala?
Porque falar na ONU é importante. Mas, meu irmão… a panela de Angola não cozinha com discurso. Cozinha com resultado. E quando o resultado aparece, aí sim:
“Mwangolé bate palma com as duas mãos — sem precisar de ninguém mandar”.
E, neste banzelo todo, eu vou fazer o meu discurso no Conselho de Adega da Bebedeira, com uma taça de tinto.
Bom fim de semana.
Abraços.
*Menga-Ma-Kinfumu










