ZOOM DA TUNDAVALA

Além de denominações que possam ser atribuídas às cidades, também há símbolos que as identificam e, sendo cartazes turísticos, as diferem umas das outras.
No Lubango, foi inaugurado, em 1957, o monumento de Cristo Rei, obra projectada pelo Eng.º Carlos Frazão Sardinha, e se localiza num dos pontos mais altos da Serra da Chela, a aproximadamente 2.130 metros de altitude. Desde então, tornou-se num dos principais pontos de atracção da cidade e, lá do alto, Cristo Rei abraça a cidade, como que a protegê-la de todos os males.
Durante muito anos, Cristo Rei estava lá, no alto, sozinho. Nada havia ao seu redor, nem nas proximidades mais próximas. Um dia qualquer, porém, entendeu-se que aquele era um ponto de elevada importância estratégica e, derepentemente, se instalou uma unidade militar, de defesa antiaérea, montaram-se cancelas e pronto. A partir dessa altura, ninguém mais ia ao Cristo Rei. Excepção, só para os militares e o pessoal das antenas que há por lá. Porque se transformou numa zona militar onde civis não podiam ir. Não fossem descobrir segredos, ou haver algum acto de espionagem.
Foi nessa altura, da importância estratégica para a defesa, que até se tentou, dizia-se, derrubar Cristo Rei, não bastasse ter sido crucificado. Porque naqueles tempos imperava algum sentimento anticristo, pelo menos nalgumas hostes da sociedade. E o monumento serviu para afinar a pontaria de alguns bravos guerreiros de cidade. Fazia-se tiro ao alvo, diz-se, também por “nuestros hermanos”. E nisso lá se foi uma parte dos dedos da mão esquerda do monumento, o nariz, e noutras partes ainda lá estão marcas de balas. Houve interferências da Diocese do Lubango, fizeram-se apelos, e lá se conseguiu que, com o advento da paz, se fizesse a restauração do monumento, embora as marcas das balas não tivessem sido removidas, para memória futura. E, assim, Cristo Rei não foi derrubado, voltou a vestir o seu manto branco, recebeu iluminação na coroa, desapareceram as cancelas, e a visitação ao lugar passou novamente a ser livre de barreiras. E como encanta ver o Monumento iluminado à noite… E como é bom admirar a cidade e arredores lá de cima.
O monumento voltou a ter importância como cartaz turístico. Houve quem se tivesse mesmo atrevido a construir um restaurante próximo dele mas, não passou da intenção, porque só lá estão os alicerces. Resselou-se a estrada que parecia um manancial de buracos e, mais tarde, ao estilo de Hollywood, até se botou lá em cima, aos pés de Cristo Rei, o nome da cidade, em letras garrafais e iluminadas, sem esquecer que aqui também se fabrica cerveja, para lembrar aos consumidores que, por estas paragens, é essa, e mais nenhuma.
Naquele antigamente da vida, lá para cima, não havia nada, a não ser Cristo Rei, a unidade militar, e umas pequenas propriedades agropecuárias mas essas, perdidas muito para trás da montanha. Bois e cabrada pastavam livremente. E quando se dizia “vou ao Cristo Rei”, ia-se mesmo ao monumento. Só!
Hoje não é assim. Quando se diz “vou ao Cristo Rei”, é porque se vive lá. Ou se trabalha lá. Aquilo cresceu. Construíram-se casas de habitação, instalaram-se negócios, há uma unidade hospitalar e até um Instituto Superior Politécnico. Veja-se. Há muita gente. Que não vai para lá a pé. Nem de burro. Seja para ir trabalhar, para ir dormir, ou simplesmente passear ao monumento de Cristo Rei, tem de ser de carro. Óbvio!
Hoje, subir ao Cristo Rei, é também um suplício que muitas vezes começa bem em baixo, porque o trânsito é infernal, caótico muitas vezes, perigos quase sempre mas, sejam moradores ou quem trabalha lá para cima, enfrenta, além da estreita estrada, buracos, qual deles mais perigoso que o outro, quais armadilhas à espreita de um apressado ou descuidado para lhe “fazer a folha”.
Cá de baixo, da cidade, continua-se a ver Cristo Rei, de braços abertos protegendo os seus habitantes e, por isso todos se devem sentir mais seguros. Mas, cá em baixo, também se abrem os braços e se clama:
– Oh Cristo, vem cá abaixo ver isto…
Silenciosamente, e sempre de braços abertos, Cristo pergunta também:
– Que culpa tenho eu com o que se passa aí em baixo? Vejam também como eu estou…
E como Cristo Rei continua de braços abertos, não se sabe se a apelar a que Lhe voltem a vestir o manto branco, se a pedir aos homens, “em Cristo”, que cuidem da estrada para que todos os que lá trabalham ou vivem possam ir e vir com mais segurança, se está a olhar simplesmente para baixo a constatar que a cidade não é só o asfalto, que há muito mais para além e por dentro dele.
A cidade precisa muito mais do que o abraço de Cristo Rei!











