ATÉ QUANDO O MPLA VAI CONTINUAR A ABUSAR DA NOSSA PACIÊNCIA?

CRÓNICAS DE UM MATOENSE – II

FERNANDO PAIVA

Parece-me um exagero que numa vila histórica como é a do Golungo Alto, que tantos nacionalistas forneceu à luta de libertação nacional e ao país, todos eles dignos de figurarem no panteão dos Heróis Nacionais, não houvesse nenhum filho da terra cujo busto deveria ter sido colocado no jardim do centro da vila, em vez de Agostinho Neto…

No âmbito da celebração do 115.º Aniversário da Elevação do Golungo Alto à categoria de município, foram realizadas várias actividades entre as quais a Feira de Produção Local, Bens e Serviços que decorreu de 25 de Julho a 1 de Agosto de 2026. Foi bonito ver a nossa vila a ressurgir das cinzas da guerra e da nossa independência e ver os produtos tradicionais (café, banana, óleo de palma, mandioca, bombó) expostos em pequenas barracas, bem como produtos não tradicionais como hortícolas e frutos tropicais. 

Como surpresa tomei conhecimento de que tinha sido inaugurada, no centro da vila, um monumento em honra do Presidente Dr. António Agostinho Neto. Este facto surpreendeu-me porque, que eu saiba, o Presidente Neto, o “fundador da Nação Angolana”, como é celebrado pelos dirigentes, militantes e simpatizantes do Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA), pelo Titular do Poder Executivo e pelos seus auxiliares, nunca teve nada a ver com a vila do Golungo Alto. De resto, o Dr. Agostinho Neto já tem uma estátua majestosa em Luanda, no Largo Primeiro de Maio, hoje Praça da Independência, ao estilo do grande líder da Koreia do Norte, o Presidente Kim il Sung, o fundador do espírito “Juche”. Para além disso, eu tenho o prazer de passar, sempre que vou ao Golungo Alto, pelo busto do Dr. Agostinho Neto, localizado à entrada da nóvel cidade de Catete, capital da não menos nóvel província de Icolo e Bengo. Na mesma Estrada Nacional 230 (EN-230), popularmente conhecida como Estrada de Catete, à volta do Km 38, encontramos um viaduto construído por cima da estrada que dá acesso ao novo Aeroporto Internacional, também crismado com o nome do Herói Nacional, o Imortal Dr. António Agostinho Neto. Tanto na cidade de Luanda, como um pouco por toda a Angola, encontramos homenagens ao Presidente Fundador da Nação.

Nessa base, parece-me um exagero que numa vila histórica como é a Vila do Golungo Alto que tantos nacionalistas forneceu ao país, todos eles dignos de figurarem no panteão dos Heróis Nacionais, não houvesse nenhum filho da terra que merecesse figurar nesse monumento. 

Passemos em revista alguns naturais do Golungo Alto, cujo busto deveria ter sido colocado no jardim da vila. Comecemos por Monsenhor Joaquim Manuel Alves das Neves, o líder encoberto do 4 de Fevereiro, nascido há mais de 130 anos no Golungo Alto. Pela informação que obtive, nem sequer foi considerado. Não sei se foi pelo facto de ele ter sido conotado com a União dos Povos de Angola (UPA), que deu origem à Frente Nacional de Libertação de Angola (FNLA), dirigida por Holden Roberto. É importante que se pense que a actividade política do Cónego Manuel das Neves foi anterior à fundação do MPLA, que só se verificou em 1960, e que só se tornou notória depois de 1962, quando foi forçado a instalar-se no Congo Brazzaville.

Mário Pinto de Andrade, natural de Golungo Alto, foi o primeiro Presidente do MPLA e quem entregou a direcção para Agostinho Neto. E no quadro de divergências internas, tornou-se dissidente e um dos mentores da Revolta Activa. Mas, na sua época, destacou-se como um dos nacionalistas mais brilhantes.

Outro nacionalista natural do Golungo Alto, e que foi por sinal o primeiro Presidente do MPLA, foi Mário Pinto de Andrade, que por sinal, foi ele quem entregou de mão beijada a presidència do MPLA ao Dr. António Agostinho Neto. Em relação a Mário Pinto de Andrade, também se pode dizer que foi um dissidente do MPLA, e que foi membro da Revolta Activa e, portanto, não era digno de ter o seu busto no centro da Vila.

Podemos falar também de outro nacionalista, por sinal irmão de Mário Pinto de Andrade. Estou a falar de Joaquim Pinto de Andrade, que foi padre, militante de um dos movimentos nacionalistas que deram origem ao MPLA, caso do MINA (Movimento independencia Nacional de Angola), tendo sido preso pela PIDE e deportado para Portugal, tal como o Dr. Agostinho Neto. Acontece que Joaquim Pinto de Andrade, embora não tenha assinado o Apelo dos 19 que deu origem à Revolta Activa, figurou, à certa altura, como o seu Presidente, e, apareceu ligado a movimentos da oposição como a Associação Cívica de Angola (ACA) e, posteriormente, no Partido Renovador Democático (PRD).

Continuando a nossa busca, vamos encontrar um membro do MPLA acima de qualquer suspeita: António Jacinto do Amaral Martins, esse mesmo, o poeta do Monangambé o “branco” que denunciou a exploração dos “negros” nas roças de café. Nem esse foi considerado, se calhar por ser “branco” e na lógica do Movimento de Libertação Nacional angolano, “branco” não pode ser consagrado com a sua estátua na vila onde nasceu. Não vá alguém pensar que, afinal, a independência é de mentira e os ”brancos” continuam no poder. 

Passemos a outro nacionalista, membro do MPLA, sem mácula: Augusto Lopes Teixeira “Tutu”, um estudante brilhante tanto em Angola como na União das Republicas Socialistas Soviéticas (URSS), essa mesma, a de Lenine e de Estaline, onde até há pouco tempo era apresentado aos visitantes como um africano que tinha brilhado nos seus estudos. Tutu foi ministro da Educação no primeiro governo de Angola, e até ao seu falecimento visitou várias vezes a terra onde nasceu. Tutu, também não foi considerado. Era mestiço, mas não acredito que esse tenha sido um factor de exclusão. Não foi considerado, pura e simplesmente. 

Continuando a nossa busca, encontramos Manuel Pedro Pacavira, que até foi governador do Kwanza Norte. Mas não, a família dele era originária de Catete, e ele só nasceu por acaso no Golungo Alto. E aqui eu pergunto: e Agostinho Neto, porque é que pode, se ele não só não nasceu no Golungo Alto como a sua família não é natural da vila? 

Passemos a frente e vamos escolher um mais velho. Poderíamos propor Gentil Viana, um dos intelectuais mais brilhantes do MPLA. Mas esse, apesar da sua família ser originária do Golungo Alto, nasceu em Luanda. Mas se ele não pode, o pai dele, Gervásio Viana, um dos fundadores da Liga Nacional Africana, percursora da luta pela independência, já poderia ser. Mas esse também não foi considerado. 

Passemos a outro natural do Golungo: Lopo Fortunato do Nascimento, que foi primeiro-ministro, ministro do Comércio, nos governos do Dr. Agostinho Neto, membro do Comité Central e do Bureau Político do MPLA. O “camarada” Lopo provavelmente, também não pode ser, uma vez que ainda está vivo. E pode não ficar bem, erigir estátuas a pessoas vivas.

Ainda nos restam muitos candidatos. O Golungo Alto foi, de facto, um alfobre de nacionalistas desde tempos imemoriais. Daqueles que eu conheci, poderia propor Lopo de Loureiro “Songamaju”Manuel PorfírioLucas JúniorBravo da Rosa e muitos mais. 

Enfim, quem ficou com o seu busto na vila, o primeiro a ser homenageado, foi o Dr. António Agostinho Neto, o Herói Nacional, fundador da nação e da nacionalidade.

Como é usual com o MPLA, a população não foi consultada, e nem tida nem achada. Caso para se perguntar: “Até quando o MPLA vai continuar a abusar da nossa paciência”?

Bangu a Kitamba 

Província do Kwanza Norte – município do Golungo Alto 

18 de agosto de 2026

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