MÁRIO DOMINGUES: A VOZ INCONFORMADA QUE DESAFIOU O COLONIALISMO E A DITADURA

JOAQUIM SEQUEIRA

Mário José Domingues (1899-1977) foi uma das figuras mais fascinantes e contraditórias da cultura portuguesa do século XX. Filho de uma mãe angolana levada à força para São Tomé e Príncipe e de um pai português, branco, tornou-se jornalista, escritor, tradutor e activista. Foi um dos primeiros intelectuais em Portugal a defender abertamente a independência das colónias, mas também o “rei” dos romances policiais de cordel, assinados com dezenas de pseudónimos para sobreviver durante o Estado Novo. A sua história é a de um homem que, tendo nascido nos trópicos, veio a tornar-se um dos autores mais prolíficos da língua portuguesa, sem nunca abandonar uma visão profundamente humanista da sociedade.

Origens e formação

Mário Domingues nasceu a 3 de Julho de 1899 na ilha do Príncipe, na roça Infante D. Henrique. A sua mãe, de nome Kongola ou Munga, natural de Malanje (Angola), tinha sido levada para a ilha como “contratada” (uma forma de trabalho forçado) aos quinze anos de idade. O pai, António Alexandre José Domingues, era um funcionário português, oriundo de famílias liberais de Lisboa.

Com apenas dezoito meses, Mário Domingues foi enviado para Lisboa, onde foi criado pela avó paterna. Teve uma boa educação, estudando no Colégio Francês, onde conviveu com figuras que viriam a ser influentes, como o futuro director do jornal “A Batalha”, Cristiano Lima, e o famoso Repórter X, Reinaldo Ferreira.

A denúncia na Primeira República

Aos 19 anos, Mário Domingues aderiu ao anarquismo e iniciou a sua colaboração no diário anarco-sindicalista “A Batalha”, uma das publicações mais influentes do movimento operário, com tiragens estimadas em 25 a 30 mil exemplares. Foi neste período, entre 1919 e 1928, que se afirmou como activista e cronista, publicando textos que o investigador José Luís Garcia descreve como uma “obra de rebelião negra” e que o tornam um “precursor da afirmação negra” em Portugal.

Nestes artigos, Mário Domingues denunciou a violência do colonialismo, o racismo, os castigos corporais e a exploração nos arquipélagos de São Tomé e Príncipe. A sua ironia e estilo incisivo eram direccionados contra a hipocrisia da “missão civilizadora” portuguesa. Num dos textos, confessou a sua dor pessoal: “Ela (a mãe) é para mim o símbolo da África mártir, a África oprimida, a África dolorosa”. Foi também um dos primeiros em Portugal a acompanhar e escrever sobre o movimento negro internacional, inspirado por líderes como W.E.B. Du Bois e pelos motins raciais que eclodiram nos Estados Unidos em 1919.

Sobrevivência no Estado Novo: Jornalismo de causas e pseudónimos

Com o golpe militar de 28 de Maio de 1926 e a subsequente instauração do Estado Novo, a repressão e a censura tornaram impossível o seu activismo político directo. Apesar disso, Mário Domingues não se calou. Adaptou-se e desenvolveu novas estratégias para continuar a sua obra de denúncia.

Uma dessas estratégias foi o chamado “jornalismo de causa”. Em publicações como o “Repórter X” e o “Detective”, disfarçava-se para se infiltrar nos meios que queria denunciar. Vestiu-se de mendigo e vagabundo para ser preso e, uma vez no cárcere, reportar as condições desumanas das cadeias. Andou pelas ruas de Lisboa para testemunhar o tratamento brutal que a polícia e a sociedade reservavam aos pobres, aos sem-abrigo e aos negros.

Paralelamente, para sobreviver como escritor profissional, Mário Domingues tornou-se uma máquina de produção literária. Escreveu centenas de romances policiais, de aventura e “cor-de-rosa”. Esta produção massiva escondia, entretanto, uma estratégia de dissimulação e de sobrevivência: o uso de dezenas de pseudónimos estrangeiros.

Os pseudónimos

A lista é longa e inclui nomes masculinos e femininos, uma forma de ludibriar a censura e o próprio mercado editorial. Com o pseudónimo Philip Gray, escreveu 92 volumes. Outros incluem: Henry Dalton, Marcel Durand, W. Joelson, Fred Criswell, James Black, John Ferguson, William Brown, Thomas Birch e Guida de Montebelo (pseudónimo feminino).

Esta não era apenas uma estratégia de ocultação, mas também um mecanismo para criar a ilusão de que se tratava de autores estrangeiros, o que, ironicamente, era uma mais-valia comercial. Por vezes, chegava a usar dois pseudónimos num mesmo livro ou a fingir que traduzia obras de autores inexistentes, criando “tradutores” fictícios. Por baixo da ficção popular, acredita-se que mantinha um conteúdo “claramente humanista, a favor dos de baixo, das classes subordinadas”.

Últimos anos e falecimento

Para além da ficção popular, Mário Domingues dedicou-se também a obras de evocação histórica, publicando dezenas de volumes sobre figuras como o Condestável D. Nuno Álvares Pereira, o Padre António Vieira e o Marquês de Pombal.

Em 10 de Julho de 1970, foi agraciado com o grau de Oficial da Ordem Militar de Sant’Iago da Espada pelo chefe de Estado Américo Tomás, um símbolo do reconhecimento oficial que, ironicamente, contrastava com a sua vida de oposição ao regime.

Apesar de se ter afastado do movimento anarquista, a sua visão permaneceu inabalada. Em 1975, já depois da Revolução dos Cravos, escreveu uma carta à “Voz Anarquista”, onde afirmou: “Agora, mais do que nunca, é preciso proclamar bem alto que o anarquismo não é a desordem, a violência e o crime (…) Urge desfazer essa lenda tenebrosa e demonstrar ao grande público, enganado por essas torpes mentiras, que o anarquista ama e defende o ideal supremo da ordem, exercida numa Sociedade edificada na Liberdade, na Fraternidade e na Justiça Social”.

Mário José Domingues faleceu a 24 de Março de 1977, na Costa da Caparica, com 77 anos. Deixou uma obra imensa e dispersa, que ainda hoje está a ser redescoberta, nomeadamente o seu legado como um dos primeiros activistas anticoloniais e anti-racistas em Portugal. A sua vida é o testemunho de como a criatividade e a inteligência podem ser armas de sobrevivência e de luta, mesmo nos períodos mais sombrios da história.

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