
Há dias em que fico sem saber se alguns governantes vivem realmente em Angola, ou se apenas fazem escala por cá, entre uma viagem e outra, enquanto as suas famílias nucleares permanecem instaladas no estrangeiro. Considerar “simpático”o valor de 250 mil kwanzas para tratar de um Bilhete de Identidade, em casa, é uma dessas pérolas que só pode nascer dentro de uma confortável bolha.
Entretanto, milhões de angolanos travam, diariamente, uma guerra silenciosa para pôr pão na mesa. Muitos dos que mais necessitam do Bilhete de Identidade, não conseguem garantir sequer o pequeno-almoço, quanto mais as três refeições diárias. Para essas famílias, 250 mil kwanzas não tem, absolutamente nada, de “simpático”. O que parece verdadeiramente “simpático”, pelos vistos, é a distância entre quem governa e quem é governado.
O ministro da Justiça Marcy Lopes, o pai dessa “simpatia”, conhece a Angola profunda ou apenas a que aparece nos relatórios oficiais? Já percorreu as aldeias onde a electricidade continua a ser um sonho, as estradas são autênticos trilhos de resistência e as casas de pau-a-pique desafiam o tempo? Há localidades onde um simples comprimido de paracetamol é uma raridade. Se nas cidades já é difícil aceder aos cuidados básicos de saúde, imagine-se o que sucede no interior.
Talvez fosse útil trocar, por uma vez, os roteiros elegantes das férias pela Europa por uma viagem ao coração do País. Em vez de passear por avenidas sofisticadas e destinos de luxo, experimente conversar com os camponeses, ouvir as mães que percorrem quilómetros em busca de água, atravessar rios sem pontes e subir montanhas onde o Estado ainda não chegou. Garanto-lhe que essa viagem lhe ensinará mais sobre Angola do que muitos relatórios e discursos.
O problema não é apenas considerar que “250 mil kwanzas é uma simpatia”. O problema é o que ela revela: uma preocupante falta de sensibilidade perante a realidade de um povo que enfrenta o elevado custo de vida, salários baixos e dificuldades cada vez maiores.
Quando um governante considera “simpático” um valor que, para a maioria dos cidadãos, é simplesmente incomportável, talvez seja sinal de que não perdeu apenas o contacto com a realidade. Perdeu também a noção da empatia. E essa, infelizmente, não se compra, nem com 250 mil kwanzas.
Quando os angolanos ainda procuram acreditar no zelo de quem devia defender os seus melhores interesses, deparam-se com a dura realidade de quase 50 anos de uma governação que deixa pouco espaço para a confiança. Os políticos existem para servir e proteger os cidadãos, porém, em Angola, muitos preferem vender banha da cobra, embalados por um populismo de ocasião, enquanto o País se degrada. Ironia das ironias, 250 mil kwanzas correspondem ao salário de muitos competentes funcionários da Administração Pública angolana. Para esses trabalhadores, esse valor está muito longe de ser “simpático” é, muitas vezes, é tudo o que têm durante o mês para sustentar as suas famílias e pagar encargos de educação e saúde.
É a diferença entre trabalhar para o Estado e servir-se do Estado. Por isso uns não têm o que comer, e outros exibem relógios de pulso de milhares de euros.










