
Há sempre um plano. Sempre uma reforma. Sempre uma intenção. Angola não tem falta de ideias. Tem é uma relação complicada com a execução. Executar, aliás, só mesmo os discursos… e mesmo assim, com cortes e adiamentos.
Lá veio o Maio. Chega sempre com a mesma pontualidade quase insolente, como um funcionário público exemplar num continente onde a pontualidade, por vezes, é tratada como luxo importado, geralmente, financiado por um projecto que nunca saiu do papel, mas cujo relatório final já foi entregue, encadernado e com capa dura.
Maio traz promessas. Traz discursos requentados, reciclados e servidos com molho de “desta vez é sério”. É o mês em que África veste fato e gravata, fala bonito, cita números impressionantes e, no final, volta a guardar tudo na gaveta, provavelmente, a mesma onde repousa o famoso “plano estratégico 2000–qualquer coisa”.
Maio é mês de África. Mês de evocação, de bandeiras ao vento e de conferências com ar condicionado suficiente para congelar até as ideias mais quentes. Ali, entre PowerPoints luminosos e cafés protocolares, África é sempre potência emergente. Emergente há cinquenta anos, diga-se, numa emergência que nunca chega a dar alta.
Mas a pergunta insiste, como mosquito em noite quente: quo vadis África?
África responde com elegância: “Estamos a trabalhar”.
Tradução simultânea: ninguém sabe ao certo para onde vamos, mas o importante é parecer ocupado.
África caminha, dizem. E é verdade, caminha entre cimeiras luxuosas e bairros sem saneamento, entre discursos sobre integração continental e realidades onde atravessar uma fronteira ainda parece uma missão digna de filme de acção de baixo orçamento. Uma integração tão profunda que, em alguns casos, os países mal se integram consigo próprios.
E Angola? Ah, Angola… esse clássico africano que já devia estar na Netflix: “Promessas — Temporada Infinita”.
Até quando Angola? Pergunta-se, não com esperança, mas com aquele cansaço elegante de quem já ouviu a mesma história em várias versões. Angola é um país rico em recursos e ainda mais rico em justificações. Quando não é o passado, é o contexto; quando não é o contexto, é a conjuntura; quando não é nada disso… bem, há sempre um estudo em curso.
Aqui, o futuro é tratado como um convidado VIP: está sempre anunciado, nunca chega, mas ninguém tem coragem de cancelar o evento.
Há sempre um plano. Sempre uma reforma. Sempre uma intenção. Angola não tem falta de ideias. Tem é uma relação complicada com a execução. Executar, aliás, só mesmo os discursos… e mesmo assim, com cortes e adiamentos.
Maio, em Angola, é particularmente fascinante. Celebra-se África com entusiasmo, enquanto o quotidiano nacional se desenrola num realismo mágico digno de prémio literário: preços que sobem como foguetes, serviços que descem como elevadores avariados e promessas que flutuam, leves, como balões de festa depois do evento acabar.
Celebra-se a unidade africana, mas dentro de casa pratica-se uma fragmentação quase artística, social, económica e política. Uma obra-prima contemporânea: “Unidos lá fora, cada um por si cá dentro”.
E no meio disto tudo, o cidadão comum, esse verdadeiro atleta olímpico da sobrevivência, faz malabarismo entre promessas políticas e preços de mercado. Ele já não pergunta “quo vadis”; isso é conversa para conferência. Ele pergunta, com pragmatismo: até quando isto?
E ninguém responde. Ou melhor, respondem… mas em linguagem técnica, estratégica e suficientemente vaga para não comprometer ninguém.
África não precisa de mais diagnósticos. Já tem relatórios suficientes para construir estradas, ironicamente, estradas que continuam por construir. Precisa de decisões incómodas, dessas que não cabem em discursos nem rendem aplausos imediatos.
Angola, por sua vez, precisa de algo quase revolucionário: coerência. Sim, essa palavra exótica que raramente passa pela alfândega da prática. Coerência entre o que se diz e o que se faz, entre o que se promete e o que se entrega, se é que se entrega alguma coisa além de esperança parcelada em prestações sem juros.
Lá veio o Maio. Mais uma vez. Com a mesma coreografia, os mesmos discursos e, provavelmente, os mesmos resultados ou a elegante ausência deles.
Talvez este seja o ano. (Sim, nós gostamos desta frase. É confortável).
Talvez África saia do PowerPoint e entre na realidade.
Talvez Angola troque o ensaio pelo acto.
Ou talvez não. Afinal, a consistência também é uma virtude, e repetir erros com tanta disciplina já é, em si, uma forma de excelência.
Mas ainda assim… lá chegou o Maio.
E, entre uma sátira e outra, ainda há quem insista em acreditar, o que, convenhamos, é o acto mais revolucionário de todos.
Como é de praxe, um bom copo de chá de caxinde, faria um boomerang num fim de semana tão cinzento neste início do célebre mês de Maio, que nunca mais deu brilho de outrora nos trabalhadores.
*Menga-Ma-Kimfumu










