POVO MARAVILHOSO (3)

JAcQUEs TOU AQUI!

JACQUES ARLINDO DOS SANTOS

“Lute, acredite, treine. O segredo é não desistir”.

autor desconhecido

1 – Iniciou o Campeonato do Mundo de Futebol. Viva o mundial de futebol!  Com o futebol fui aprendendo, ao longo dos anos, que, para se vencer, é preciso união. Nada melhor simboliza a união que o desporto. O futebol em particular! Neste ano, buscam-se slogans de unidade num momento em que a união no mundo é precária, mera utopia. Entre os povos e as pessoas, como no futebol, surgem cada vez mais evidentes as grandes diferenças. Este Mundial de Futebol mostra nitidamente, em pequenos pormenores, essas desigualdades. Claríssimas no tratamento que se dá às várias selecções que disputam o torneio. Sem querer ser pessimista, penso que este Mundial vai ter um vencedor, terá de ter, mas, por variadíssimas razões, o futebol, o que mexe com as nossas emoções, este será irremediavelmente derrotado.

– Depois de duas semanas repletas de notícias coladas ao fatídico 27 de Maio, da revelação de factos desconhecidos, o público leitor angolano interessado em cultura, tomou conhecimento, primeiro, que, por motivo não muito bem explicado, na União dos Escritores Angolanos, se tinha rejeitado a apresentação de um livro do escritor Sousa Jamba, um autor com fortes ligações à UNITA. Uns dias depois, corrigiu-se a asneira – já que de tremendo disparate se tratava – e os mesmos leitores que espreitam notícias, tiveram a satisfação de saber que Sousa Jamba manteve um encontro cordial com os seus leitores-admiradores na sala nobre da emblemática instituição.  O acontecimento terá ocorrido esta semana que agora finda. O erro, se existiu, foi devidamente corrigido.

O momento e o gesto poderão ter servido para um sério aviso:  a instituição UEA tem nos seus princípios como primordial missão a defesa e a valorização, por todos os meios, da cultura e da literatura angolana e nunca a de assumir-se como qualquer comité de especialidade de partido político, qualquer que ele seja!

– Aos meus queridos leitores ofereço mais um excerto textual do livro que preparo. Desta feita, retirado do capítulo “Desassossego”:

“Era sábado e sentia necessidade de se apossar de verdades escondidas da vida da cidade amada. Atendeu o telefone e, quase sem pensar, resolveu integrar-se num grupo de amigos, umas famílias mais próximas que conhecidas, mas há muito afastadas. Estava em vista um bom fim-de-semana. Calhava mesmo bem. Tinha tudo para dar certo. Passadas umas horas via-se transportado numa cómoda viatura, um potente Jeep 4×4 todo-o-terreno. Alcançaram os “Quilómetros”, ultrapassando as “Palmeirinhas”. O convívio alegre, dava para matar saudades, a ausência era longa para alguns. Cantarolaram-se canções, trocaram-se abraços e deram-se beijos. Vieram conversas de ocasião, alguns aproveitaram para programar as próximas férias no exterior. 

         – Enquanto houver dinheiro a rolar, haverá sempre planos e planistas deste tipo. Para esta malta não há crise – na falta de alguém para comentar, não resistiu a falar com os seus botões. 

Fizeram um pequeno desvio. O asfalto da estrada desapareceu, bruscamente. Os saltos da viatura despertaram os sentidos de Dedé Felício que, logo a seguir, verificou que contactavam velhos pescadores da zona. Natos da Ilha do Cabo, vendiam no Cabo Ledo, também nos “Ramiros”. Eram profissionais de pesca costeira e de praia, tanto de rede como de linha. Tinham clientela certa para o pescado, marisco e choco raro. 

Perante a maravilhosa visão da paisagem e já com os sons da noite a perderem-se na areia da praia infinita, o jornalista recordou outros tempos. Noites fantásticas, maravilhosamente bem passadas. O culminar do dia e a visão do entardecer em fuga vagarosa, na altura em que tinha estreado a rede colorida, de estilo boémio, comprada numa feira no Recife. Foi quando conheceu o Brasil. Percorreu então o Nordeste, chegando até Olinda e Pernambuco, cidades bonitas, com becos e travessas, e até uma rua parecida com a sua, a Rua de Benguela, do Bairro Operário. A cama de rede foi usada já na praia do “Trinta e Sete”. Belos tempos eram aqueles! Passeava-se sem receios, havia segurança na zona. 

         – Hoje fazes de conta que és o Lampião, eu sou a Maria Bonita! – A falecida Rita da Titi brincava, estirando-se na rede, as pernas altas penduradas, convidando Dedé Felício para o cangaço.

A rede era chamativa, causava alguma inveja, pintada de cores garridas e de grande dimensão. Puxava pelas ideias da falecida, que era pessoa instruída, lia Jorge Amado e fazia perguntas sobre os “Subterrâneos da Liberdade”. Ela gostava muito, estremecia de alegria ao deitar-se naquela rede. Ah! Como era exuberante nas suas manifestações! Ria-se nervosamente quando certificava que os dois cabiam no seu bojo, bem abraçados. Enroscava-se toda em modos sertanejos, mostrava os olhos a brilhar, loucos de amor, sempre assim gulosos, desde os primeiros dias de namoro. Coitada da Rita. Não merecia morrer como morreu, assassinada estupidamente no Lobito, na guerra de 1992!

As senhoras do grupo, parentes e comadres umas das outras, falavam entre si, trocavam impressões sobre a qualidade dos talhos onde se abasteciam na cidade. Avaliavam as casas de frescos e os supermercados. Todas elas se incluíam na lista dos seus habituais clientes. Pertenciam ao clube dos que estavam podendo. Mostravam boa capacidade para suportar os preços em vigor no mercado dos produtos de marca. 

         – Eu não aguento o preço destes vinhos – Dedé Felício desabafou ao primo Luisinho da Nharêa, quando este fazia alarde vaidoso das marcas que levava a gelar na caixa térmica, para regar convenientemente o fim-de-semana.

         – Ó parente, se não podes, não passas de um falhado, um “merdas”. Desculpa lá dizer-te isto – Dedé Felício fez olhos de quem não acreditava no que ouvia – estás a admirar-te porquê? Sabes por acaso quanto cai no cartão de despesas de um Ministro ou de um Secretário de Estado? Andas aonde meu irmão?

         – Devo andar mesmo distraído. Esqueces que não sou nem serei nunca Ministro? – Dedé Felício fez reparo ao primo abusador, mas não causou qualquer efeito no indivíduo.

Com certo cuidado, foi-se afastando daquela gente. Passou o resto do dia a recordar a cena. Pôs-se a pensar no que via e nos palavrões que ouvia. Estava mesmo muito distante desse tipo de convívio. Afinal, as coisas tinham mudado muito. Confraternizavam com a melhor das intenções, mas a maioria dos participantes estava indiferente ao que se passava à sua volta. Era gente bem de vida. Naquele grupo, para além de duas domésticas, estava um mecânico com nome, dois camionistas de boa frota, uma economista com bom posto em banco privado e um oficial superior da polícia. Distinguiam-se por pormenores. À excepção das crianças, eram pessoas gordas, bojudas, de barrigas grandes. Arrotavam e descuidavam-se nos gases que expeliam. As gorduras dificultavam, não deixavam ver o que se passava em seu redor. E, por sinal, ali à volta e bem perto, passava-se muita coisa desagradável, que cheirava mal. 

O rádio da casa de praia sintonizou um debate político. Com convidados de peso. Descobriam-se cada vez mais insatisfeitos na sociedade sonhadora. 

         – Esta malta só sabe criticar – comentou o primo Luisinho da Nharêa, visivelmente chateado com o que ouvia. Recebeu, de imediato, o aplauso do gordo oficial da Polícia.

         – Não querem ouvir novidades da maka dos combustíveis? – Perguntou a mulher do camionista.

         – Desliga essa merda! – Ordenou o mecânico, dono da casa de praia, visivelmente chateado.

Não deu tempo sequer a que Felício avaliasse a matéria dos corajosos jornalistas em serviço. Era um trabalho mal-aceite por esse tipo de gente. Estavam a leste do que era transmitido, em directo, era matéria que punha nos devidos lugares os míopes defensores de causas perdidas, os eternos “lambe-botas” que contrariavam, diariamente, o lado errado da vida, defendendo as suas damas de eleição.

         – Só à cacetada! – Desabafou o polícia que, sem ouvir a opinião de mais ninguém, desligou a emissão radiofónica.

Marcava bem a sua posição, enviando recados mudos a quem ousasse contestar. Era a imagem da força, da diferença de pensamento. Até a mulher ficou espantada. Ora, não é preciso ser tão bruto, ainda disse ela. 

         – O que pensará o primo Adérito? – Sem coragem para falar alto, comentou para ela mesma, olhando de esguelha Dedé Felício. Não escondia o pequeno laço de parentesco existente entre eles. 

O jornalista, embora em interior estado de fúria, resignou-se, não havia remédio. Os tipos não queriam saber ou fingiam desconhecer como andava a vida dos outros no País. Não se incomodavam com o que passava o povo.

Suspirou profundamente. 

Depois, foi segredando a si mesmo. Eles querem lá saber que se fabriquem parlamentares de pacotilha e exerçam funções ministros feitos à pressa, que surjam pequenos ditadores em formação, daqueles que começam cedo a mostrar apetências de ser rico e ter atitudes de quero, mando e posso. Desses tipos é que eles precisam! 

Olhou para o polícia e viu que ele sorria. Oh, gente! O que fizemos para merecer tal sorte?!”

Fiquemos por aqui. Cumprimento, como habitualmente, os meus estimados leitores, os parentes e os amigos, os camaradas e companheiros de luta. Até ao próximo domingo, à hora do matabicho.

Forte da Casa, Portugal, 14 de Junho de 2026 

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