REFLEXÕES SOBRE O 27 DE MAIO DE 1977(3)

O TESTEMUNDO ARREPIANTE DE BRITO JÚNIOR

(PARTE I)

RAMIRO ALEIXO

Mateus Morais de Brito Júnior, também conhecido por Brito Júnior, falecido aos 9 de Setembro de 2022, vítima de doença, foi um, entre os milhares de angolanos detidos pela DISA (Direcção de Informação e Segurança de Angola, dirigida por Ludy Kissassunda e Henrique Santos Onambwê), aos 30 de Junho de 1977, na sequência do 27 de Maio, cerca de um mês após a suposta “tentativa golpista”, segundo argumentos do MPLA, e que foi poupado pela máquina assassina. O seu testemunho é arrepiante e demonstra a podridão que esteve por dentro dessa tenebrosa instituição, responsável por cerca de 30 mil mortos, a maioria dos quais ainda por encontrar, embora se tenha a consciência que parte deles, como os atirados ao mar, jamais serão entregues aos seus familiares para que tenham, no mínimo, um funeral.

Ao tomarmos conhecimento da prática de tantos horrores, perguntamo-nos como foi possível à direcção do MPLA depositar tanto poder nesse grupo de pessoas, que se tornou responsável por um dos maiores (se não mesmo o maior) crime de genocídio do continente africano? Como foi possível a prisão e o assassinato de tanta gente ser encarada (e ainda é) com tanta leveza ou normalidade? Como aceitar que alguém investido de alguma autoridade saia de noite de sua casa, munido de uma barra de ferro e de um martelo para torturar alguém que está preso e já foi torturado?

Foi por tudo isso, que o autor desta carta passou, sobreviveu e deixou o seu testemunho, para que se perceba a dimensão (se é que possa sequer ser calculada) do mal que nos inflingimos a nós mesmos. Provavelmente, teremos mais medo. Ou, provavelmente, teremos maior percepção de que o perdão e a reconciliação vai para além da retórica de quem afinal, não tem coragem de assumir que para ser perdoado e para poder reconciliar-se com o seu povo, deve reconhecer que foi responsável pela matança. E que não deve continuar a matar.

Brito Júnior foi levado ao fim da tarde do mesmo dia, 30 de Junho, para a Cadeia de S.Paulo por trás da Cidadela Desportiva, depois de buscas à sua residência. A partir do sétimo dia, começou a ser submetido a inúmeras e intermináveis sessões de tortura física, por ter lido fotocópias das “13 Teses em minha defesa  – de Nito Alves”. Passou também pela Casa de Reclusão, em Luanda, e daí foi transferido para o Campo de ‘Recuperação’ do Tari- Kibala (Cuanza Sul), provavelmente por não ser militar. Foi solto a 30 de Junho de 1979, decorridos dois anos, exactamente, no mesmo dia e mês em que foi detido. 

Referência do jornalismo angolano antes e no pós-independência, nacionalista ligado ao movimento clandestino de suporte ao MPLA em Luanda, Brito Júnior formou-se como jurista e exerceu as funções de ministro das Obras Públicas e Urbanismo (1992/1996), de vice-governador do BNA, de deputado à Assembleia Nacional pelo MPLA, administrador Não Executivo das Edições Novembro, bem como de professor.

Não sabemos quando iniciou, mas terminou a redacção da carta aos 18 de Julho de 1980, um ano após a sua libertação. E para além de ter endereçado ao  então ministro da Segurança de Estado, Lourenço Ferreira ‘Diandengue’ (1979/1980), substituído por Kundi Payhama que teve como vice-ministro Mariano Puku, endereçou cópias, ao Procurador Geral da República, Antero de Abreu (que substituiu Manuel Rui Monteiro), bem como ao Procurador Popular (que não conseguimos identificar, ficando a dúvida se não era Simeão Kafixi, que exerceu funções de secretário da Presidência para os Assuntos Militares).

No último encontro que mantivemos, cerca de um ano antes do seu falecimento, por doença, Brito Júnior confidenciou-nos que acabara de escrever um livro, a que não deu sequência porque sofreu intimidação de membros da direcção do MPLA. O medo de que exerceriam represálias contra membros da sua família, impediu o contacto com editoras para acertos da produção. Provavelmente, o mesmo medo persiste.

O conteúdo que se segue, faz parte da cópia integral da versão que o autor endereçou às entidades acima referenciadas. São no total 19 páginas no formato A/4 e letras dactilografadas no corpo 10. Para facilitar a sua leitura, decidimos dividi-la em pelo menos quatro partes, a primeira das quais é a que segue.

Ramiro Aleixo

Editor

AO

CAMARADA MINISTRO DA SEGURANÇA DE ESTADO

LUANDA

MATEUS MORAIS DE BRITO JÚNIOR, casado, de 40 anos de idade, natural de Bungo-Cambambe, Província do Cuanza Norte e residente em Luanda, filho de Mateus Morais de Brito e de Rosa Domingos, funcionário do Ministério da Construção, venho expor ao Camarada Ministro o seguinte:

Fui detido pela DISA no dia 30 de Junho de 1977, cerca das 17 horas, no meu gabinete de trabalho no Ministério da Construção, do qual era responsável da então Direcção Geral de Recursos Humanos. Era um grupo de 4 militares uniformizados e armados um dos quais, me pareceu ser o chefe, que se chamava Kikuto. Fui escoltado até a minha residência, onde procederam a uma busca. Como não encontraram o que procuravam, o chefe Kikuto perguntou a onde estava o livro das Teses de Nito Alves, que sabiam que eu possuía. Respondi-lhe então que não tinha tal livro mas que no princípio do mês de Janeiro tinha lido umas fotocópias com extratos das teses de Nito Alves, em casa de um amigo, de nome Paixão, funcionário da Rádio Nacional. Esclareci-o que naquela fase panfletária havia lido mais panfletos, que eram profusamente espalhados mas nunca tinha feito segredo disso e em diversas ocasiões, antes e depois das teses de Maio. Falei que os tinha lido, nomeadamente com o Comissário Provincial da Huíla Belarmino Van Dunem, em conversa no dia 17 de Maio, e quando estive com o Comissário Provincial Lopes da Câmara, também em conversa, quando em 18 de Maio estive em Moçâmedes em serviço com o Ministro Resende de Oliveira, com o Comandante Simeão Kafuxi em várias ocasiões (…) no dia 21 de Maio, com vários funcionários superiores do Ministério da Construção. Disse-lhe mais, que não via inconveniente em irmos à casa do Paixão vermos as tais fotocópias, as mesmas estavam sobre a (…) na sala de visitas quando lá estivera. Fomos então até à casa do Paixão, mas ele não estava e nem sequer entramos. Daí levaram-me para a Cadeia de S. Paulo e meteram-me na Cela B. Eram já cerca das 18:30 horas. Não me deram manta nem colchão. Passei a noite abraçado a um outro preso de nome Morais, que havia entrado umas horas antes de mim. O frio húmido era terrível. Na cela estavam cerca de (…) presos, inclusive os mercenários julgados em 1976. Estes eram os únicos que dormiam em beliches com colchões.

Dia 2/Julho/1977, cerca das 2 horas da madrugada, dois militares levaram-me para uma sala onde encontrei o chefe Kikutu, tendo ao seu lado o meu amigo Paixão (…). O chefe Kikutu mandou-me relatar em que circunstância eu lera as fotocópias das tais teses e assim fiz, pormenorizadamente. Voltou-se para o Paixão e perguntou se era verdade o que eu dissera e o Paixão confirmou. Deu-lhe então uma folha de papel para o Paixão confirmar por escrito. O chefe Kikuto disse-me que se o Paixão não tivesse confirmado (…), eu estaria em maus lençóis porque o facto de ter lido as teses era prova de que pertencia à rede dos fraccionistas, que só as distribuíam aos seus adeptos. No entanto, embora estivesse demonstrado que eu lera as fotocópias acidentalmente, só o chefe decidiria a minha sorte. Não me disse qual chefe. Posto isso, ordenou que me levassem novamente para a cela, onde passei mais uma noite a tremer de frio, no chão e sem manta.

Dia 7/Julho/1977, cerca das 10 horas, fui chamado por um militar que posteriormente vou a saber que se chamava OSVALDO INÁCIO. Levou-me para uma sala pequenina (nas traseiras da cozinha) mandou-me sentar em frente de uma mesa metálica, deu-me umas folhas de papel branco, uma esferográfica e disse: “Nós já sabemos as tuas actividades, a tua participação no fraccionismo. Tens 72 horas para escrever tudo que fizeste e tudo o que sabes. Só estás autorizado a escrever até aqui ao lado”. Saiu. Pus-me a escrever tudo quanto me recordava da minha vida. Às 22 horas nada mais me recordava e tinha escrito já 17 páginas. Cerca das 23.30 horas entrou na sala um 2.º tenente, acompanhado de mais 5 militares, de pistolas à ilharga. Observei-os quando se aproximavam de mim. E nenhum deles era meu conhecido. O 2.º tenente aproximou-se de mim e perguntou-me quem eu era. Respondi-lhe, calmamente, que me chamava Brito Júnior. Ao ouvir o meu nome deu um saltito e gritou, voltando-se para os outros que o acompanhavam: “aqui está o jornalista”! De repente (acto continuo ao grito do tenente) comecei a ser espancado. Os óculos saltaram-me do rosto (sou míope e uso óculos há 20 anos). As primeiras chapadas e socos foram tão violentos e inesperados ao ponto de cair da cadeira onde me encontrava assentado, para o chão, sendo aí mesmo pontapeado brutalmente. O próprio 2.º tenente obrigou-me a levantar-me e, enquanto um dos militares me segurava a cabeça, ele e os outros socavam-me o rosto e outras partes do corpo. Por duas ou três vezes atiraram-me contra a parede, caia, pontapeavam-me, levantavam-me, enfim, tornei-me numa bola ao sabor dos “jogadores”. Todos eles ululavam à minha volta e, enquanto iam espancando, o 2.º tenente proferia palavras obscenas intercaladas de “bandido fraccionista”“racista”“bufo da Pide”“vais pagar tudo o que escreveste contra nós”. Eu, aturdido pela violência dos golpes, sangrava abundantemente ia perdendo a noção do tempo e do espaço. Arrastaram-me para uma sala ao lado onde se encontrava o chefe Osvaldo Inácio e um outro militar da guarnição de S. Paulo, chamado Kanhangulo. Junto deles, sentado junto de uma mesa, estava um preso que posteriormente vim a saber que se chamava INÁCIO LALECA. De seguida o Laleca começou também a ser espancado e ambos (o Laleca e eu) éramos joguetes. O espancamento tornou-se brutal, selvático, as nossas roupas molhadas do sangue que jorrava dos ferimentos. O Laleca apresentava um lanho na cabeça donde jorrava muito sangue. O chão da sala também estava manchado de sangue. A dado momento, o já referido 2.º tenente forçou-me para a posição de ajoelhado e segurando a minha cabeça com violência, quase a tocar com a cara no chão, ordenou: “lamba, lamba, meu cão, tens de lamber toda a sala”. A minha cabeça estava meio zonza e por mais resistência que fiz não consegui evitar que a minha cara rocasse o chão. Sentia tudo a girar à minha volta e ouvia a voz insistente do tenente: “lamba, meu cão, lamba meu cão”. Dei-me conta de que estava mesmo, a lamber o sangue espalhado sobre o chão cimentado, o sangue que jorrou e jorrava do meu corpo e do meu colega de infortúnio, o Laleca. O 2.º tenente continuou a forçar-me naquela posição, segurando-me violentamente pelo pescoço. Eu agia como um autómato, parecia-me estar a viver um pesadelo. Quando o chão ficou limpo obrigaram-me a levantar e puseram-me sentado; dois militares, um de cada lado, seguraram-me os braços e obrigaram-me a colocar as mãos (espalmadas) sobre a mesa metálica que estava à minha frente. O 2.º tenente forçou-me a cabeça para baixo de modo a não poder ver as minhas mãos. De repente senti que me batiam sobre as mãos espalmadas com qualquer coisa contundente. Sentia dores terríveis e gritava, gritava, gritava. Nem sei se saiam sons da minha garganta! O 2.º tenente levantou-me a cabeça, olhou e disse, virando-se para os outros: “o gajo não tem lágrimas, dêem-lhe mais”. Senti-me levantado e de novo recomeçaram a espancar-me, passando de mão em mão, socos, pontapés, coronhadas de revolver. Reparei que o Laleca também estava a ser espancado. É impossível descrever as dores que sentia. Dá-me impressão nervosa só ao relembrar. Porém, não perdi totalmente a consciência.

Subitamente uns militares trouxeram mais 3 presos para a sala onde estávamos a ser espancados e as atenções voltaram-se para os recém-chegados. Eu e o Laleca fomos atirados para um canto da sala. Sentia dores terríveis em todo o meu corpo, a minha camisa estava empapada de sangue; pelo tacto apercebi-me que tinha a cara deformada, os olhos inchados. Os três presos acabados de chegar foram levados para a sala onde eu estivera. Ouvimos gritos e deduzimos de que também estavam a ser espancados. Passado momentos vi sair o 2.º tenente, acompanhado de 5 militares. O chefe Osvaldo Inácio também tinha desaparecido. Perguntei, a custo, ao Laleca (estava ao meu lado, gemendo, amarrotado, ensanguentado) se conhecia o 2.º tenente que dirigiu o espancamento. “É o chefe Carlos Jorge”, respondeu-me. “É o chefe das cadeias a nível nacional”, acrescentou. Estremeci de medo. O chefe Carlos Jorge tinha fama de entre os presos, fama de cruel. Nos 8 dias da minha prisão na Cela B contava-se muitas cenas do modo brutal como o chefe Carlos Jorge tratava os presos. Eu acabara de confirmar na carne e no espírito quem era o chefe das cadeias a nível nacional. “Estou entregue”, murmurei mentalmente. Ali, no canto da sala, eu e o Laleca continuamos ao sabor da soldadesca. De vez em quando entrava um militar, dava-nos uns socos e uns pontapés ou então umas coronhadas e ia-se embora. Assim ficamos até amanhecer, gemendo de dores e tremendo ao ver entrar alguém. Eu tremia que nem varas verdes. O sistema nervoso também não resistiu. Nem sequer senti sono. (Quero esclarecer que tive a sorte de entrar para a cela com o meu relógio; a conselho dos mais antigos escondi-o num bolsito e pude assim, em todas as circunstâncias e às escondidas, dar uma olhadela e saber as quantas andava).

Continua… com a parte II.

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