ENTRE VERÃO E CACIMBO (1)

JAcQUEs TOU AQUI!

JACQUES ARLINDO DOS SANTOS

1 – Estava-se no princípio da década de setenta do século passado, quando conheci Lisboa. Como já não consigo lembrar tudo, direi que foi, de certeza, no Verão, porque, e disso me recordo, não necessitei de roupas fortes para me agasalhar durante a minha estadia. Não esqueço pequenos nadas, como a escorregadela que me atirou ao chão na Rua da Conceição, nos lados da Glória, onde funcionava a Companhia de Seguros Angolana, na capital portuguesa. A sede da seguradora era, naturalmente em Luanda, na altura, já imaginada como a capital do Império português. Levava a incumbência de procurar o senhor Aguiar, que me dava ordens em Luanda, na Avenida Marginal, onde iniciei a minha carreira nos seguros. Onde me tornei campeão a jogar futebol de salão. Riu-se da minha queda, olhou para os meus sapatos de sola grossa e aconselhou depois, uma visita guiada, antes do meu embarque para Bissau, onde iria dar início à minha mudança de vida! 

Terreiro do Paço, Jardim Zoológico, Museu dos Coches, Jerónimos, Estádio Nacional. Passeio turístico feito num táxi, um tour que me custou menos de cinquenta escudos.  O motorista, um homem já entrado na idade, borrou-se de medo quando um polícia com cara de mau o interpelou, para olhar fixamente para mim. Como se eu fosse um animal desconhecido. Salazar ainda estava vivo. Impunha respeito, um medo do caraças!

À noite levaram-me ao antigo Estádio da Luz, em Sete Rios, experimentei o Metro. Realizava-se um Torneio Internacional de Júniores e, vi pela primeira vez, a técnica de João Alves, o “luvas-pretas”, de Shéu e Rank Franque, entre outros que já esqueci. Na pensão onde me hospedei, ali nos lados da Estefânia, assisti, no dia seguinte e pela primeira vez, a um jogo de futebol pela televisão. Ajax-Atlético de Madrid. O noticiário falava da Riquita, que dias depois seria eleita Miss Portugal. Como é boa a minha memória! 

Hoje, Lisboa está distante dos seus desígnios imperiais. Circulam pelas suas ruas e avenidas muitos africanos, sem que ninguém os veja como animais raros, como eu fui visto. Muitos tornaram-se portugueses e os seus filhos já nasceram em Portugal. Ajudam a marcar uma era mais moderna e contemporânea dos africanos e afrodescendentes em Lisboa e arredores. Felizmente, a capital portuguesa transformou-se numa das cidades mais vibrantes e multiculturais da Europa. 

2 – Terminado o Mundial com a derrota da Argentina e da consequente queda da coroa de Messi, entra-se na onda do futebol português. Pobre, como é natural que seja, mas sempre alimentado por uns bizarros “mestres” da Comunicação Social, na sua maioria pagos para desestabilizarem, ano atrás de ano, o colosso Sport Lisboa e Benfica. São mestres na arte, mas esquecem-se que os gigantes dificilmente se abatem. E esta época que agora inicia, não vai ser diferente. Com Marco Silva no comando e com uma miudagem talentosa, o Benfica vai lutar para ser campeão!

3 – Em Angola, a luta é outra. A nível dos partidos políticos e num processo raro, complexo e altamente instável, a transição pacífica e democrática, está difícil. Neste cacimbo, frio como poucos, apresentam-se, de um lado, o Partido e o regime autoritário que domina tudo e todos, vazio de ideias e de estratégias. É o mesmo que governa, numa eternidade aborrecida, o nosso País. Do outro lado, apresenta-se um general corajoso, cansado de presenciar o manso descarrilamento da Nação. Quer mudanças e tem grande parte dos militantes com ele. O povo em geral, também acredita que vencerá o round partidário. Virá depois a eleição nacional, mas isso é coisa para se ver mais tarde.

4 – O meu irmão Fernando Pacheco, o Nandito, fez ontem 77 anos. Uma idade respeitável, para um cidadão que, nascido sob o signo de Leão, vê o País dum modo que a maioria dos políticos não enxerga. Lamentei não poder abraçá-lo, mas festejei com a minha neta Daniela que, ontem também, fez almoço de aniversário. São do mesmo dia! Vale quem tem, burro daquele que não tem um irmão como o Nandito e uma neta como a Dani!

Fico por aqui, despedindo-me dos meus leitores, dos parentes, dos amigos, dos camaradas e dos companheiros de luta. Até ao próximo domingo, à hora do matabicho.

Forte da Casa, Portugal, 26 de Julho de 2026

Legenda da foto: Riquita Bauleth, no desfile do Miss Moçamedes, em 1972, como Miss Portugal 1971, nascida em Angola (Página Oficial/Riquita – Facebook).

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