POVO MARAVILHOSO (1)

JAcQUEs TOU AQUI!

JACQUES ARLINDO DOS SANTOS

Há dias em que a inspiração se afasta de nós e não há como superar situações embaraçosas. Principalmente as que envolvem compromisso. Estou há trinta anos comprometido com os meus leitores e não me sinto bem quando não encontro matéria para a minha coluna semanal.

Ainda pensei numa imitação a uma inimitável performance do grande Chico Anysio, revisitada há dias na internet. Tentarei por estes dias escrever uma crónica com palavras iniciadas por uma mesma letra. Ele conseguiu-o magistralmente com palavras, utilizando sempre a letra M. 154 palavras começadas por M, num monólogo sem repetição, é excelente, é obra. Exemplificando, majestoso manicómio. 

Posso adiantar que tentarei escrevendo, “magnatas manobrando milhões”. Pode ser que dê. 

Para hoje, e porque estou cansado de ler e ouvir coisas que me desagradam bastante, vou socorrer-me de uma passagem de um livro que conto lançar lá para Setembro ou Outubro deste ano. Tenho legítimas esperanças neste trabalho. Aqui vai um cheirinho, tirado ao calha no meio de trezentas e algumas páginas, sem cortes, com o meu sincero desejo de boa leitura:

“Chegou a hora de Celestial Dos Santos se revelar. O silêncio de Felizardo era convidativo.

Surgiram as imagens. Entre sonho e realidade, memórias de outros tempos. Ali estava ele, rapaz novo, carregando uma pesada pasta de cabedal. Cheia de discos de vinil, um monte de “pratos” de 33 e 45 r.p.m. Tinha na cabeça todos os títulos daqueles álbuns. Dos “gévês” às rumbas puras, incluíam clássicos como “Milionária”, conjuntos do nível do “Trio Matamoros” e vozes como a de Célia Cruz e Guillermo Portabales. Também se afirmava a música angolana, já se falava do Ngola Ritmos, dos Kiezos e dos Negoleiros. Impunham-se Urbano de Castro, Elias diá Kimuezo, Luís Visconde e mais alguns. Tentavam competir com os brasileiros, e entre esses destacavam-se Os Demónios da Garoa, Ataulfo Alves e Noite Ilustrada. Era um rico acervo onde se destacavam bandas americanas de rock e soul. O zouk de Guadalupe e Martinica, os imortais The Beatles, Jimi Hendrix e o novato Michael Jackson, também estavam lá. Celestial controlava um recheado armazém, uma discoteca de todo o tamanho e qualidade. 

Mas continuava com a velha tendência de precipitar-se. Só serenava em dias de tocar, nas sextas e nos sábados, algumas vezes nos domingos, quando dava assistência ao discotequeiro. Usava então a guayabera creme, dos cubanos. Estavam na moda aquelas balalaicas, com bolsos chapados em cima e em baixo. Já encomendara outra, azul clarinha, para revezar com a creme, já desgastada pelo muito uso. 

Entretanto, murmurava-se nos cantos sobre a famosa “Operação Carlota”. Notava-se uma dissimulada aproximação de alguns cubanos à nossa gente. Interferiam com discrição na vida dos angolanos. A esperança crescia. Acendiam-se os clarões que levariam à Independência Nacional. Enquanto isso, definiam-se as afinidades, as semelhanças nos comportamentos e até na inclinação musical. Sentia-se a sua aproximação às nossas vidas ansiosas. 

“Era de madrugada, ia raiando o dia” … o velho clássico de Bill Farr mexia com a sua estrutura. Tinha ritmo. Celestial assobiava o mexido samba quando chegou ao pequeno quarto de madeira, plantado em pleno Bê Ó, próximo da casa do Xodô do Ngola Ritmos. Arrumou cuidadosamente os discos e abriu a janela para arejar o aposento. Depois, deu mais uma olhadela à madrugada preguiçosa e comparou-a à ímpar aurora dos matos. Que saudade! Curiosamente, não se ouviam galos a cantar como na sanzala, embora aquela hora, quatro da madrugada, fosse a hora deles. Não se lembrava de ter escutado canto de galos, desde que chegara a Luanda, ainda era criança. Fechou a janela, acendeu o candeeiro a petróleo e iluminou o quarto. Sentiu o cheiro bem conhecido de rato morto, seco e apodrecido num canto, vítima do veneno comprado na Drogaria Ultramarina.

Ao lado, fazendo paredes-meias com o seu quarto, ficava o do mais velho Pio do Amaral, cada dia mais estrambelhado, dizia-se que estava avariado da cabeça. Rabujava sozinho, falava em voz alta para ninguém.

         — Qual a lei que me impede de magoar pessoas? Porra! Eu só faço o que me mandam fazer! — O cidadão parecia estar a justificar-se de qualquer erro cometido. Fez uma pausa longa, profunda, de suspiro bem audível. Suscitava a ideia da sua vida estar a caminhar para o fim. E continuou falando alto em tom enigmático — o Tavares foi morrer logo no dia 4 de Fevereiro, caraças, na verdade um dia chato pra se morrer. E o pior é que o seu nome ficou esquecido, não foi imortalizado como o dos outros camaradas — o homem espantava com os seus desabafos na madrugada — com este sol e sem transporte é como se eu também estivesse morto.

         — Sol a esta hora? Deve ter perdido o juízo — baixinho e entre dentes, sentenciou Celestial Dos Santos, no outro lado da parede de madeira, fazendo o derradeiro julgamento das palavras desconexas de Pio do Amaral.

Tinham passado breves minutos sobre a escuta clandestina. Celestial pôs-se a meditar sobre as cenas presenciadas na festa. Aquela família angolana mostrou ter bom nível de vida. Parecia gente de posses, certamente fazendeiros do Uíge. Um prazer imenso estar ao lado de mestre Zezito da Tita. Caramba! Só não compreendeu aquele gesto de mãos estendidas e lágrimas nos olhos, a agradecer a música! Para quê agradecimento, se lhes tinha custado, e bem, o serviço prestado? 

A música, a escolha dos discos, a sequência de ritmos, os momentos adequados, tudo feito a preceito. Era o seu trabalho, a sua paixão. Um vício adquirido! As festas e as farras eram uma bênção, mas também uma doença incurável. Como tinha sido maravilhoso apreciar as atitudes dos bailarinos no início de cada tema lançado! As palmas soando nas rodas de semba, os muxôxos de lábios contraídos a cada umbigada. Os hábitos da terra só se conheciam ao estar-se lá, saboreando o próprio ambiente. Os olhos ansiosos das moças a aguardar cavalheiro! O estilo dos pares, homens e mulheres, cada um puxando o máximo das suas habilidades, mostrando vaidades por cada passo original conseguido. E os inevitáveis grupinhos de homens cochichando, falando baixinho, os olhos desconfiados presos a murmúrios estranhos. Naquela festa tudo era diferente! As pessoas movimentavam-se à vontade, não havia gente suspeita, de quem se pudesse desconfiar. Mesmo assim, notou que se distribuíam disfarçadamente uns papéis por certos convidados.

         — Acho que eu vou fazer isto no resto da minha vida – Celestial preconizava já o futuro imediato.

Música, festas, diversão, eram, sem dúvida, as coisas de que mais gostava na vida. De fazer e usufruir da felicidade que vinha delas. Tornaram-se o seu trabalho e, também, a sua única fonte de rendimento. Tinha a certeza de que seria no exercício desse serviço que iria ganhar a vida no futuro, seria alguém na sociedade, dono da sua casa, do seu carro e das suas coisas, não teria necessidade de jogar à bola para ser famoso. Embalado nesse sonho, pensava constantemente em dinheiro, riqueza, namoradas, boas roupas, relógios, fios e pulseiras, tudo aquilo que fazia sonhar o povo.

Continuava o sonho de Dos Anjos. Calmo e sereno, apesar das emoções do filme exibido. Os restantes “Insatisfeitos”, embalados pelo mesmo sono, estavam como ele, tranquilos e atentos. Já se tinham apercebido da presença estranha dos personagens investigados. Notaram a paragem do automóvel, acordando para a realidade. Despiam-se das marcas de vidas velhas. 

A realidade era cruel. A marca do passado não os largava. As lembranças teimavam em não fazer esquecer a miséria de antigamente. A marca maior residia na sua consciência. Mostrava-se através de uma voz estranha, que lhe dizia, “a desgraça está lá fora, na rua, ainda fustiga muitos iguais aos que vocês eram antes”. Essa voz misteriosa, que parecia sair das profundezas da terra para ressoar nas suas mentes, ainda não era suficientemente forte.

Despertaram dos seus sonos. Ambos declaram juntos, “felizmente, a vida deu uma volta gigantesca a nosso favor”. Não podia ser doutro modo. Pisavam caminhos gloriosos do sucesso. Tinham conseguido e deviam estar gratos, eram vencedores. Cada um no seu lugar, louvava Nosso Senhor Jesus Cristo e agradecia a Deus a sorte de terem deixado de ser os flagelados do museke. Mas esqueciam o essencial. A sua sorte significava o sacrifício de muitos patrícios infelizes!” 

Por hoje é tudo. Poderá vir mais qualquer coisinha num dia destes.

Despeço-me dos meus leitores, dos parentes e dos amigos. Dos camaradas e companheiros de luta. Voltaremos a encontrar-nos no próximo domingo, à hora do matabicho.

Forte da Casa, Portugal, 31 de Maio de 2026

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