BENGUELA. O DOMBE GRANDE, O SONHO DO SANSÃO E OS JACARÉS

SAMPAIO JÚNIOR

Viajar pelo Dombe Grande é sempre uma oportunidade para redescobrir lugares e pessoas que fazem do trabalho uma arte, e do empreendedorismo uma verdadeira magia. Já lá vão alguns anos desde que tive o privilégio, tão agradável quanto arrepiante, de conhecer o jovem Sansão, um empreendedor de mão cheia que, num cenário montanhoso de rara beleza, decidiu dedicar-se à criação de um dos mais temíveis répteis do planeta: o jacaré.

A agricultura sempre foi a sua grande paixão e como hobby familiar, ligou-se a fauna exótica. Chegou a ser um dos principais produtores de manga e de banana. Mas o espírito inquieto e a vontade de inovar, levaram-no a sonhar mais alto. Foi assim que, nas encostas das serras do Dombe Grande, nasceu uma criação que impressionava qualquer visitante. Ver cerca de cinquenta jacarés reunidos num único espaço era uma experiência capaz de provocar admiração e alguns arrepios.

O sonho daquele jovem ia além da simples comercialização dos animais. A sua visão era transformar aquele pedaço de terra num centro de turismo e lazer, enriquecido com várias espécies de animais ferozes, algumas das quais poderiam ser adquiridas na Namíbia ou no Botswana. Era uma ambição ousada, movida pela convicção de que a valorização do território e dos seus recursos, podia criar oportunidades para a região.

Em muitos países, a carne de jacaré é considerada uma iguaria. Seguindo a lógica da valorização dos produtos locais, a gastronomia angolana poderia, quem sabe, encontrar sabores e técnicas próprias assentes na qualidade e na proximidade da matéria-prima. Eu próprio fui desafiado, na África do Sul, a provar carne de jacaré. Confesso que a curiosidade existiu, embora os meus encontros com aqueles animais fossem mais de contemplação do que de gastronomia.

Os jacarés eram comercializados para vários interessados e não eram poucos os que se deslocavam ao Dombe Grande para concretizar negócios. Era a prova de que, mesmo longe dos grandes centros, o engenho e a perseverança continuavam a abrir caminhos. 

O Dombe Grande sempre foi uma terra singular. Um refúgio onde se cruzam património, hospitalidade e séculos de histórias. Famosa pelas narrativas de feitiçarias poderosas e pelo imaginário popular repleto de mistérios e lendas, a vila conheceu também tempos de prosperidade graças à produção da cana-de-açúcar. Foi, igualmente, ali que teve lugar a primeira peregrinação do profeta Simão Toco no sul de Angola. Mas essa é outra história, que talvez mereça ser contada noutra ocasião.

Terra de contrastes, de beleza estranha entre o semi-deserto e praias quase secretas, o Dombe Grande é rasgado pelo rio Coporolo que, sempre que São Pedro abre as torneiras do céu, recorda aos dombenses a sua força indomável. As cheias fazem soar alarmes e despertam, por momentos, a atenção do poder instalado em Luanda, ainda que sem as habituais viagens de helicóptero presidencial.

Numa dessas peregrinações, tive a felicidade de ser acompanhado por um dos melhores fotógrafos de Benguela, o inesquecível Tonguinha. Ainda hoje guardo a sensação de espanto e respeito ao contemplar aqueles mais de cinquenta bichos confinados nas suas jaulas. Eram imagens difíceis de esquecer, como difíceis são de esquecer os homens que ousam sonhar diferente.

Talvez muitos dos sonhos daquele jovem não tenham conhecido o desfecho que ele idealizou. Mas o valor do empreendedorismo mede-se, muitas vezes, não apenas pelo sucesso alcançado, mas pela coragem de tentar abrir caminhos onde outros apenas viam obstáculos.

E assim permanece o Dombe Grande, envolto no seu manto de mistério, entre as águas escuras do Coporolo e o respirar distante do mar. Um lugar onde o horizonte parece ter esquecido o próprio nome e onde todas as perguntas acabam por regressar ao mesmo silêncio luminoso de onde nasceram. Um lugar que continua a despertar memórias, nostalgias e a esperança de que, nas terras aparentemente mais improváveis, também florescem os sonhos mais extraordinários.

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