DIA-A-DIA NA CIDADE (4)

JAcQUEs TOU AQUI!

JACQUES ARLINDO DOS SANTOS

Por favor, chamem-me os nomes que quiserem, mas não me chamem palerma. Pelo que tenho observado, é realidade que a maioria dos responsáveis deste país, comunica pouco ou quase nada e, normalmente, mal.

Há dias em que não se tem disposição para nada. Até escrever é uma maçada! Principalmente, por não se conseguir escrever o que no fundo se pretende. Retratar mais fielmente este estonteante quotidiano. Perco o ânimo ao constatar que as cenas se repetem tristemente nos mesmos palcos, com o público habitual a presenciá-las. Não sei porquê, parecem-me retratos tristes e repetitivos, por vezes semelhantes à tristeza do futebol que o meu Benfica apresenta esta época, semana após semana. Em casa e fora de portas! 

Acontece-me isso, principalmente naqueles dias que se abrem brechas à circulação das mais variadas notícias. Qual delas a mais louca, a mais bárbara ou esquisita. Transitam algumas verdadeiras no meio dos inúmeros mujimbus. Quer os de casa, quer os do mundo em geral. “Foi descoberta na bacia do Kwanza a maior reserva de petróleo do mundo! Angola vai superar a Venezuela e a Arábia Saudita!” Só nos faltava essa! O preço do petróleo sobe e os produtores exultam. E os consumidores? Pergunta-se. Que se lixem os consumidores!

O Presidente americano Donald Trump grita aos quatro ventos que vai eliminar o mundo islâmico! Atoarda ou coisa séria? Verdadeiras ou não, boas ou más, há notícias que perturbam mesmo, enquanto outras nos surpreendem seriamente. A fome e o desemprego continuam a fazer vítimas em Angola. Esta é verdadeira! Uma das últimas, veio na semana passada com marca da morte. Chegou para anunciar a hora de António Lobo Antunes. O médico e genial escritor português, autor de “Cus de Judas” e outros títulos de referência como “As Naus” e “Memória de Elefante”, seguiu, sem avisar ninguém, para o reino de Kalunga-Ngombe. A propósito do infausto acontecimento, o Fernando Oliveira referiu, num breve escrito, que ele não morreu. Eu também acho que não! O seu xará, meu amigo Karipande, afirmou que não aprecia muito a sua obra. Admite, contudo, que gostou de ler um ou dois livros de Lobo Antunes. Fez-me lembrar o velho adágio. Que seria do amarelo se só gostássemos do verde? Há leitores exigentes, do género do meu amigo Fernando, tipos inflexíveis, obstinados. Para mim, Lobo Antunes ficará para sempre entre nós, porque era dos melhores da língua portuguesa. Pelo mérito do seu trabalho e por ser também — Fernando, desculpa lá qualquer coisinha — assumido e fervoroso adepto do meu Benfica. 

Agora que já virou saudade, resta aos seus muitos admiradores, preservar bem a bela obra que deixou.

O que seríamos nós sem livros? O momento impõe a pergunta. O que seríamos nós sem escritores, sem os do nível e estatuto do falecido? Goste-se muito, pouco ou nada do que escrevem, acho que o mundo ficaria muito mais pobre sem eles. 

De repente, volta-me a vontade de escrever. E por instantes, vejo-me a imaginar os angolanos, sem terem conhecido ou lidado, sequer ouvido falar dos seus escritores mais brilhantes. Como estaríamos sem Agostinho Neto, Viriato da Cruz, Luandino, Pepetela, Alda Lara, Arnaldo Santos, Ana Paula Tavares? E todos os outros que enveredaram pela aventura da escrita? Sem o convívio com essas figuras notáveis e com as suas obras, seríamos o quê? Não sei, mas acho que não seríamos nada! 

Porque levantei esta questão? Neste momento já me apetece escrever. Por essa razão, vou agora, talvez com alguma ligeireza, fazer uma abordagem que não será, de todo, agradável. Na verdade, há dias assim, que não devíamos sair de casa. Não pensei previamente neste caso, como não pensei estar aqui hoje a falar de livros e escritores. Aconteceu apenas, por acaso. Mas, afinal, a maka acaba por vir a propósito. Tentarei explicar. 

Sigo, há algum tempo, talvez sem muita lógica, mas muitas vezes, uns contornos interessantes sobre a escrita e quem escreve. Neste caso, será mais por quem não escreve. Tem a ver com uma exigência que faço há anos a mim próprio e que, devo admitir, faz todo o sentido. É, como se pode calcular, do domínio dos livros, da escrita e da leitura. Tenho consciência que não é fácil abordar essa questão, já que a considero delicada, volto a referir. 

Vou directamente “aos finalmente”. Mas, por favor, chamem-me os nomes que quiserem, mas não me chamem palerma. Pelo que tenho observado, é realidade que a maioria dos responsáveis deste país, comunica pouco ou quase nada e, normalmente, mal. Não é novidade que os muhata da terra, quase nunca utilizam a palavra escrita, e da dita, usam-na, quantas vezes precariamente, só para ler relatórios em momentos-chave e nos quais enaltecem, regularmente, a obra que é conseguida sob sua ordem. Fazem-no ao tentar sensibilizar ou contrariar o povo, este na sua crítica cada vez mais mordaz e acutilante.  

Sinceramente, não era isso que eu gostaria que os nossos dirigentes fizessem! Talvez não constitua mero acaso eu estar aqui hoje com este palavreado. A atrever-me a vir aqui, ao alto deste palanque, para chamar à razão de quem de direito, mas falando bonito, pelo menos julgo eu. Para lhes dizer que comunicar é um acto muito sério e indispensável a quem governa, nos dias que correm! Saber fazê-lo é crucial. Digo isso, e não deixo de perguntar-me. Mas o que é que tenho a ver com isso? Isso aquece ou arrefece o ambiente que nos cerca?

Vem lá do fundo uma voz receosa que me diz, tem sim, tem a ver sim, e aconselha-me. O assunto é importante, esse aspecto particular da governança, é mesmo coisa séria, para ponderar e discutir. Mas é obrigatório que os governantes escrevam? Não, necessariamente, mas é primordial que falem, dialoguem com o povo. E podem fazê-lo, escrevendo! 

Vou mais adiante dizendo que não aceito que se comunique com a população com o desplante e do modo tão efémero como se faz. Não invento nada, porque o que digo é público e notório. Os que devem falar, apenas o fazem em discursos obrigatórios, diálogos de ocasião, em inaugurações e momentos solenes. Pouco mais do que isso. É lógico que insista na afirmação, camaradas! A palavra, dita ou escrita, é pouco utilizada e quando ela se faz presente, não visa o interesse público, não questiona, e a opinião da sociedade passa ao lado. Não se dá conta das necessidades mais prementes do povo, nem explica convenientemente formas de as suprir. 

Falando mais verdade, não se leem artigos de opinião em jornais ou revistas, subscritos por ministros ou outros responsáveis. Pouco ou nada se dialoga através desse método, tão importante para a formação da opinião pública e do debate de ideias, muito comum noutros países. Falar com ou para a população é, afinal de contas, falar com os eleitores.

É pois, na constatação deste fenómeno que me vejo com uma inspiração diferente. Que me leva à triste conclusão de estar com a minha razão noutras certezas.  Tentarei, novamente, explicar o melhor que posso. 

Há muita gente incapaz e inconveniente a movimentar-se em áreas decisivas do aparelho do Estado e do funcionalismo público. Algumas dessas pessoas até exercem cargos de responsabilidade. Agrava-se a situação, por se insistir na permanência desses funcionários que não conseguem superar naturais défices de ignorância, não obstante a sua convivência com pessoal qualificado. Vem novamente a questão da escrita e da leitura, porque vejamos.

Os ofícios e a normal correspondência saída de certas repartições e gabinetes, denunciam um quadro miserável. É por demais sabido que só escreve mal quem não lê o suficiente, ou não sabe o que lê, um facto que preocupa ainda mais. Dito isto, insisto na exigência. Não deviam estar em certos lugares indivíduos que não conseguem escrever o essencial. É muito mau não se escrever nada que valha a pena, ou seja, não se escrever coisa nenhuma. Mesmo que se salvem as excepções que vão fazendo a regra, não deixa de ser preocupante o facto de entre os responsáveis do nosso país, rarear gente com obra escrita, de qualidade, que ateste a sua capacidade e justifique o cargo que ocupa.

Volto ao que disse anteriormente para reiterar. As comunicações chegam com pouco impacto aos cidadãos, transformam-se em palavreado repetitivo do qual pouco resulta, constituindo, na maior parte das vezes, enormes pechas, alguns desastres mesmo! Talvez esteja aí a verdadeira causa das insuficiências que promovem a desconfiança que se tem em relação a quem gere a res pública, a coisa do povo. Sabemos como a confiança popular é tónico indispensável, absolutamente necessário para quem dirige. Essa confiança conquista-se com comunicação. Todos nós queremos, precisamos de saber o que podem ou são capazes os que conduzem a máquina do serviço público.  Se continuarmos a não querer entender essa necessidade para tentarmos diminuir o elevado índice de incapacidade que consentimos, corremos sérios riscos de sermos pouco menos de um nada absoluto.  

O dia-a-dia na cidade, não é apenas o movimento febril do povo nas ruas e nos becos. Também inclui esta faceta que requer observação. Não estava disposto a escrever, mas escrevi. Esperando que tenham apreciado, fico por aqui, caros camaradas, compatriotas, amigos e companheiros de luta. Prometo voltar ao vosso contacto, no próximo domingo, à hora do matabicho.

Luanda, 22 de Março de 2026

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