Do antagonismo histórico à reprodução do modelo predatório
O MPLA construiu a sua mística combatendo Mobutu como a personificação do neocolonialismo. Porém, ao perpetuar no poder as mesmas dinâmicas de dependência externa, extractivismo, centralização autocrática e exclusão social, Angola transformou-se no espelho do Zaire que tanto criticava.

A história política de Angola encerra uma ironia trágica e estrutural. Durante anos, o MPLA (Movimento Popular de Libertação de Angola) construiu o seu discurso de legitimidade na luta contra o “inimigo externo”representado por Mobutu Sese Seko, o ditador do Zaire. Mobutu era sistematicamente acusado de ser um “vassalo dos EUA”, o “ponta de lança do imperialismo e do neocolonialismo americano em África” e o principal responsável pela invasão de Angola, pelo Norte, em 1975, para instalar um “governo fantoche”através da FNLA de Holden Roberto.
Contudo, meio século depois, a análise crítica da realidade angolana revela um cenário desconcertante: a República de Angola, sob a liderança do próprio MPLA, reproduziu fielmente os vícios sistémicos que outrora atribuía ao regime de Kinshasa. Mais do que uma simples coincidência, estamos perante a continuidade de um modelo de Estado cleptocrático e neocolonial, cujas raízes mergulham na lógica predatória da exploração extractivista.
O neocolonialismo por procuração vs. neocolonialismo interno
O MPLA acusava Mobutu de servir como “instrumento” do imperialismo para dividir o nacionalismo angolano. Hoje, a dependência externa de Angola mantém-se intacta, mas agora gerida a partir de dentro. A economia angolana continua “intrinsecamente ligada ao seu passado de colónia”, assente num modelo extractivista que exporta petróleo (o “elo essencial de ligação ao exterior”) e importa quase tudo o que consome, refém das oscilações do mercado mundial. Se Mobutu alinhava o Zaire com o Ocidente para obter favores geopolíticos, a Angola actual hipoteca a sua produção petrolífera a gigantes estrangeiras, perpetuando a vulnerabilidade que a sua retórica revolucionária prometera abolir.
A substituição da elite colonial pela elite burocrática
Uma das acusações mais veementes contra Mobutu era a transformação do Estado numa “conta corrente pessoal”, onde a fortuna pessoal do ditador e do seu círculo se sobrepunha ao erário público. Em Angola, assistimos à mesma promiscuidade entre o poder político e a acumulação económica privada. A elite que assumiu as rédeas do país após a independência não desmantelou a estrutura administrativa colonial. Ocupou-lhe o topo.
O caso paradigmático da família do ex-presidente José Eduardo dos Santos, com Isabel dos Santos à frente da Sonangol e José Filomeno dos Santos no Fundo Soberano, ilustra esta “substituição da elite colonial”. A antiga burguesia portuguesa deu lugar a uma nova oligarquia político-militar, que concentra as “riquezas nacionais nas mãos de uma reduzida elite”, exactamente como Mobutu fez com os seus aliados do MPR (Movimento Popular da Revolução). A diferença é meramente nominal: outrora chamados de “agentes do imperialismo”, hoje são chamados de “gestores públicos”.
A centralização do poder e a ausência de redistribuição social
Mobutu governava o Zaire com “mão de ferro”, centralizando o poder executivo e sufocando qualquer dissidência. Angola é descrita por analistas como “talvez dos Estados africanos mais centralizados”, mantendo uma “forte centralização do poder executivo” que é uma “reminiscência do período colonial”. O MPLA controla o aparelho de Estado de cima para baixo, gerindo os recursos nacionais com a mesma opacidade que marcou o regime de Mobutu.
As consequências práticas são idênticas: enquanto as elites vivem em bolhas de riqueza sumptuária, a “maioria da população vive na pobreza profunda”. No Zaire de Mobutu, o governo era incapaz de fornecer serviços públicos básicos; em Angola, apesar do petróleo, a rede de saneamento, saúde e educação permanecem subfinanciadas e degradadas. A redistribuição social, promessa basilar do discurso anticolonial, foi substituída por uma lógica de rendição e captura do Estado.
Conclusão:
A luta inacabada contra o mesmo inimigo
O MPLA construiu a sua mística combatendo Mobutu como a personificação do neocolonialismo. Porém, ao perpetuar no poder as mesmas dinâmicas de dependência externa, extractivismo, centralização autocrática e exclusão social, Angola transformou-se no espelho do Zaire que tanto criticava.
A lição é dura e clara: o “inimigo” nunca foi apenas Mobutu, Holden Roberto ou os americanos. O verdadeiro adversário era (e continua a ser) o sistema predatório que transforma o Estado num feudo privado. Até que Angola rompa com este modelo estrutural (diversificando a economia, descentralizando o poder e instituindo verdadeira transparência e justiça fiscal) o país continuará a viver à sombra de Mobutu, reproduzindo sob a sua própria bandeira o mesmo neocolonialismo interno que outrora jurou extirpar. A independência política está conquistada; a independência económica e democrática, essa, permanece por fazer.











