RENOVAÇÃO NA PIMPA, VELHOS VÍCIOS NO PODER

SAMPAIO JÚNIOR

Uma nação não se renova apenas trocando palavras. Renova-se quando troca práticas. Renova-se quando troca vícios por princípios. Renova-se quando a justiça deixa de ter dono e passa finalmente a ter coragem.

No discurso de 13 de Dezembro de 2025, proferido no Kilamba por ocasião do 69.º aniversário do MPLA, João Lourenço declarou que o próximo candidato às eleições gerais não poderia estar “mais cansado” do que ele próprio. Falou-se de renovação, de juventude política, de sangue novo, de rostos frescos capazes de carregar o partido e o país para um novo ciclo.

Mas o discurso acabou por ‘chover no molhado’. Em política, como no rio, o peixe-bagre raramente se apanha em águas limpas. É no lodo turvo das conveniências, dos jogos de bastidores e das contradições que ele se deixa capturar. Fala-se de renovação, mas continuam a pescar-se as mesmas figuras no velho charco do poder.

Por que, na prática, o próprio presidente surge novamente como candidato à liderança do MPLA, deixa uma pergunta inevitável no ar: onde fica afinal a tão proclamada renovação? Onde está a coragem de abrir verdadeiramente espaço para novas ideias, novas vozes e novos protagonistas?

A política angolana parece viver num eterno teatro de mudanças, onde as exonerações sucedem-se como actos de uma peça mal explicada, raramente acompanhadas das verdadeiras razões. 

O caso de Higino Carneiro é revelador do ambiente que se vive. Desde que decidiu avançar para a corrida à presidência do MPLA, a Procuradoria-Geral da República passou a caminhar-lhe na sombra como fiscal atento. Em Angola, a coincidência política tornou-se uma arte demasiado previsível.

O que hoje se vive no país não é apenas uma crise política. É, sobretudo, um lento desabamento moral das instituições. O cidadão comum sente-se órfão da justiça, enquanto os verdadeiros predadores do erário continuam a circular com a tranquilidade de quem conhece os atalhos do sistema.

Criou-se uma engrenagem perigosa, alimentada pelo conluio entre interesses públicos e privados. Uma espécie de pacto silencioso entre os “donos-disto-tudo”, onde cada mão lava a outra e o silêncio vale mais do que qualquer discurso patriótico. A lógica é simples: protege-me hoje, que amanhã protegerei os seus.

E assim, há cinquenta anos, o país assiste o mesmo espectáculo cansado, recursos públicos desperdiçados, má gestão transformada em rotina, impunidade vestida de autoridade, investigações judiciais usadas como cortina para travar esclarecimentos parlamentares.

Entretanto, quem ousa questionar o sistema ganha rapidamente um lugar na velha “sebenta da desconfiança” do sistema político. As opiniões passam a ser vigiadas, as redes sociais observadas como território inimigo, e muitos cidadãos vivem com a sensação de que uma simples crítica já basta para carregar uma cruz invisível às costas.

A perseguição política em Angola deixou de ser murmúrio de esquina, para se tornar percepção colectiva.

O mais doloroso é que, enquanto os patriotas são frequentemente tratados como incómodos, os corruptos continuam a mover-se com espantosa leveza, como pássaros habituados à tempestade. 

O povo, esse, permanece encurralado entre promessas antigas e bolsos vazios. Mas não se iludam os que pensam que a memória colectiva adormece com discursos. Como dizia o velho sábio: “O povo sabe, o povo também viu”. Viu as promessas repetidas em cada campanha, viu a fartura de poucos contrastando com a miséria de muitos, e aprendeu a distinguir palavras lançadas ao vento de mudanças que realmente chegam à mesa do cidadão comum.

São cinquenta anos de abundância para poucos e escassez para muitos. Cinquenta anos em que a fome aprendeu o caminho das casas humildes e a pobreza ganhou raízes fundas nos bairros sem esperança.

Angola não precisa apenas de discursos sobre renovação. Precisa de uma limpeza profunda na cultura política, na justiça e na forma de governar.

O país clama por instituições que não escolham alvos pela cor partidária, por tribunais que não se ajoelhem diante do poder e por governantes que sirvam o povo em vez das rodas fechadas de amizades convenientes.

Porque uma nação não se renova apenas trocando palavras. Renova-se quando troca práticas. Renova-se quando troca vícios por princípios. Renova-se quando a justiça deixa de ter dono e passa finalmente a ter coragem.

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