OMBELELA: AGORA O DOMBE GRANDE TAMBÉM TEM MOLHO

SAMPAIO JÚNIOR

A culinária benguelense ganha, a partir de agora, um novo paladar. A massa de tomate com a marca Ombelela chega para acrescentar um novo desafio ao nosso manjar. Com Ombelela, os pratos de tomate deixam de ser quase bastardos para assumirem uma identidade mais integral, com sabor vindo directamente das terras dos mundombes.

E não estamos a falar de qualquer terra. O Dombe Grande já foi apontado, nas histórias populares, como um dos grandes epicentros da feitiçaria em Angola, terra do malogrado Tchiyuyayuya, personagem que entrou no imaginário popular como uma espécie de ministro dos assuntos sobrenaturais. Diz-se que o homem temperava militares para não apanharem balas durante a guerra; a outros, garantia-lhes a eternização nos cargos de chefia e, segundo as más-línguas, ainda tinha receitas especiais para melhorar o desempenho dos grandes garinadores de moças.

Mas deixemos os feitiços e voltemos ao que interessa: a Ombelela, a nova iguaria com sabor mundombe.

A entrada em funcionamento da unidade fabril deve muito ao empresário Adérito Areias, homem de mil ofícios no ramo empresarial, que sucedeu ao pai e que, segundo se comenta, terá nas veias sangue com raízes do Dombe Grande. Aqui talvez se possa aplicar aquele velho ditado, “santos da casa também fazem milagres”.

A entrada em funcionamento dessa fábrica de processamento de frutas, ocorre num momento em que, de acordo com dados do Governo, a economia angolana continua a crescer. Mas para a sociedade, esse crescimento acontece a um ritmo que pouco entusiasma e que, em certos momentos, parece mais um caracol cansado do que uma economia em marcha. Ainda assim, há sinais de que alguma coisa pode funcionar quando existe investimento, iniciativa privada e, sobretudo, quando o Estado decide desempenhar o seu verdadeiro papel.

Dombe Grande é um desses exemplos. A região tem agricultores, terra, água abundante e gente disposta a trabalhar. O que falta muitas vezes é aquilo que parece abundar nos discursos oficiais: apoio efectivo, mercado e capacidade de transformar a produção agrícola em riqueza.

A fábrica de tomate esteve durante vários anos atirada aos píncaros da incerteza e do abandono, depois de ter beneficiado de investimento público. E diga-se, em abono da verdade, fazia falta. Porque durante os períodos de grande produção, os agricultores enfrentavam um problema quase tão antigo como a própria agricultura: produziam tomate, mas não tinham para quem vender, porque em certas alturas o mercado deixa de ter capacidade para absorver toda a produção nacional.

Era tomate por todo o lado e compradores a desaparecerem como candidatos depois de perderem eleições ou a falirem com as baixas estonteantes dos preços de um dia para outro.

Foi então que Adérito Areias, com a sua conhecida chave-mestra, terá conseguido voltar a abrir algumas portas do corredor do poder. A fábrica voltou a ser olhada com olhos de ver, recebeu novo investimento, foi modernizada e começa agora a produzir efeitos satisfatórios.

Finalmente, o tomate do Dombe Grande parece ter encontrado uma segunda vida.

O sector agrícola da região tem vindo a ganhar novo fôlego, com investimentos recentes em unidades de processamento e no apoio aos agricultores. O FADA tem potenciado o cultivo do tomate, através de um investimento inicial anunciado de 600 milhões de kwanzas, repartido pelos produtores, com possibilidade de o montante crescer progressivamente.

É dinheiro que, se bem aplicado, pode fazer aquilo que muitos discursos não conseguem colocar comida na mesa e dinheiro no bolso de quem trabalha a terra.

Mas há uma velha senhora que continua a espreitar por detrás da plantação: a tuta. Esta praga criou enormes dificuldades aos produtores de tomate da região e obrigou muitos agricultores a procurar outras paragens, particularmente no Namibe. O combate à tuta continua, por isso, a ser uma questão fundamental para garantir que o actual entusiasmo em torno do tomate benguelense não seja apenas mais uma fotografia bonita para o álbum dos projectos agrícolas. Porque em Angola o histórico diz que uma fábrica inaugurada é uma coisa, mas uma fábrica a produzir continuamente, com agricultores a ganhar dinheiro e consumidores a comprar o produto, é outra conversa.

Entretanto, soubemos que já está assegurada produção em grande escala, e que estarão aprovisionadas mais de 11 toneladas de massa de tomate para serem escoadas para o mercado. Aqui permitam-me recorrer à minha modesta teoria do achismo.

Estamos numa época de “vacas gordas” no tomate. Há muito produto fresco nos mercados informais, muita hortaliça e preços relativamente baixos. É uma boa altura para comer verduras e reforçar a alimentação. O problema é que a agricultura não pode viver eternamente de épocas de abundância seguidas de períodos de desespero.

É justamente aí que entra Ombelela. Quando for o período  das “vacas magras”, em que o tomate fresco escassea e o preço volta a subir como se tivesse tomado energético, a massa de tomate poderá revelar a sua verdadeira importância.

Por isso, o desafio agora é maior. Produzir, transformar, conservar e distribuir. E que ninguém se esqueça da tuta. É preciso combatê-la enquanto há produção e entusiasmo, e não esperar que a praga volte a transformar os campos em cemitérios agrícolas, para depois aparecerem, novamente, os habituais discursos de emergência.

No Dombe Grande, felizmente, há um aliado de peso o rio Coporolo. Numa região semi-árida, a presença do rio garante água e fertilidade para o cultivo de diversos produtos hortícolas e frutas.

Ou seja, o Dombe Grande tem terra, água, agricultores, fábrica e agora tem Ombelela. Só falta mesmo que a máquina económica continue a funcionar sem precisar de feitiçaria. Porque, depois do Tchiyuyayuya, já chega de esperar milagres sobrenaturais.

O verdadeiro milagre será transformar o tomate do camponês em riqueza para o camponês. E se Ombelela conseguir isso, então podemos dizer, com toda a satisfação e algum molho: o Dombe Grande finalmente está a temperar a Angola e sobretudo, a economia benguelense.

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