
Não é a diversidade que fragmenta uma nação. É a percepção de injustiça. Quando as populações sentem que o Estado não distribui justiça nem oportunidades, procuram abrigo em identidades alternativas, regionais, religiosas, étnicas ou ideológicas.
Angola é diversa. Sempre foi. Dos planaltos do Huambo às margens do Zaire, do Cuando-Cubango a Cabinda, coexistem línguas, costumes e histórias distintas. Umbundu, Kimbundu, Kikongo, Cokwe, Kwanyama, Nyaneka e tantas outras expressam a riqueza cultural do nosso território. A diversidade nunca foi o problema. O desafio sempre foi transformá-la em unidade política.
A discussão sobre oficializar mais línguas surge com frequência como se fosse a chave da afirmação identitária. Mas é preciso perguntar: estamos a falar de cultura ou estamos a falar de poder?
Na política, existem forças que unem e forças que fragmentam. Quando uma decisão pública é percebida como favorecimento de um grupo específico, mesmo que esse grupo seja demograficamente maior ou não, abre-se espaço para desconfiança e competição simbólica. E, em sociedades marcadas por desigualdades regionais e ressentimentos acumulados, símbolos identitários podem rapidamente tornar-se bandeiras de disputa.
O português, com todas as suas contradições históricas, tornou-se em Angola uma língua de ponte. Não pertence exclusivamente a nenhuma etnia. Foi apropriado por todas. A guerra civil, tragédia que ninguém deseja repetir, produziu um efeito social inesperado: misturou populações, deslocou comunidades, aproximou culturas. Nos quartéis, nas cidades que cresceram com o êxodo rural, nos bairros formados por deslocados de todas as províncias, consolidou-se uma convivência interétnica que aprofundou o uso do português como idioma comum.
Hoje, nas principais cidades do país, os sotaques suavizaram-se. Jovens de origens distintas partilham referências culturais semelhantes. A língua portuguesa tornou-se ferramenta de mobilidade social, acesso ao ensino superior, à ciência, à tecnologia, ao mercado internacional. Num mundo dominado pelas ciências informáticas, pela inovação tecnológica e pela circulação global do conhecimento, ela é, até agora, a principal porta de entrada de Angola no século XXI.
Mas seria ingénuo reduzir o debate linguístico à cultura. Muitas manifestações identitárias são reflexo de algo mais profundo: má distribuição de recursos, centralização excessiva do poder, corrupção persistente, falta de oportunidades equitativas entre províncias. Quando as populações sentem que o Estado não distribui justiça nem oportunidades, procuram abrigo em identidades alternativas, regionais, religiosas, étnicas ou ideológicas.
Não é a diversidade que fragmenta uma nação. É a percepção de injustiça.
Quando o cidadão acredita que tem acesso igual à educação, à saúde, ao emprego e à participação política, a identidade cultural deixa de ser arma e volta a ser património. Quando há confiança nas instituições, a língua é ponte, não trincheira.
A unidade angolana, e o conceito de angolano, definida nos Acordos de Alvor, consagrada constitucionalmente, simbolizada no lema “De Cabinda ao Cunene, um só povo e uma só nação”, não depende da uniformidade cultural. Depende da qualidade do pacto social. Depende de descentralização eficaz, do combate real à corrupção, da distribuição justa de recursos e de um investimento sério no conhecimento.
O conhecimento é libertador. Povos instruídos questionam, fiscalizam, reivindicam com racionalidade. Quebram as amarras do obscurantismo. Participam activamente na vida pública. E isso fortalece o Estado, não o enfraquece.
Angola tem dimensão continental. Tem história complexa. Tem diversidade vibrante. O que precisa é garantir que essa diversidade não seja instrumentalizada por frustrações acumuladas. A melhor política de unidade não é silenciar diferenças, mas assegurar justiça.
A verdadeira coesão nasce quando cada angolano, independentemente da sua língua materna ou província de origem, sente que este país também lhe pertence, não apenas simbolicamente, mas materialmente.
A nação não é apenas território. É confiança partilhada.
E essa, constrói-se todos os dias.











