ANGOLA: ELITE DE MÁRMORE, CIPAIOS MODERNOS E O POVO REAL

CARLOS GOMES NGONDI SUCAMI*

O povo angolano não odeia os seus dirigentes. O povo só quer proximidade, respeito e verdade. Quer sentir que quem governa também sente a dor da gasolina cara, da escola sem carteira, da água que não chega e da juventude sem oportunidade.

Angola é mesmo um País especial. Aqui o povo xinguila, dribla a vida todos os dias que nem um Cristiano Ronaldo, dança, ri e ainda arranja força para dizer: “Estamos a andar…”. E estamos mesmo. Só que ninguém sabe exactamente para onde.

O problema é que existe uma certa elite nacional que já não anda no mesmo chão que o povo. Aquilo já é outro campeonato. O cidadão está na candonga da sobrevivência; eles estão no campeonato internacional do mármore, do protocolo e do “Excelência para cá, Excelência para lá”.

O cipaio antigo batia continência ao colono. O moderno bate continência ao cargo. Só mudou o perfume.

Hoje o camarada não diz: “Sim patrão”. Agora diz: “Conforme orientação superior”. É o mesmo espírito. Só trocaram a farda pelo fato slim fit de Louis Vuitton.

Essa elite gosta muito de falar de patriotismo, mas quase todos os filhos estudam fora. Quando chega Setembro, Luanda fica vazia de herdeiros. Parece evacuação diplomática. O discurso é sempre bonito: “Temos de acreditar no País”. Mas os próprios não acreditam nem na água que bebem cá.

O povo é que continua firme. O angolano já não vive; o angolano “desenrasca”. Já somos doutorados em improviso. Se faltar luz, inventa-se gerador. Se faltar água, chama-se o candongueiro da cisterna. Se faltar salário… pronto… aí já entra oração, jejum e música do C4 Pedro.

Enquanto isso, há dirigentes que falam da pobreza como quem comenta resultado de futebol: “A situação social inspira atenção”. Inspira atenção? Meu irmão, o povo já está a fritar sem óleo há muito tempo.

Mas a nossa elite de mármore vive calma. Muito calma. Tão calma que parece estar sempre em ar-condicionado espiritual.

E gostam muito de reuniões. Angola é talvez o único País onde se combate problema criando comissão atrás de comissão. Quando o povo pergunta: “E então”? Respondem: “O Executivo está empenhado”. Empenhado em quê? Só Deus e o protocolo sabem.

Há camaradas que passam mais tempo em conferências internacionais do que no Município onde foram nomeados. Conhecem Bruxelas melhor do que o Sambizanga. Alguns até já perderam o sotaque.

Falam assim: “Precisamos repensar os paradigmas estruturantes da governação inclusiva”. Traduzindo para português de praça: “Não temos mínima ideia do que estamos fazer”. E o povo? O povo já percebeu tudo.

Em Angola, o cidadão comum virou especialista em detectar conversa fiada. Basta ouvir: “Estamos criar condições…”.Pronto! Já sabe que não vem nada.

Mas também não podemos viver só de gozar. Há coisas que precisam mesmo mudar. Angola precisa menos de bajuladores profissionais e mais de gente competente. Menos “yes boss” e mais pessoas com coragem de dizer: “Camarada, isso não vai funcionar”. Porque hoje há muito dirigente rodeado de lambebotas premium. O homem pode dizer que o jacaré voa e ainda aparece um assessor: “Exactamente, Excelência. Depende apenas do enquadramento estratégico”. Assim não dá.

Precisamos valorizar quem trabalha de verdade. O professor, o médico, o jovem empreendedor, a zungueira que acorda às quatro da manhã enquanto certos chefes ainda estão no terceiro ronco do ar-condicionado.

Também seria bom aproximar mais os dirigentes do povo real. Fazer uma semana sem escolta, sem sirene e sem vidro fumado. Só para sentir o perfume natural do candongueiro às 18h.

Aí sim iam perceber que patriotismo não é discurso em hotel cinco estrelas. Patriotismo é conseguir viver um mês com salário normal sem começar a vender mobília da casa.

Mas apesar de tudo, Angola continua viva. Muito viva. O povo ainda ri, ainda canta, ainda inventa memes mais rápidos do que os comunicados oficiais.

E talvez seja isso que assusta certos mármores nacionais: o facto de que o povo já não engole tudo calado. Porque o angolano pode até sofrer… mas também sabe topetar.

No fundo, a verdade é outra: Angola não precisa de guerra entre elites e povo. Não precisamos de um País dividido entre os que vivem no mármore e os que vivem no poeirão. Precisamos transformar o mármore em barro. Sim… barro. Porque o barro mistura-se. Suja as mãos. Entra na vida real. O barro sente chuva, sente calor, racha, mas também molda-se. E talvez esteja aí a grande lição que falta à nossa elite: descer do pedestal e voltar a pisar o chão do povo. 

Quando o dirigente ouvir mais e discursar menos…

Quando o governante conseguir sentar num quintal simples sem parecer visita da ONU…

Quando o cidadão deixar de ver o Estado como um padrasto distante…

Talvez aí Angola comece finalmente a respirar melhor.

Porque o povo angolano não odeia os seus dirigentes. O povo só quer proximidade, respeito e verdade. Quer sentir que quem governa também sente a dor da gasolina cara, da escola sem carteira, da água que não chega e da juventude sem oportunidade.

No fundo, todos estamos no mesmo candongueiro chamado Angola. Uns sentados à frente com ar-condicionado, outros pendurados na porta. Mas o buraco da estrada bate em todos.

E um País só cresce de verdade quando o sofrimento deixa de ser exclusivo dos pobres e a responsabilidade deixa de ser exclusiva do povo. Talvez esteja na hora da elite trocar o mármore pelo barro, o protocolo pela humildade e a distância pela escuta. Porque Angola não precisa de donos. Precisa de servidores. Não precisa de super-heróis de televisão. Precisa de líderes humanos. E o mais bonito é que ainda vamos a tempo.

Porque apesar das dificuldades, o angolano continua a fazer aquilo que sabe melhor: cair, levantar, rir e continuar.

E enquanto houver povo com esperança e elites dispostas a aprender a ser barro outra vez, Angola continuará de pé, não como País de mármore frio, mas como Nação viva, quente, imperfeita… e profundamente humana. 

E, tendo o bom copo de vinho tinto como cipaio do final de semana, vou fazer com que o meu mármore interior se amoleça como o barro na chuva, e gritar bem alto: “Angola, no coração”.

Ora Viva! Excelente sábado para todos. 

*Menga-Ma-Kimfumu

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