27 DE MAIO DE 1977. O TESTEMUNHO ARREPIANTE DE BRITO JÚNIOR (PARTE VI)

OS PRESOS DO SECTOR 2 DA CR FUZILADOS NOS DIAS 22 DE FEVEREIRO E 23 DE MARÇO DE 1978

Cada um de nós tinha o que contar: uns amarrados como bois, outros levaram o “tripé” na cabeça (tortura mais bárbara que já vi). Neste sector o homem não era mais do que um bicho rastejante. As nossas ancas e nádegas pareciam de macacos, de tanto nos deitarmos de lado e roçar no áspero cimento das celas. Nunca tínhamos visto um colchão.

EDIÇÃO DE RAMIRO ALEIXO

Os dias, semanas, foram passando. É impossível descrever fielmente quanto sofria (aliás, sofríamos todos). Aguardei que me tirassem do sector 2 ou pelo menos que me fizessem algum tratamento. NADA. Pedíamos aos guardas que nos levavam a magra comida para comunicar aos chefes as doenças que grassavam no sector, mas ninguém aparecia. Batíamos nas portas, gritávamos, mas ninguém aparecia. Estávamos reduzidos a bichos rastejantes.

No dia 22 de Dezembro de 1977, piorei. Estava a pressentir a morte. Pensei na minha família, nos meus queridos filhos. Os companheiros do sector (das quatro celas) decidiram passar à acção. Todos, 47 pessoas, pegaram nos pratos e começaram a bater nas portas (metálicas), ao mesmo tempo que gritavam “oficial dia, oficial dia”. Eram cerca das 23:30 horas. O barulho era infernal. Eu pensei que era o barulho da morte que ia chegando! Meia hora depois ouvimos alguém que gritou do corredor: “O que é que há? Parem já com este barulho que se ouve até no Porto”. Os companheiros que estavam mais próximos da voz, responderam: “estão aqui vários camaradas doentes e um que está muito mal”. “Morram, nós enterramos”, tornou a falar lá do corredor e nada mais se ouviu. Quem falou tinha ido embora. Alguns companheiros disseram: “se nos calarmos o kota Brito vai ‘baicar’. Já vimos que eles têm é receio do barulho que se ouve até no Porto; vamos continuar a bater e a gritar até que se oiça no Palácio”. E continuamos a bater nas portas e a gritar. Cerca da 1 da madrugada ouvimos abrir o portão do sector e alguém perguntou em que cela estava o doente muito mal. Abriram a cela onde eu estava e os colegas carregaram-me para o corredor. Vimos 3 militares e um deles com braçadeira de Oficial de dia. Um enfermeiro, de bata branca, debruçou-se sobre mim auscultou-me e disse: “camarada oficial dia, este camarada deve ser levado imediatamente para o Banco de Urgência do Hospital Militar”. O Oficial dia ordenou que eu fosse levado à enfermaria da prisão. Já na enfermaria o Oficial dia disse que não tinha competência para levar um preso do sector 2 ao Hospital, só com ordens directas do chefe Carlos Jorge. O enfermeiro tornou a dizer: “chefe, se este homem não for levado ao Hospital corre o risco de morrer. Precisa de ser visto por um médico. Ele está muito mal”. O Oficial de dia disse que ia telefonar ao chefe Carlos Jorge e explicar o que se estava a passar. Momentos depois voltou e disse que não conseguira localizar o chefe. “Nem sequer consegui localizar os chefes Veloso e Pereira. Não há nada a fazer. Dá-lhe uma injecção e vai para a cela”, disse o Oficial dia. O enfermeiro replicou: “se o preso morrer eu terei que informar que o camarada Oficial dia é que não quis levá-lo ao Banco”. “Bem, vamos com ele ao Banco”, anuiu o Oficial dia.

Foi assim que na madrugada do dia 22 de Dezembro de 1977 fui parar ao Banco do Hospital Militar, numa maca. Fui tratado por dois médicos cubanos. Depois de me aplicarem uma série de injecções, um dos médicos disse aos que me acompanhavam que eu tinha de baixar. Um dos militares disse que eu era um preso perigoso e não tinha autorização para baixar. O médico insistiu, mas o militar opôs-se resolutamente. O médico cubano anuiu e disse ao enfermeiro: “leva estes medicamentos e trate-o na enfermaria da prisão”. Deixaram-me em repouso durante umas horas.

Voltamos para a CR e puseram-me novamente no sector 2. Os companheiros de infortúnio gritaram: “assassinos, assassinos, fascistas”. Fiquei a saber pelos colegas que o enfermeiro que tanto me defendera para que eu fosse levado ao Hospital, era também preso desde 1976, por ter pertencido à FNLA(salvo erro, chama-se Sebastião Nkoko e presentemente trabalha na Clínica D. João III).

Os dias foram passando e eu permanecia na cela sem tratamento, nem sequer o que foi prescrito pelo médico cubano no Banco do Hospital Militar. Naturalmente, passados os efeitos do tratamento de emergência da madrugada do dia 22, as enfermidades continuaram a evoluir. No dia 29/12/77 piorei. Tal como da outra vez, os companheiros do sector fartaram-se de bater nas portas e gritar pelo Oficial de dia, mas ninguém apareceu. Foi uma noite terrível. Os colegas da cela revezavam-se para me porem de pé e me colocarem o nariz ao nível dos buraquinhos da vigia, para que eu pudesse respirar um pouco do ar de fora. Tremenda solidariedade. Já na manhã do dia 30/12/77, quando os guardas trouxeram o chá do matabicho (eles eram obrigados a abrir um pouco a porta da cela para nos entregarem a caneca com chá, que não cabia na abertura da parede por onde enviavam os pratos com comida) um dos companheiros forçou a porta e eu rastejei para o corredor. Tive a sensação de estar a ser pontapeado, mas a necessidade de ar puro e a atracção que a claridade do corredor exerceu sobre os meus maltratados olhos, que há muito tempo não viam o sol, deram-me forças suplementares para rastejar entre as pernas dos guardas. Alcançado o corredor, perdi a consciência. Recobrei os sentidos horas depois e encontrava-me deitado numa cama da enfermaria da prisão. Ao meu lado estava o mesmo enfermeiro de sempre. Um militar estava de guarda à porta da enfermaria. O enfermeiro explicou-me que tinha sido o chefe Veloso quem tinha ordenado que eu fosse levado para a enfermaria e que o enfermeiro tudo fizesse para me recuperar. A zona da enfermaria ficou interdita para evitar que eu fosse visto. Perguntei-lhe porque não me tinha feito tratamento desde o dia 22 e ele respondeu-me que não podia entrar no sector 2 sem ordens do chefe Carlos Jorge ou do chefe Veloso. À noitinha fui posto fui novamente posto na cela e encontrei uma surpresa: o chefe Veloso tinha entrado na cela 4 e vira as péssimas condições em que nos encontrávamos e ordenara que as portas das celas fossem abertas durante o dia e só fechar durante a noite. Com as portas abertas durante o dia já podíamos permanecer no pequeno corredor e arejar as celas. Ordenou também que nos dessem sabão. Esta medida salvou vidas, sem dúvidas. O mais importante é que a partir desse dia, tivemos a oportunidade de nos conhecermos pessoalmente todos os presos do sector. Cada um só conhecia, até aí, os que estavam na cela. O contacto entre celas era feito gritando. Foi um momento emocionante quando no dia seguinte cada um pode ver os companheiros de infortúnio. Muitos eram meus conhecidos cá fora.

Dia sim, dia não, o enfermeiro, acompanhado de algum militar, entrava no sector para aplicar-me injecções. Distribuía também alguns comprimidos a outros presos. Lentamente fui recuperando.

Nos primeiros dias do mês de Janeiro recebi um cesto com comida, fruta, leite, roupa, que a minha família me tinha enviado. A emoção foi tal que não aguentei. O meu sistema nervoso estava de tal forma destroçado que qualquer emoção obrigava-me a ficar deitado, com a cabeça aos rodopios. De 15 em 15 dias recebia um cesto da família.

Nos fins de Janeiro, uma vez por semana éramos levados à enfermaria onde recebíamos ligeiro tratamento. Quase todos carecíamos de tratamento hospitalar com assistência médica, mas o responsável da enfermaria dizia que nós, os do sector 2, não podíamos ser levados ao Hospital, por ordem expressa do chefe Carlos Jorge. Éramos considerados perigosíssimos. A prova disso é que só éramos levados à enfermaria ao anoitecer e mesmo assim toda a zona da enfermaria era interdita, ninguém podia passar por ali e os guardas postavam-se em sítios estratégicos.

Todos nós, os do sector 2, já tínhamos passado por experiências tremendamente dolorosas nas cadeias de S. PauloFortaleza de S. MiguelMorro da LuzMinistério da Defesa e na própria CR. Já havíamos sofrido torturas e humilhações, de todo o tipo, mas as celas do sector 2 ultrapassavam o razoável, era o máximo de violação de direitos de um ser humano. Até aquele momento (estávamos já em Fevereiro de 1978), continuávamos a não ter direito de apanhar sol, continuávamos 12 a 13 presos em cada cela, sem espaço para nos deitarmos, continuávamos sem mantas, continuávamos sem lâmpada nas celas, sem direito à assistência por um médico, enfim.

Mateus Paka, que se encontrava encerrado naquele sector desde fins de Junho de 1977, contou-nos que o Zé Mingas, o Kituadi, o Kipukuoficias da DISA, tinham estado neste sector 2 e foram levados no dia 31 de Agosto de 1977. Constou que são dados como desaparecidos. O Sidónio Borges “Kimingongo” tinha estado no Morro da Luz e contou-nos da “geleira”, onde praticavam a tortura de frio. Ele tinha sido metido numa sala climatizada onde o frio era tal que quase o ia matando. Quando o retiraram de lá, passadas 11 horas, tinha já os dentes cerrados. Cada um de nós tinha o que contar: uns amarrados como bois, outros levaram o “tripé” na cabeça (tortura mais bárbara que já vi). Neste sector o homem não era mais do que um bicho rastejante. As nossas ancas e nádegas pareciam de macacos de tanto nos deitarmos de lado e roçar no áspero cimento das celas. Nunca tínhamos visto um colchão.

Foi neste sector onde encontrei, pela primeira vez, dois presos que tinham participado directamente na intentona do 27 de Maio. Chamavam-se Ufolo e Gato Imortal, ambos oficiais da DISA e que conduziram o ataque à cadeia de S. Paulo. Conversei com eles, queria saber algo do que havia acontecido naquele dia. Um facto constatei: revolucionarismo e acima de tudo, infantilismo. Conversei com o Adriano Narciso “Ady” e perguntei-lhe como tinha ido parar ali. Disse-me que desde Agosto de 1976 que se encontrava na União Soviética como estudante de Economia. Nos primeiros dias de Julho de 1977 veio de férias e no Aeroporto de Luanda foi preso e levado directamente para a CR juntamente com toda a bagagem que trouxera (malas com roupa, objectos que comprara para a mãe e irmãos). Depois de ter prestado declarações foi posto no sector 2 até aquela data. Certo dia, no mês de Fevereiro, o chefe Veloso apareceu no sector e o Ady perguntou-lhe onde tinham metido toda a bagagem que trouxera da União Soviética. O chefe Velosorespondeu que tudo iria ser entregue à sua mãe (tenho informação do próprio pai que nada receberam).

22/Fevereiro/1978. Cerca das 18 horas dois militares vieram buscar o “Palhaço”, que foi funcionário da UNTA, o Sangooficial da DISA e o “Minguito”, um marginal que morou no Sambizanga. Levaram consigo as suas coisas.

Cerca das 22 horas apareceu no sector o chefe Carlos Jorge, aos gritos “todos para as celas, todos para as celas”, ao mesmo tempo que proferia obscenidades. Desde o mês de Julho de 1977, quando das torturas na cadeia de S. Paulo, que não via o chefe Carlos Jorge. Vinha acompanhado de um grupo de militares dentre os quais distingui o chefe Pitocode sinistra fama dentre os presos. Quando ele aparecia, dizia-se, era sinal de que alguém será levado para nunca mais voltar. O chefe Carlos Jorge postou-se no corredor e pôs-se a chamar uma série de nomes que lia de um papel que tinha nas mãos. Os que iam sendo chamados arrumavam as suas coisitas e postavam-se no corredor. Finda a chamada foram todos levados para fora do sector. Recordo-me de alguns nomes dos que foram levados:

– Gato Imortal, oficial da DISA

– Gato Vitória (GV-Mambo), oficial da DISA

– Ufolo, oficial da DISA

– Santos, oficial da DISA

– Mário de Carvalho (Marito), oficial da Guarda Presidencial

– Salvaterra (Salvex), oficial da DISA

– Costa (Malé), oficial da DISA

– Colombo, oficial da DISA

– Kibetu, oficial da DISA

– Azevedo, oficial da DISA em Ndalatando

– Carvalho da Ilha, oficial da DISA

– Adriano Narciso (Ady), oficial da DISA e estudante na URSS

– Sidónio Borges (Kimingongo), oficial da DISA

– Pestana Dias dos Santos, oficial da DISA em Mbanza Congo

– Gamaliel Gaspar Martins Jr. (Gegé), da DEFA

– Manuel do Espírito Santo (Nelinho), da DEFA

– Lelu, oficial da DISA

Recordo-me que à medida que ia chamando os nomes, gracejava. Por exemplo, ao chamar o “Malé” disse “meu primo por afinidade”; ao chamar o Gato Imortal, disse “tu e o Ufolo a partir de agora acabaram as aulas políticas”; ao “Marito” disse “filho do pastor”. Curioso é que se insurgiu quando viu o Ady sair descalço e gritou para os militares: “porque é que não arranjaram umas sandálias para este bandido”? O Ady saiu descalço, de calção e camisola sem mangas. Espirrava da incurável constipação. Durante os quatro meses que passamos juntos o Ady esteve permanentemente constipado e com tosse. Terrível.

Dia 20/Março/1978, o Paizinho foi libertado. Que alegria no sector. Eu fiquei muito feliz porque a minha família seria informada da minha situação através dele. 

Dia 23/Março/1978. Já passavam das 22 horas quando vimos entrar no sector o chefe Pitoco, acompanhado dos chefes Veloso e Jacaré. O próprio chefe Pitoco pôs-se a chamar alguns nomes aos quais disse para arrumarem as suas coisas. Todos os que foram chamados saíram do sector, escoltados pelos chefes PitocoVeloso e Jacaré. Recordo-me de alguns nomes dos que foram levados:

– Major Tonton, Chefe do Estado-Maior no Uíje

– Fernando Luís, procurador militar

– Eduardo, funcionário superior de seguros

– Kudikukila

– Lucas Simão, empregado da Guerim

– Gaspar da Conceição, Comissário Provincial do Kuanza Sul

– “Da Chica”, do Comissariado Político das FAPLA

No dia seguinte fomos informados, pelos homens que nos trouxeram o chá, de que do “outro lado”, isto é, noutros sectores da CR, também tinham sido levados muitos presos, dentre os quais o Vicente Fortuna e oPedro Santos. Da cadeia de S. Paulo tinham sido levados, para sítio desconhecido, muitos presos.

Continua…

Obs: a próxima publicação, será a parte final da carta. Brito Júnior, referencia que, de acordo com informação colhida na enfermaria, todos os presos levados no dia 22 de Fevereiro e 23 de Março de 1978 foram fuzilados.

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