“Uma crónica inspirada da música “Boda”, de Paulo Flores”

Em Angola, terra onde o sol nasce primeiro que o salário e onde a esperança tem mais resistência que uma Toyota Hiace de táxi interprovincial, aprendemos cedo uma lição importante: nem tudo que parece é.
Foi assim que o kota Paulo Flores nos brindou com aquele pensamento profundo que cabe tanto numa roda de semba, como numa discussão de quintal: “nem todo o veneno é cobra e nem todo o rico rouba”. Mas o problema do angolano não é ouvir. É acreditar.
Lá no mercado Roque Santeiro celestial, onde dizem que as almas dos antigos candongueiros continuam a negociar até depois da morte, o kota Matias “Sete Fôlegos” costumava dizer:
— Meu filho, em Angola, quando um pobre compra um carro novo dizem que roubou. Quando um rico compra um helicóptero dizem que trabalhou. E a conversa termina aí.
Outro dia, no mercado do Asa Branca, a mana Xica do Cariango, viu o vizinho Ngiza Mbote aparecer com uma carrinha nova.
— Eeeh! Esse aí já entrou no esquema!
Nem perguntou se o homem passou vinte anos a emigrar, a lavar pratos na Bélgica, a carregar caixas na Holanda ou a dormir em quartos partilhados com mais gente que passageiros numa praça da Mutamba.
Para muitos, sucesso alheio é sempre feitiço, corrupção ou cunha. Mas também não nos enganemos.
Se nem todo rico rouba, alguns ladrões fazem questão de parecer ricos. E esses são facilmente identificáveis.
Ontem andavam de chinelos “japoneses” remendados com arame. Hoje aparecem com relógios que custam mais que uma escola inteira.
Ontem pediam pão emprestado. Hoje falam de investimentos milionários.
Ontem disputavam lugar na fila do táxi. Hoje discutem qual dos seus três jipes deve sair primeiro da garagem.
Milagre? Talvez.
Mas até Jesus Cristo multiplicou pão e peixe. Não multiplicou contas bancárias em três meses.
O problema é que Angola tornou-se uma espécie de campeonato nacional de aparências.
Há quem alugue fato para parecer empresário. Há quem alugue carro para parecer deputado. Há quem alugue casa para parecer milionário. E há quem alugue até opinião para parecer intelectual.
Tudo porque a sociedade criou a ideia de que ser é menos importante do que parecer. E no Palanca, no Cazenga, no Golf 2, no Huambo, no Lobito ou em Menongue, encontramos essa mesma novela.
O jovem sem emprego publica fotos em restaurantes caros. O funcionário público faz pose de magnata. O político fala de sacrifícios enquanto o seu comboio de viaturas provoca mais engarrafamento que uma chuva de cinco minutos em Luanda.
E o povo observa. Observa e comenta. Porque comentar é o nosso desporto nacional.
Em Angola, o Ministério dos Mujimbos funciona vinte e quatro horas por dia sem orçamento do Estado. Aliás, o único órgão verdadeiramente eficiente do país continua a ser a Rádio Candongueiro FM. Não precisa de internet. Não precisa de antena. Não precisa de jornalista. A notícia sai do Rocha Pinto às oito da manhã e chega ao Uíge antes do almoço.
Mas voltando ao veneno.
Nem todo veneno é cobra. Há venenos que vêm em forma de inveja. Há venenos que vêm em forma de bajulação. Há venenos que vêm embrulhados em amizade.
E há aqueles camaradas que dizem:
— Estou contigo até ao fim!
Só não especificam que o fim é o teu.
Por isso o angolano precisa aprender a distinguir aparência de essência.
Nem todo homem de fato é sério. Nem todo pobre é santo. Nem todo rico é ladrão. Nem todo dirigente é incompetente. Nem todo opositor é salvador. Nem todo pastor é profeta.
Nem todo professor sabe. Nem todo influencer influencia.
E nem todo discurso patriótico vem acompanhado de patriotismo. A vida ensina que os extremos costumam ser preguiçosos. Que generalizar é mais fácil do que pensar. Que rotular é mais fácil do que investigar. Que condenar é mais fácil do que compreender.
Talvez por isso continuemos a tropeçar nos mesmos buracos, enquanto discutimos quem é dono da pá. O segredo está no equilíbrio. Desconfiar sem paranoia. Acreditar sem ingenuidade. Admirar sem idolatrar. Criticar sem odiar.
Porque uma sociedade madura não vive de preconceitos nem de absolvições automáticas. Vive de factos.
Enquanto isso não acontece, continuaremos a assistir ao grande reality show nacional. O pobre a fingir que é rico. O rico a fingir que é humilde. O político a fingir que escuta. O povo a fingir que acredita. E todos juntos a fingirmos surpresa quando a novela termina exactamente como começou.
Mas, calma. Apesar de tudo, Angola continua a ser aquele quintal gigante onde a esperança sobrevive a todas as crises, onde o semba continua a vencer a tristeza e onde o humor ainda é a nossa maior reserva estratégica.
Porque no final das contas, meus kambas, “nem todo veneno é cobra, nem todo rico rouba”. E nem todo angolano perdeu a capacidade de sonhar. Ainda há muitos a trabalhar honestamente, a construir silenciosamente e a provar que a dignidade não faz barulho. Só que, como acontece sempre nesta terra de contrastes, o candongueiro do escândalo continua a buzinar mais alto do que o táxi da honestidade.
E daí? Daí que devemos continuar atentos, desconfiados q.b., mas sem perder a capacidade de reconhecer o mérito quando ele aparece. Porque uma nação que suspeita de todos acaba por confiar em ninguém.
E quando ninguém confia em ninguém, até a verdade precisa de apresentar bilhete de identidade.
Bom sábado, mwangolé.
*Menga-Ma-Kimfumu










